Dilma e o dilema do câmbio

Coluna Econômica – 24/05/2010

Mais cedo ou mais tarde a candidata a presidente da República Dilma Rousseff terá que encarar a questão do câmbio. Na sexta-feira, em Nova York, enfatizou o apoio à independência do Banco Central e deu sinais de que Henrique Meirelles continuará à frente do Banco Central no seu governo.

Acalmou os investidores mostrando serem infundados os receios de The Economist, que comparou a economia brasileira a um carro desgovernado, por estar crescendo a 8,5% ao ano sem ter condições.

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Na verdade, o correspondente do jornal se deixou influenciar por um cálculo já desmoralizado pelos fatos– o do PIB potencial. É uma conta na qual se estima qual é o máximo que um país pode crescer sem pressionar a inflação.

É um modelo algo enganador, pois leva em conta o próprio crescimento atual do PIB para formular a projeção do PIB potencial. Assim, se o PIB potencial é, digamos, 3% e o PIB real cresce 4,5%, o próximo cálculo de PIB potencial será influenciado pelo real e também crescerá.

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Anos atrás, apelava-se para o conceito de taxa de juros de equilíbrio. O economista Pérsio Arida chegou a afirmar que se a taxa real de juros (Selic menos inflação) fosse inferior a 9%, haveria inflação. Desmentido pelos fatos, tempos depois admitiu que sua formulação era imperfeita.

De lá para cá esse conceito foi mudando de pele mas não na essência. Trocou-se para PIB potencial, depois para outros conceitos similares, como a falta de condições de infraestrutura, falta de mão-de-obra qualificada para sustentar processos de crescimento.

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Mas o que a prática tem demonstrado é que o desenvolvimento se dá pensando alto, soltando a economia – sem descuidar dos aspectos fiscais – e deixando governo e mercado ir atrás, resolvendo os problemas criados pelo processo de crescimento.

Se se fosse pensar nas condições existentes, jamais o programa “Minha Casa, Meu Sonho” teria saído do papel. Bastou fixar uma meta ambiciosa – 1 milhão de casas -, criar mercado para as empresas irem atrás e alcançarem a meta.

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Nos últimos anos, coube à Dilma – na Casa Civil – aprimorar o sistema de gastos e de investimentos do governo através do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), desmascarar as manobras da Fazenda e da Secretaria do Tesouro Nacional, de interromper obras, inviabilizar projetos apenas para o cumprimento de metas burras de superávit fiscal.

Na entrevista que me concedeu esta semana, Dilma mostra que, como a dívida é calculada como proporção do PIB, há duas maneiras de reduzí-la: ou aumentando o superávit primário para o pagamento de juros e amortização; ou aumentando o PIB, através do crescimento.

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Sabe-se que o país não conseguirá crescer de forma sustentada sem ter um câmbio competitivo. Sabe-se, também, que candidatos a presidente – ainda mais do partido da situação – não podem tratar de mudanças cambiais antecipadamente.

Mesmo assim, fica um receio no ar de que, eleita, Dilma não romperá com a armadilha dos juros, de um Banco Central que há quase vinte anos foi capturado pelo mercado e deixou de pensar na economia do país como um todo.

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