As desigualdades na agricultura, por Rui Daher, em CartaCapital

(para quem ainda me procura por aqui e não vai a CartaCapital ou Facebook)

A exemplo de nosso diretor de redação, a prezada leitora Cristiane costuma conversar com seus botões e, como eu, analisar os temas usando uma lupa. Ela pergunta a CartaCapital, que me repassa: 

“Os agricultores e pecuaristas recebem uma série de incentivos do governo, acredito que para a alimentação do povo brasileiro, mas a questão é que estamos com uma alimentação péssima, tudo caro e de má qualidade, enquanto os agricultores exportam o que há de melhor. Resumindo, o governo oferece isenção de impostos para agricultores e pecuaristas exportarem e nos deixarem comendo mal? É isso mesmo? Ou já estou pirando?”

Cristiane, em relação aos incentivos do governo, pirada estaria se pensasse o contrário. Em relação à qualidade da alimentação, trata-se de um tema complexo em que não podemos enfiar tudo num mesmo saco de maldades. A qualidade da alimentação brasileira que vai para exportação é obrigada a exigir padrões e legislações específicos de cada país importador. Muitas vezes, mais por interesses comerciais do que sanitários.

Mas, com exceção do uso exagerado de agrotóxicos, os alimentos brasileiros que chegam às nossas mesas, em geral, são de boa qualidade. Refiro-me aos naturais, que poderiam ter sua toxicidade diminuída com produtos que ajudam a reduzir as aplicações de agroquímicos e tóxicos. A maior parte do problema, no entanto, ocorre nos alimentos processados que necessitariam de maior fiscalização. 

Outro ponto de que se tem uma visão distorcida da realidade é em relação a preços, no que nossas folhas e telas cotidianas ajudam muito a demonizar. 

Não se deve generalizar. Como qualquer mercadoria, no sistema capitalista, os preços seguem a relação entre oferta e demanda. Nos produtos de exportação, também o câmbio, e o mesmo acaba se refletindo no mercado interno. 

Em princípio, por aspectos de solo, clima, disponibilidade de água, biodiversidade (se pararem de destruí-los), vocação para a agropecuária, no Brasil, os alimentos são, relativamente, baratos. Basta compará-los aos de outros países. 

O problema está mais na pobreza da população, massacrada pela baixa renda, serviços insuficientes educacionais e de saúde, além da precariedade nos transportes. Sem poder aquisitivo, determinado por distribuição, tudo fica caro, até os alimentos.   

Um reparo: os mesmos incentivos à produção para exportação deveriam chegar às produções de arroz, feijão, mandioca, hortaliças, leite, enfim, aos “pratos do dia”, a maioria deles saída da agricultura familiar

Na coluna anterior, dou um toque sobre a situação dos produtores de hortaliças, legumes e frutas, essenciais para a nossa alimentação. Sem qualquer apoio. 

No domingo, num sacolão de São Paulo, ouvi um casal conversando. Ela, toda alegre, para o companheiro: “Nossa! Como abaixaram os preços das frutas, legumes e verduras”. 

Pensei interferir: “Senhora, a sua alegria reflete exatamente a tristeza de caboclos, campesinos e sertanejos que passam das quatro da madrugada às cinco da tarde cuidando de seus canteiros ou pomares. Gastam com insumos de preços cartelizados e distribuição cara. Dos bancos esperam sentados os diligentes bancários soltarem os financiamentos e cobrarem taxas absurdas, que fizeram os lucros dos bancos crescerem 15% no último trimestre”.

Poucos são os agricultores com tal acesso. A maioria está inabilitada ao crédito, pois inadimplente, terra empenhada, tratores e implementos de ferros-velhos, ou trabalhando em terras arrendadas.

Resisti. Minha idade é boa fotógrafa e fez pressentir pessoas que bateram panelas, envolvidas no pavilhão nacional. À primeira alta de tomates ou salsinhas, delatada pela bancada do Jornal Nacional, diriam: “Aquele senhor do sacolão não entendia bulhufas de agricultura”.

Não sei em quantas colunas, nestes anos de site de CartaCapital, fui contra a manada ruralista, que usa suas bancadas, confederações, federações, entidades patronais, para reclamarem favores, muitos deles contrários à preservação ambiental, à saúde humana, e outros setores da própria economia do País.

Escrevi várias vezes que o foco de melhorias e incentivos não deve ser procurado no Ministério da Agricultura. Este, assim, assim, atende aos interesses dos grandes, ainda mais hoje quando capitaneado por uma quadrilha golpista.

O apoio, necessário à boa qualidade e preços de nossa alimentação básica, aquela que chega às nossas mesas, restaurantes com refeição a quilo, enfim, à vida de nossa população, estava no Ministério de Desenvolvimento Agrário, hoje em dia, praticamente extinto.

Intensificava o apoio à agricultura familiar, reformulava a lavoura em assentamentos através de arranjos produtivos locais que garantissem distribuição e comercialização lucrativas.

Comeríamos bem e ajudaríamos à inserção social no País. Cristiane, estou à sua disposição e de seus botões em CartaCapital.

https://www.youtube.com/watch?v=ntYOF-NACgY

 

 

5 Comentários

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Rui Daher

- 2018-01-11 19:54:29

Zé Sérgio,

vou verificar. Qualquer possibilidade  de providência te aviso. Abs.

ze sergio

- 2018-01-10 23:43:05

caro....

