A relação da internet com a produtividade

Da Folha

Internet não trouxe produtividade à economia como motor a vapor e eletricidade

RICARDO MIOTO

A frase é do Nobel da Economia Robert Solow: “Vemos a era dos computadores em toda parte, menos nas estatísticas de produtividade”.

Novos estudos mostram que os computadores e a internet, apesar do barulho causado, ficaram longe de impactar o desenvolvimento econômico como fizeram o motor a vapor e à eletricidade.

Quem chama a atenção para o tema é o economista André Lara Resende, idealizador do Plano Real, no seu recém-lançado “Os Limites do Possível” (Portfolio Penguin).

A tecnologia impacta o PIB assim: permite, com a mesma quantidade de funcionários, máquinas e insumos, produzir mais itens. Ou seja, aumenta o produto final da economia com a mesma população. Cria maior renda per capita.

A partir do século 18, a tecnologia evoluiu muito rapidamente. Como diz o economista americano Robert Gordon, “[pense que] a velocidade do transporte aumentou de dez km/h, a cavalo, para 800 km/h, de Boeing 707”.

Para analisar o impacto de cada invenção na produtividade, ele publicou um artigo científico em agosto de 2012. Estudou três revoluções:

1) Motor a vapor e ferrovias, que são de 1750 a 1830;

2) Eletricidade, motor de combustão interna, água encanada, petróleo e indústria química, de 1870 a 1900;

3) Computadores, internet e celulares, de 1960 até hoje.

Gordon concluiu que a segunda revolução foi a mais importante: “Teve consequências até os anos 1970, com aviões, ar condicionado, autoestradas e urbanização”.

A internet não teve o mesmo sucesso. Nos anos 1970, o crescimento médio da produtividade nos EUA teve uma queda brusca de quase 2% ao ano para 0,8%, o padrão das últimas décadas. O próprio Boeing 707, aliás, é de 1958.

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Embora no início a terceira revolução até tenha trazido mais produtividade –processamento de dados no setor bancário, por exemplo–, as inovações ao longo do tempo foram voltadas mais para o entretenimento e as comunicações pessoais do que para os processos produtivos. O Facebook e os jogos eletrônicos são dois bons exemplos.

Alguns avanços, como o e-commerce, até ajudam, mas nada que faça as taxas voltarem ao patamar anterior.

Até porque, diz Gordon, “a maioria das invenções recentes da informática não trouxe transformações fundamentais, mas miniaturização; o iPhone, por exemplo, só junta funções que laptops e celulares antigos já tinham”.

Esse “fracasso” da internet traz angústia aos países ricos.

Se países como o Brasil ainda podem crescer incluindo seus pobres, isso não vale para eles. Europa e EUA terão dificuldade para tornar mais produtivo um povo já altamente educado. A infraestrutura também já está pronta, não há gargalos a destravar.

É possível questionar se esses países precisam continuar crescendo, já que atingiram um padrão de vida bem satisfatório. O problema é a resposta: agora é tarde para decidir pela estagnação.

Até pela queda no aumento da produtividade média após 1970, os governos procuraram outras maneiras de aumentar o PIB. Uma delas, utilizada pelo banco central dos EUA, foi estimular por anos o crédito (e o consumo) com uma política de juros baixos.

O problema é que exageraram na dose e, em 2008, o mundo se viu endividado muito além do que recomendaria o bom senso. A chance de calotes em cascata quebrarem os bancos era grande. Mas 1929 ensinou que deixar bancos quebrarem, apesar de pedagogicamente bonito, leva toda a economia junto pelo ralo. Tal opção foi descartada.

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A solução: governos assumindo dívidas dos bancos. De EUA à Espanha, passando pelos feridos de guerra Grécia e Irlanda, a consequência é que vários países ricos estão muito endividados agora.

A solução para a relação dívida/PIB alta é crescer –aumentar o PIB. Com isso, a dívida fica proporcionalmente menor, como um pai de família que é promovido e percebe que a prestação de casa deixou de ser um mostro.

Ou seja: os países ricos precisam da próxima eletricidade, mas ninguém sabe se ela virá.

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