A morte do pai da Argentina moderna

Coluna Econômica

Morto ontem, Néstor Kirchner deixa um legado importante para a Argentina.

A economia argentina foi destroçada no período Carlos Menen-Domingo Cavallo. A paridade com o dólar destruiu a competitividade dos produtos argentinos, criando rombos nas contas externas e desindustrialização e praticamente dizimando a classe média.

Menen foi suibstituído por De La Rua e, depois, por Eduardo Duhalde. Em 25 de maio de 2003 Kirchner foi eleito com apoio de Duhalde. Pouco tempo depois rompeu com o padrinho e deu início a um governo próprio. Coube a ele desmontar definitivamente a herança Cavallo e inaugurar uma nova era na Argentina.

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Renegociou a dívida externa, impôs descontos pesados, porém inevitáveis, e acabou beneficiado pela explosão nos preços das commodities, que forneceu o fôlego que faltava à Argentina para atravessar o pior desafio da sua história moderna.

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A partir daí, Kirchner criou as bases de seu modelo econômicos, com superávits gêmeos (nas contas externas e fiscais), busca de taxas de crescimento chinesas, geração de emprego, redução da miséria, contenção da inflação utilizando a capacidade ociosa da indústria argentina, acumulação de reservas cambiais e estímulo ao consumo interno, como lembrou o jornal La Nacion.

Os indicadores foram amplamente favoráveis. De 2003 a 2007 os índices de pobreza caíram de 42,7% para 16,3%; os de miséria absoluta de 20,4% a 4,4%; o desemprego de 20% para 10,4%.

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Nessa empreitada, seu braço direito foi o Ministro da Fazenda Roberto Lavagna. A renegociação da dívida argentina foi um marco. Mesmo com descontos de 75% no valor, obteve a aceitação de mais de 70% dos credores. A reestruturação chegou a US$ 62 bilhões. Ficaram de fora apenas US$ 20 bilhões, renegociados por bancos e fundos “abutres” (que compram papéis de difícil recebimento).

Naquele mesmo ano, Kirchner utilizou as reservas cambiais para quitar a dívida de US$ 9,8 bilhões com o Fundo Monetário Internacional. Foi um grito que despertou a auto-estima argentina, depois de anos de humilhação, no tenebroso período de Domingo Cavallo.

Embora utilizasse uma retórica forte contra o Fundo, Kirchner manteve o relacionamento e cumpriu os compromissos com o órgão.

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Economista ortodoxo, preocupado com aspectos fiscais e com a inflação, Lavagna acabou rompendo com Kirchner. A partir de sua saída, Kirchner passou a controlar todos os aspectos da economia. Nacionalizou empresas, como os Correios e a Aerolíneas Argentina, criou subsídios para o consumo da classe média. E acabou por enfrentar uma oposição cerrada da mídia argentina. Ao mesmo tempo, a necessidade de crescer a qualquer preço acabou por influenciar os preços internos.

A partir de fins de 2005 a inflação voltou ao país levando Kirchner a interferir no Indec (o instituto que mede os preços no país), deixando a economia sem referências em relação aos preços.

Terminado seu mandato, foi substituído pela esposa Cristina Kirchner. Mas continuou a ser o homem da casa.

Sua morte deixa a Argentina órfã. 

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