A ocupação de espaço no próximo governo

Coluna Econômica – 08/06/2010

Um movimento que costuma passar despercebido nas eleições presidenciais é o da ocupação de espaço por parte de aliados e correligionários, já vislumbrando o próximo governo.

Na linha de frente, os candidatos disputam as eleições, com suas assessorias. Internamente, nas equipes temáticas, nas chefias de assessorias, nas alianças em curso, uma luta surda preparando o terreno para ocupação de espaço a partir de 2 de janeiro.

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Por exemplo, a tendência de um governo Dilma Rouseff – assim como de um José Serra – é ser mais desenvolvimentista, com maior ênfase à ação do Estado, estímulos financeiros e fiscais.

Os últimos episódios mostraram a entrada do ex-Ministro da Fazenda Antonio Palocci na campanha de Dilma e discursos da candidata defendendo a independência do Banco Central.

A retórica tem razões que a própria razão desconhece.

A aproximação foi saudada pelos desenvolvimentistas por algumas razões. Primeiro, por saber que o papel de Palocci será o de organizador da campanha e no futuro, talvez, de articulador político.

Depois, porque o aval de Palocci permitiu à candidatura Dilma desembarcar a do presidente do Banco Central Henrique Meirelles, excessivamente personalista.

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Há um conjunto grande de disputas também em torno dos princípios de política econômica a serem implementados.

Há a velha briga desenvolvimentistas x neoliberais. Dentro do desenvolvimentismo, há a linha que privilegia os investimentos privados e a que defende os gastos sociais. O próximo governo terá que compatibilizar e tirar uma síntese dessas duas posições.

Mas até as eleições, não espere nenhuma definição mais expressa dos candidatos sobre o que será sua política econômica. Pelas últimas eleições, cada candidato entrará em um nível de detalhe apenas o suficiente para ganhar o jogo, nem mais, nem menos.

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As definições começarão de fato no dia seguinte ao da eleição.

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E aí o próximo presidente se deparará com um quadro complexo.

Haverá um desafio imediato, que é o aumento do déficit nas transações externas. O risco foi minimizado com a acumulação de reservas cambiais. Mas dependendo do tamanho do rombo, a desvalorização cambial poderá ser significativa.

Por outro lado, entra-se em um mundo complicado. A União Européia dará início a um ajuste fiscal recessivo. A saída dos países será buscar aumentar as exportações. Há inúmeros casos de desvalorização competitiva em andamento e o Brasil está fora do jogo, o único país que apreciou sua moeda e está ampliando suas importações.

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O desafio continuará sendo o câmbio. A dúvida é como administrar desvalorizações em uma economia global em que as cotações não são mais definidas pelas condições objetivas da economia real, mas pelo mercado de derivativos – nos quais são feitas apostas sobre ativos e moedas.

Para fontes da Fazenda, mesmo que taxa de juros internas estivesse alinhada com as taxas internacionais, ainda assim haveria pressão de valorização devido à situação do resto do mundo.

O nó está na falta de regulação do mercado de derivativos. Mas nem G7, nem G20 parecem ter encontrado a solução. 

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