As dúvidas sobre a Latam

Decolagem turbulenta: 

De O Globo

GIGANTE NO AR, NUVEM DE DÚVIDAS

Fusão da TAM com chilena LAN gera apreensão para acionistas minoritários

Publicada em 22/08/2010 às 23h35m

Bruno Villas Bôas

RIO – Uma operação confusa e mal explicada. Foi assim que pequenos investidores receberam a fusão da TAM com a chilena Lan Chile, que vai criar uma das maiores empresas aéreas mundiais: a Latam, gigante com 115 destinos em 23 países. Para muitos especialistas, a fusão foi, na verdade, uma aquisição da TAM pela chilena. Além disso, informações desencontradas e o fechamento do capital na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) levantaram dúvidas entre acionistas minoritários. O que fazer com os papéis da TAM? Na opinião de analistas, o melhor é manter as ações na carteira e aderir à oferta pública de aquisição de ações (OPA) da aérea brasileira, o que deve ocorrer dentro de seis a nove meses.

Especialistas explicam que o maior benefício será trocar ações de uma empresa que ainda deixa a desejar em qualidade de gestão (a TAM, que acumula prejuízo de R$ 212 milhões neste ano e trocou quatro vezes de presidente) por uma nova empresa, com melhores indicadores. Somente em sinergias, espera-se um ganho de US$ 3 bilhões nos próximos anos.

ATAM- A TAM não é um bom exemplo de gerenciamento. Tem custos altos por assento ofertado, bem maiores do que a Gol. A LAN, por outro lado, é uma referência. Assim, investidores ganham na troca – diz Rossano Oltramari, analista-chefe da XP Investimentos.

O interesse do mercado ficou claro em 13 de agosto, quando a fusão vazou em um portal e as ações da TAM subiram 27,64%. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) vai investigar o vazamento. As empresas apressaram-se para anunciar a fusão, o que aconteceu com o mercado ainda em pleno funcionamento. O resultado é que até a última sexta-feira a TAM ainda tirava dúvidas de analistas sobre a operação.

Leia também:  IPCA-15 sobe 0,94% em outubro, maior resultado desde 1995

Riscos regulatórios podem atrapalhar papéis da TAM

Com a fusão, a TAM vai fechar o capital na Bovespa. Simultaneamente, as ações da Latam passarão a ser negociadas na Bolsa de Valores do Chile. As ações da Latam também serão negociados na Bovespa, mas por meio de recibos, os Brazilian Depositary Receipts (BDR). São papéis que representam ações de companhias com sede no exterior.

Mas, para fechar o capital, a TAM precisará realizar a oferta pública de aquisição de ações na Bovespa. Não haverá pagamento em dinheiro pelos papéis. Quem tem ações da TAM poderá trocá-las pelas BDRs da holding Latam. A relação de troca será de 0,90, ou seja, por cada cem ações da TAM o investidor receberá 90 BDRs da Latam, por exemplo. Para que a oferta seja concluída, pelo menos 95% dos acionistas minoritários precisarão aderir.

Para Brian Moretti, analista de transportes da Planner Corretora, a oferta tende a ser bem sucedida. Mas ele acredita que o prazo da operação deve ser maior que os seis a nove meses calculados pelas empresas. Ele lembra que a aquisição da Pantanal pela TAM levou seis meses para ser aprovada no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), embora fosse uma empresa de pouca expressão.

Mesmo que bem recebida pelo mercado, a operação traz algumas incertezas. O maior risco está na Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) encontrar alguma irregularidade na estrutura da operação. Pela legislação, um estrangeiro não pode ter mais do que 20% de uma companhia aérea brasileira. Por isso, a operação tem uma intrincada composição acionária. No exterior, analistas tratam a fusão como compra da TAM pelos chilenos.

– Esses riscos existem e estão no preço das ações. Pelos valores envolvidos na fusão, o preço justo das ações da TAM estaria na faixa de R$ 43. Mas está sendo negociado a R$ 36. Essa diferença é o risco – diz o analista da Planner.

Leia também:  Giro Econômico GGN: confira um panorama econômico global

Vale lembrar que embora analistas estrangeiros caracterizem a operação como compra, não houve mudança no controle da TAM. A família Amaro continua com 80% do capital votante. Isso significa que não haverá um tag along (regra que permite ao acionista minoritário receber pelo menos 80% do preço pago ao bloco de controle).

Ações da Gol, mais baratas, entram na mira de analistas

Os Amaro também permaneceram como controladores da Multiplus, subsidiária da TAM responsável pelos programas de fidelização da companhia aérea. Mas a Multiplus, que abriu capital este ano, continuará listada na Bolsa.

Com o avanço das ações da TAM desde o anúncio da fusão, a Gol entrou no radar de investidores. A ação acumula este ano uma queda de 5,63% na Bovespa. Para Rosângela Ribeiro, analista da SLW Corretora, os papéis da Gol tem agora maior potencial de ganho na Bolsa:

– As ações da Gol ainda tem espaço para se valorizar, diferentemente das ações da TAM. Ela precisará agora se esforçar um pouco mais para mostrar rentabilidade.

Segundo a analista, o mercado aguarda agora com ansiedade a possível aprovação da lei que aumenta de 20% para 49% o limite da participação de estrangeiros em empresas de aviação brasileiras. O Projeto de Lei 6716/09 pode entrar na pauta de votação da Câmara dos Deputados no primeiro semestre do ano que vem.

Também ligada à aviação, a Embraer recuperou-se recentemente da crise mundial que provocou suspensão de encomendas e corte de funcionários. As ações já valorizaram-se 17,30% este ano. Alan Cardoso, da Ágora Corretora, afirma que papéis da Embraer ainda trazem incertezas.

Leia também:  Giro Econômico GGN: confira um panorama econômico global

– Não se sabe quando a Embraer terá grandes pedidos novamente – afirma. 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome