Brics e um mundo em transformação

DO TERRA MAGAZINE

Tudo se transformou

Rui Daher
De São Paulo 

“Ah, meu samba 
Tudo se transformou
Nem as cordas 
Do meu pinho
Podem mais amenizar a dor”
(Paulinho da Viola)

China e Índia são os grandes caroços no angu de vários economistas. Pelo menos, dos que vivem de tocaia para avisar da catástrofe que se aproxima. Há 30 anos, exercitam o mau hábito de anunciar da solidão de suas torres o fim da cigarra asiática que puxa com ela os crescimentos de outros países emergentes, como Brasil, Rússia, África do Sul, Indonésia.

Não só, mas também das agonizantes economias europeias e das tímidas recuperações norte-americana e japonesa.

Lembra o tropel midiático do início do ano sobre a “desabalada” alta dos preços, já que a única memória que parece admitir-se nos brasileiros é a inflacionária. Agora que a fúria das remarcações parece arrefecer, lembremos frase do escritor Ivan Lessa de que “a cada 15 anos, o Brasil esquece o que aconteceu 15 anos atrás”.

Captação de energia eólica na China (foto: Greg Baker/AP)

Não é de hoje que lemos análises medidas por uma régua que não contempla as transformações que estão ocorrendo no planeta.

Em entrevista para a Folha de S. Paulo (12/06/11), competente e provecto professor da Unicamp afirma: “Estamos cantando por exportar galinha, soja e minério de ferro. Isso nunca deu futuro a ninguém“. A coluna sugere que ele ouça o samba de Paulinho da Viola em epígrafe.

Ainda que o tamanho desse futuro não tenha sido mencionado, ele ajudou cerca de 30 milhões de brasileiros abandonarem a linha de pobreza. Estamos, pois, diante de uma assunção da retórica cepalina (CEPAL – Comissão Econômica para a América Latina e Caribe), de mais de 50 anos e que não acredita no que está vendo.

Achar que vivemos um dilema cambial com altas taxas de juros capaz de travar o crescimento industrial é correto. Que precisamos investir mais em novas tecnologias, também. Misturar isso com fôlego curto ou inocuidade de nossas exportações de bens primários é bobagem.

Suportamos um mundo em reordenação. Hoje, os sistemas econômicos, políticos e ambientais extrapolam as bases fincadas no pós-II Guerra. Começa a esgarçar-se o que foi acertado em Bretton-Woods.

Nas próximas décadas a maior parte do aumento de demanda por energia, transportes, urbanização e alimentos ocorrerá nos países emergentes. Segundo Michael Spence, Nobel de Economia, “o número de pessoas que viverão com nível de renda equivalente aos dos países avançados será de 4,5 bilhões”. Metade da população projetada para 2050.

Não há como esses aumentos de renda e deslocamento para centros hegemônicos mais difusos não resultarem em pressão sobre os preços das commodities e, pior, sobre os recursos naturais disponíveis no planeta.

“Perspectivas Agrícolas 2011 – 2020”, estudo conjunto da FAO – órgão da ONU para agricultura e alimentação – e da OCDE – Organização para Cooperação e o Desenvolvimento Econômico -, cuja divulgação antecederá a reunião de ministros de Agricultura do G-20, prevê mais dez anos de alta nos preços das commodities agrícolas.

Mais uma vez, ao Brasil é reservado papel preponderante como fornecedor de alimentos, fibras e energia, o que torna difícil acreditar que “isso nunca deu futuro a ninguém”.

Mais do que repetir chavões do passado, é necessário estudar os novos comportamentos que as sociedades precisarão adotar para conviver com as transformações ocorridas no planeta nas últimas décadas.

Nos últimos 30 anos a população mundial passou de 4,5 para 6,8 bilhões de habitantes, um crescimento de 51%. No período, segundo a FAO, a produção física dos 20 principais alimentos aumentou 70%. Fora o desperdício, alguém comeu mais do que devia.

Por volta de 31 de outubro deste ano, o mundo chegará aos sete bilhões de habitantes. Em 2050, serão nove bilhões com maiores exigências de consumo.

Se repetirmos os mesmos modelos usados até agora, serão tantas as dores que nem mesmo as cordas de um pinho poderão amenizá-las.

Luis Nassif

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