O novo desenho da oposição

Coluna Econômica

A maior virtude dos regimes democráticos é a possibilidade de ajustes periódicos nos movimentos econômicos, provocados pela política. Na democracia, o agente revitalizador da economia são as eleições. São elas que corrigem os excessos do período anterior.

Desde os anos 90, trabalho com o conceito do pêndulo para explicar esses movimentos.

Um determinado período é dominado por um conjunto de conceitos econômicos – em geral, corrigindo vícios do período anterior. A nova fase torna-se dominante. Novos grupos assumem o poder. Em uma primeira fase, esvazia-se o discurso oposicionista – herança da fase anterior, quando ainda era situação.

Sem oposição, há um processo entrópico que acaba por gerar distorções que vão se avolumando – justamente por haver redução das pressões externas. Até que novos vícios substituem os anteriores, permitindo fortalecer novamente o discurso dos opositores.

É por aí que as democracias maduras vão se ajustando, coibindo abusos e impedindo que os movimentos do pêndulo sejam muito agudos.

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aAteAté agora, no Brasil esse movimento pendular muitas vezes jogou fora a criança com a água de banho.

Nos anos 70, o sucesso econômico convalida uma política econômica pró-ativa que deflagra um movimento absurdo de ampliação do poder do Estado. Esse pêndulo se radicaliza ao longo dos anos 80 e é rompido de forma traumática no primeiro ano do governo Fernando Collor.

Corrigem-se muitos vícios, como o excesso de regulamentação, o fechamento da economia. Mas joga-se fora grandes avanços, como estruturas relevantes de Estado, em uma reforma administrativa desastrosa.

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A partir do governo FHC há uma radicalização do modelo, o desmonte do Estado.

O lema inicial de FHC, de um estado enxuto, porém forte, não foi implementado. Cabeça mais lúcida do PSDB, apenas o ex-Ministro Luiz Carlos Bresser Pereira tinha um conjunto sistemático de idéias capazes de levar ao objetivo proposto. De nada adiantou devido à inoperância de FHC e à ideologia burra do ajuste fiscal.

Ministérios ficaram desaparelhados, centros de pensamento desarticulados, áreas de projetos desmontadas, terceirização ampla e irrestrita matando o sonho de Bresser de fortalecer uma elite pensante do funcionalismo público.

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Nos últimos anos, especialmente após a crise global, o pêndulo inverteu seu movimento. O setor público passou a ser melhor aparelhado, ministérios estão recobrando sua capacidade de formulação, as grandes estatais mostraram sua importância estratégica. Muitas lacunas importantes de mercado estão sendo preenchidas por novos órgãos que estão sendo criados. Com o sucesso da economia, todos esses movimentos são aceitos e, no início do processo, seguem uma racionalidade plenamente defensável.

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Depois de recomposto o Estado, poderá se entrar na era dos excessos. Aliás, esses excessos – em uma direção ou em outra – sempre se deveram à falta de oposições com idéias claras.

Consolidam-se os interesses dos vitoriosos e, à falta de oposição, cria-se uma entropia, uma incapacidade de impedir os abusos de dentro para fora.

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A nova oposição necessariamente terá uma visão mais voltada para o mercado.

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O fator Rockefeller

Mais lúcido dos grandes empresários norte-americanos, ainda nos anos 40 Nelson Rockefeller acreditava que a América Latina só iria se desenvolver depois de constituir uma classe média moderna, que permitisse arejar o mundo político e acabar com o predomínio dos velhos coronéis políticos. Nos anos 40 e 50 estimulou o mercado de capitais no continente, as pesquisas agropecuárias, as pesquisas científicas.

As novas classes sociais

Hoje o Brasil passa por uma segunda rodada modernizadora, com a ascensão social das novas classes populares. No momento, a bandeira fundamental é a da inclusão social. Daqui a algum tempo, o empreendedorismo terá papel fundamental. Ao contrário do besteirol divulgado nos últimos anos, as novas classes sociais serão conservadoras – no sentido, de pretender manter o status quo para garantir sua melhora permanente.

O discurso para o próximo tempo

Por isso mesmo, o discurso a ser exercitado desde agora pela nova oposição será o do empreendedorismo, da desburocratização, do apoio às pequenas e micro empresas, ao empreendedor individual, a crítica aos excesso do Estado, à carga tributária desequilibrada, à importância da gestão pública. No início dos anos 90, Guilherme Afif Domingos já havia exercitado esse discurso. Mas o país ainda não estava pronto. E o goveron FHC esmagou o pequeno empreendedor.

Sem rupturas

A parte mais rica e interessante da história é que o próprio Lula e a candidata Dilma Rousseff já perceberam que o próximo público a ser atendido será dos pequenos empreendedores. Se houver juízo da parte do próximo governo, levará a disputa política para esse novo campo e coibirá excessos. O pêndulo não se inclinará tanto, permitindo uma disputa equilibrada em torno das bandeiras políticas.

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O fator Aécio

Ontem, o ex-governador Aécio Neves concedeu entrevista ao IG, onde se habilita claramente a ser dono do novo discurso da oposição. Nada de radicalismos, rupturas, denuncismos primários, como os praticados pelo candidato José Serra. Sem pressa, expõe a nova plataforma, propõe definição de pontos em comum entre governo e oposição, em torno dos quais o país possa se desenvolver. E apresenta as diferenças.

O novo quadro político

O novo quadro partidário será definido no decorrer dos próximos anos. De um lado, há quadros petistas sendo gestados. Do outro, uma boa safra de políticos e governantes não-petistas, como Aécio, Sérgio Cabral, Paulo Hartung, além dos conhecidos Ciro Gomes e Geraldo Alckmin e os bons quadros do PSDB sob nova direção. Será o fim da era FHC-Serra mas o início de um novo período, mais promissor e construtivo para a oposição. 

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