California em chamas e o apagão de um modelo, por Alfeu ESF

'A história de mudanças climáticas é uma história de ganância e má gestão ao longo de décadas. De um desejo de não promover a segurança pública, mas os lucros'

©Alan Dep/Marin Independent Journal via AP

Por Alfeu ESF

“Na minha perspectiva, essa não é uma história de mudanças climáticas, mas de ganância e má gestão ao longo de décadas. Negligência, um desejo de promover não a segurança pública, mas os lucros”

Essa foi a resposta que o governador da Califórnia, Gavin Newsom, diante da justificativa da maior empresa de serviço público do estado, a PG&E (Pacific Gas & Electric Co.) responsável pela distribuição de energia elétrica no norte  e na região central do estado, pelo corte no fornecimento de energia elétrica, ocorrido na quarta-feira e principalmente na quinta-feira da semana passada, deixando por volta de 3 milhões de cidadãos completamente sem eletricidade, sob a alegação de que essa manobra era para garantir a segurança do entorno das linhas elétricas e que devido aos fortes ventos (Diablo winds, secos e quentes)  do momento, poderia causar mais um grande incêndio. Isso porque nos dois últimos anos alguns desses incêndios foram causados a partir dos equipamentos sem condições de uso da própria PG&E.

A empresa,  já com pedido de falência, seguiu à risca a receita neoliberal de corte extremo de custos, leia-se manutenção, deixando a sua infraestrutura num processo de precarização contínuo; e ela mesma avalia que a recuperação da infraestrutura teria um custo de US$ 3 milhões/milha no caso de se tornarem subterrâneas; e de US$ 8oo mil/milha na renovação da estrutura aérea.

A população,  claro, é que ficou mais uma vez com o prejuízo maior, com escolas fechadas, atendimento hospitalar limitado e o dia a dia prejudicado como, entre outros motivos, o comercio trabalhar apenas com dinheiro vivo nessas ocasiões.

©Associated Press

De fato, no dia seguinte,11/10, mais um incêndio se propagou pelas florestas na região de Los Angeles, deixando 100 mil pessoas desabrigas e mais alguns mortos e que durante esse tempo todo havia a ameaça dos ventos vindos do sul (Santa Ana winds), extremamente quentes e secos, que acabam deixando a região muito mais sensível a um desastre maior. Esse é um outro evento, em níveis catastróficos , que o cidadão tem sido obrigado a conviver nas últimas duas décadas, não só causados pelas atividades do homem, mas devido, também pelas condições ambientais e meteorológicas locais.

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Entre incêndios e apagões outros setores importantes da economia, como a indústria e a agropecuária, enfrentam as dificuldades dessa nova realidade. Um estúdio de Hollywood ja foi tragado pelo fogo, o bombeamento de água utilizada nos processos industriais fica comprometida pela falta de energia. Da mesma forma a agricultura fica igualmente prejudicada na utilização da água em serviços gerais e principalmente na irrigação.

 

©Justin Sullivan/Getty Images

E aqui chegamos em mais um nó que o estado da Califórnia vem enfrentando, que é a disponibilidade de água principalmente para o consumo humano.A partir dos anos 50 do século passado, a perfuração para a obtenção da água subterrânea vem se intensificado cada vez mais; e dos anos 70 em diante o volume de água que retorna ao subsolo tem sido menor ao o que foi bombeado para a superfície.

A sua utilização é feita principalmente pela setor agrícola que se estende pelo Vale Central(Central Valley), e que repousa sobre um complexo de aquíferos que leva o seu nome. As técnicas agrícolas tem exigido atualmente uma grande quantidade de água, e nos plantios onde um aqüífero é a fonte de água, eles acabam se esgotando. A Califórnia marcha nesse sentido e, principalmente por causa da seca que o estado vem sofrendo, perfura-se mais e mais profundo para alcançar as reservas de água dos lençóis freáticos e do aqüífero. Essas ações tem como consequência dois graves problemas; o primeiro é que os custos dessas perfurações mais profundas tem aumentado muito, o que dificulta muito o cidadão comum ter acesso a essa água. A segunda questão é que a qualidade dessa água vai caindo quanto mais profunda ela for obtida e vai ficando mais salgada o que a torna sem utilidade para a agricultura.

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©Justin Sullivan/Getty Images

Como se deve esperar, os cidadãos não estão assistindo passivamente aos constantes apagões, além dos demais problemas que eles vem sofrendo nos últimos anos; respondem com várias manifestações como a da foto acima ocorrida em dezembro de 2018. As manifestações tem se tornado mais violentas, ao ponto de que a da última semana foram lançados ovos e outros objetos na sede da PG&E e por conta disso foi necessário cercar  prédio da empresa com seguranças.

Mesmo sendo o estado da Califórnia a quinta economia mundial e líder em vários setores em seu país, ele encerra grandes contradições, dentro da ideia do que seja próspero. Além da economia, contam com grandes universidades e ainda é onde se localiza um centro de tecnologia que nas últimas décadas se mostrou extremamente importante; o Vale do Silício que foi um dos responsáveis pela formatação do mundo atual. Ali se encontram empresas consagradas há bastante tempo, como também start-ups  provedoras de soluções; todavia toda essa infraestrutura não consegue  dar uma resposta aos graves problemas da distribuição de energia elétrica, dos problemas ambientais relacionados com os incêndios florestais (causas e consequências), a rápida degradação da qualidade das águas subterrâneas dos lençóis freáticos e dos aqüíferos e etc.

Como atualmente não se vive o momento, as questões atuais que se manifestam há tempos, já poderiam estar solucionadas, principalmente no caso da distribuição de energia, mas parece se são pegos de surpresa é algo novo; e no caso da água, se projeta para se resolver no futuro, mas o problema já está sendo vivido agora.

Não se deve achar que o poder publico foi incapaz de acionar toda essa infraestrutura de ponta para solucionar os profundos problemas que o estado passa; não é também uma má gestão de uma empresa ou ainda uma decisão política mal tomada não. O fato de que se chegou a esse ponto é porque é esse o modelo  que sempre se buscou. Apesar de muitas dessas empresas terem suas campanhas institucionais, de apoiarem movimentos sociais e do meio ambiente, as suas práticas, as atividades fins vão no sentido oposto a tudo isso, e avançam contra eles e se não, ficam indiferentes aos reais problemas; a Califórnia é um exemplo disso.

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Essa crise não é um momento, não passa tão cedo, é o último estágio do capitalismo. O dragão agoniza, mas não morre logo não. É a pior fase, vai ainda fazer muito estrago, mas é irreversível e os paliativos, inúteis.

Atualmente na Realidade Californiana não me sentiria seguro se estivesse em Los Angeles; talvez o calor das florestas em chamas me afetaria. Mas entraria numa igreja e me poria de joelhos rezando de verdade para o capital. Mas se você quiser ir para São Francisco, as pessoas ainda são gentis com uma boa dose de revolta, cheios de problemas em suas cabeças.

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+info:

France 24 – Are California blackouts the new normal for the state?

The Guardian – California wildfires bring destruction to Los Angeles suburbs

The Orange County Register – 1.5 million Californians in the dark, most now for 2nd day

Business Insider – California’s economy is now the 5th-biggest in the world, and has overtaken the United Kingdom

academic.emporia.edu – The Aquifer of the San Joaquin Valley

Pacific Standard – Groundwater depleition may cause domestic wells to dry out

 

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