Esta não é uma recuperação

Embora o início do artigo já tenha sido traduzido no “Painel Internacional”, coloco aqui uma tradução completa, para os que tiverem interesse. A verdade é que o gov Obama já acabou e, no fundo, Krugman sabe disso. Como Maquiavel, escreve para um Príncipe hipotético.

 

Esta não é uma recuperação

Por Paul Krugman


Publicado em: 26 de agosto de 2010


O que Ben Bernanke, o presidente do FED (Banco Central dos EUA), dirá em seu grande discurso, hoje [27/08] em Jackson Hole (Wyoming)? Sugerirá novas medidas para impulsionar a economia?
Fiquem ligados.

 

Porém, podemos prever com segurança o que ele e outros funcionários do governo dizem sobre o momento onde nos encontramos: a economia continua a se recuperar, embora mais lentamente do que gostaríamos. Infelizmente, isso não é verdade: tal recuperação não está ocorrendo, em nenhum sentido relevante. E os tomadores de decisões políticas deveriam estar fazendo todo o possível para mudar esta situação.

 

O pequeno grão de verdade contido nas declarações de recuperação continuada é o fato de que o PIB continua a aumentar: não estamos em uma recessão clássica, em que tudo caminha para baixo. Mas, e daí? O que importa é se o crescimento é rápido o suficiente para reduzir o altíssimo desemprego. Os EUA necessitam de um crescimento de aproximadamente 2,5% somente para manter o nível de emprego como está, e um crescimento muito maior para reduzi-lo significativamente. No entanto, o crescimento está ocorrendo em algum ritmo entre 1% e 2%, com boa chance de cair ainda mais nos próximos meses. Será que a economia entrará realmente num duplo mergulho recessivo, com o PIB encolhendo? O que isso importa? Caso o desemprego continue a se elevar durante o restante do ano, o que parece provável, não fará diferença se os números do PIB forem levemente positivos ou negativos.

 

Tudo isto é óbvio. No entanto, os tomadores de decisões políticas apresentam-se em estado de negação.

 

Após sua última reunião de política monetária, o FED divulgou um comunicado declarando que “antecipa um retorno gradual aos níveis mais elevados de utilização de recursos” – “banco-centralês” para queda no desemprego. Nada, nos dados, dá sustentação a esse tipo de otimismo. Enquanto isso, Tim Geithner, o secretário do Tesouro, diz que “estamos no caminho da recuperação”. Não. Não estamos.

 

Por que as pessoas que melhor conhecem a realidade econômica a estão edulcorando? A resposta, desculpem-me por dizê-lo, trata-se de evasão de responsabilidades.

No caso do FED, a admissão de que a economia não está a se recuperar colocaria a instituição sob pressão para fazer mais. E até agora, pelo menos, o FED parece temer mais a possível perda de credibilidade caso tente ajudar a economia e venha a falhar, do que os custos que o povo dos EUA tem de suportar por não fazer nada e se contentar com uma recuperação inexistente.

Quanto ao governo Obama, seus funcionários parecem relutantes em admitir que o estímulo original fosse mínimo. Sim, foi o suficiente para conter o aprofundamento da crise – uma análise recente da Comissão de Orçamento do Congresso diz que o desemprego poderia muito bem, neste momento, estar em dois dígitos sem o estímulo – mas não foi grande o suficiente para reverter significativamente o desemprego.

 

É discutível que o Presidente Obama, então no auge de sua popularidade no início de 2009, não pudesse fazer aprovar um plano [de recuperação] mais amplo no Senado. Contudo, é certo que ele não poderá fazer passar um estímulo suplementar agora. Assim, seus funcionários poderiam, justificadamente, lançar o ônus da não-recuperação sobre o obstrucionismo [do Partido] Republicano. Ao invés disso, optaram por desenhar carinhas sorridentes em uma imagem sombria, o que não convence ninguém. E provável resultado das eleições de novembro – uma grande vitória para os obstrucionistas – paralisará a política nos próximos anos.

 
Sendo assim, o que esses funcionários deveriam estar a fazer, além de contar a verdade sobre a economia?

 

O FED tem opções. Ele pode recomprar as dívidas privadas e as de prazo mais longo; pode empurrar para baixo as taxas de juro de longo prazo, tornando pública sua intenção de manter baixas as taxas de curto prazo; pode elevar as metas de médio prazo para a inflação, tornando menos atraente para as empresas simplesmente sentar-se sobre seu dinheiro. Ninguém pode ter certeza de quão bem essas medidas iriam funcionar, mas é melhor tentar algo que pode não funcionar do que dar desculpas enquanto os trabalhadores sofrem.

 

O governo tem menos liberdade de ação, uma vez que não pode mais obter leis após o bloqueio republicano. Mas ele ainda tem opções. Ele pode reformular a sua tentativa desastrada de dar ajuda aos mutuários em apuros. Pode usar a Fannie Mae e o Freddie Mac, as financiadoras imobiliárias estatais, para criar uma engenharia de refinanciamento hipotecário que coloque dinheiro nas mãos das famílias americanas – sim, os republicanos irão uivar, mas eles estão já fazendo isso mesmo. Pode, enfim, confrontar a sério a China e a sua manipulação monetária: quantas vezes os chineses prometerão mudar suas políticas, só para negar as promessas em seguida, até que o governo decida que é hora de agir?

 

Quais dessas opções deveriam ser postas em prática pelos tomadores de decisões? Se eu estivesse no lugar deles, optaria por todas. Sei o que alguns dos atores, tanto do FED como do governo, dirão: eles advertem sobre os riscos de se fazer qualquer coisa não-convencional. Mas estamos vivendo as consequências de sermos cautelosos e esperar a recuperação acontecer por si só: chegamos ao que parece cada vez mais como um permanente estado de estagnação e desemprego elevado. É hora de admitir que o que temos agora não é uma recuperação, e fazer tudo o que pudermos para mudar essa situação.

 

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