Caro sr. Rui, figura ilustre que frequenta Piedade. Vou lhe arranjar mais uma tarefa. Piedade, paraíso da Mata Atlântica, de águas, cachoeiras, matas, bromélias, orquídeas, ipês, flores, manacás da serra, gengibres, morangos, caquis, pomares e ainda algumas cebolas não merece que aquele córrego do Bairro dos Leites esteja tão poluído. Das Lavras se não me engano.Há alguns dias, parecia o Tiête, com sua água escura e fétida. E milhares de sacolas e garrafas plásticas pelas margens. Para quem conheceu aquelas águas de maravilhosas cascatas e quilos e mais quilos de pitús. Que desgosto. Já não tem tantas tarefas? Mas faça este esforço pela limpeza de um patrimônio da Mata Atlantica que era totralmente limpo há menos de 15 anos atrás. Algum recurso para isto, o sr. deve ter. Tenho certeza. abs.    

Rui Daher

- 2018-01-10 17:48:49

Caro Zé Sérgio,

com alguma determinação interna que não permite mais que minhas postagens "subam", às páginas principais, como destaques, corremos o risco de o BRD virar um diálogo entre mim e você, o que ainda me satisfaz. Pesei a mão em algumas críticas internas e comentários, que reconheço equivovadas e desproporcionais à forma em que sempre fui tratado no GGN e desde o primeiro dia em que comecei a comentar no LNOnline, um dos pioneiros que fui.

Mas, mesmo da forma como está hoje, até ordem ou decisão em contrário, não irei desistir do BRD. Creio ter feito uma bela história aqui  e a consideração que você me proporciona com seus densos comentários, me faz ir em frente e, talvez, um dia, recuperar a credibilidade. Colunista semanal do site de CartaCapital continuo sem qualquer problema.

Quanto aos seus dois comentários de hoje, são pertinentes e infelizmente amargos. Mas a maior parte deles não pode ser negada. É a vida como a vida é no Brasil. Até poderíamos discutir alguns pontos. Mas estou enfiaddo em nossa querida Piedade, trabalhando para viver a vida como ela é no Brasil.

Do agronegócio, pretendo em minha coluna da próxima semana de CC, fazer furiosa réplica a um professor que publicou que com o agronegócio não mais existe agricultura. Verás que me domesticar será difícil.

Abraços e obrigado por visitar-me.

ze sergio

- 2018-01-10 12:32:17

as....

Somente mais uma coisa sobre as tais verdades. FEBRE AMARELA vem galopando para a maior cidade do país, como a tragédia da falta de água, pela Incompetência Picolé. Sumiu para não derreter antes mesmo da largada. Mortes não são relatadas. FEBRE AMARELA  é subnotificada. A cara do novo velho Brasil. Então desespero velado. Filas quilométricas por vacinas que não existem. Que são fracionadas, e terão menos eficiência. Por vacinas que não existem, por que o problema foi escondido, não foi antecipado, por que os estados, principalmente São Paulo, deixou de controlar através da SUCEN, as áreas de mata onde existe a doença entre os macacos. Região da Serra da Cantareira, divisa entre o estado do MT, Vale do Ribeira até as divisas de Sorocaba. DAVID UIP sua frio, dando entrevista. Como esconder mais esta cagada?! O Brasil é de muito fácil explicação. (mais uma vez, obrigado)    

ze sergio

- 2018-01-10 11:41:11

as....

Caro sr., leio sua matéria enquanto ouço Márcio França, vice governador de SP (Aquele do PSB de Arraes. Tudo na política tupiniquim termina no fundo da mesma latrina), dizendo a verdade, sem querer dizer, o que espera da Política. Que a poeira abaixe e tudo continue da mesma forma, como nestes 40 anos redemocráticos. O sr. espera uma revolução na agropecuária e suas políticas? O Povo espera uma revolução? Quem espera, aguarda o trem que chegará na plataforma. Construir outra realidade é a diferença. Comida é mais barata que lixo (comida não industrializada) Mas não existem discussões, não existem matérias, não se fala das realidades nacionais. Tudo muito na superficie. Quem fala e escreve vai perdendo espaço. Falamos que somos 'conectados', que esta geração é da internet e destas tecnologias. Só não falam que Nós, Nação Tupiniquim, só entramos nesta vanguarda e mercado como a parte que paga as contas por produtos e serviços desenvolvidos por outras Nações. O tal 'casal' do sacolão, não reflete que o seu celular custa mais que tudo que gastarão com comida durante todo ano. É a História do Brasil. Tomate, feijão, batata sempre segurarm Inflação e boas e más notícias de Economia. Conforme é necessário aos grupos oligopolizados que gastam com Propaganda e Mídia. Agricultor, Pecuarista gasta em comercial na RGT? Então Renata e Bonner, culpam o aumento do tomate em 100%. Absurdo inflacionário, passou de 2 para 4 reais/Kg. Enquanto ano após ano, nos vendem as tais 'carroças populares' que eram 15 mil, depois 25 mil, hoje na casa de 45 mil reais. (Mas aquele cheirinho de carro novo !!  Criminoso é aquele lucro do agropecuarista, latifúndiário, escravagista, poluidor, devastador. Como podem?! A culpa da inflação é dos 100%). As Universidades e povo norte americano nos estudam. Nós não nos conhecemos em pleno 2020. Para que? Acreditemos naquilo que nos informam. Temos como absoluta verdade. Para que construir outra realidade. Estamos tão bem, não é mesmo?! Abs.  

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