Estudo mostra que, em cinco anos, recessão econômica provocou 31 mil mortes no Brasil

Trabalho produzido por médicos do Brasil e Reino Unido mostra que, para cada ponto percentual de aumento na taxa de desemprego, mortalidade sobe 0,5 ponto percentual

Doador de sangue. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.

Jornal GGN – O quadro de recessão econômica no Brasil, entre 2012 e 2017, contribuiu para a morte de 31.415 pessoas de 15 anos ou mais, a maioria delas homens negros entre 30 e 59 anos. Essa é a conclusão de um artigo publicado na Lancet Global Health, uma das mais respeitadas revistas científicas do mundo voltadas para a saúde.

O trabalho é assinado por médicos sanitaristas do Brasil e do Reino Unido. Eles constataram que, para cada ponto percentual de aumento na taxa de desemprego, a taxa de mortalidade sobe 0,5 ponto percentual, concluindo que mortes poderiam ser evitadas.

No período analisado, entre 2012 e 2017, a taxa de desemprego no Brasil passou de 8,4% para 13,7%. Nesse intervalo, a taxa de mortalidade cresceu 8% no país, de 143 por cem mil habitantes para 154 mortes por cem mil habitantes. Os pesquisadores destacam que metade desse total de mortes está relacionada à recessão.

“As recessões parecem particularmente ruins para a saúde em países que não têm programas de assistência médica e proteção social fortes. É essencial que o Brasil proteja os investimentos no SUS e no Bolsa Família, que são reconhecidos internacionalmente e fornecem proteção vital para a saúde e o bem-estar do país”, disse Tom Hone, do Imperial College London, autor principal do trabalho.

O levantamento aponta que em locais onde os gastos eram maiores com o SUS (Sistema Único de Saúde) e com o Bolsa Família os níveis de mortalidade apresentados foram menores.

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Outro médico sanitarista que assina o estudo, o brasileiro Rudi Rocha, da Fundação Getulio Vargas (FGV), coordenador de pesquisa do Instituto de Estudos de Políticas de Saúde (Ieps), ponderou que, em tempos de recessão, a restrição fiscal cresce, piorando o acesso a serviços de saúde especialmente para doenças mais complexas como câncer.

“Na crise, pode haver migração de trabalhadores que tinham plano de saúde para o serviço público, o que provoca descontinuidade de tratamento. A recessão foi muito prejudicial à saúde dos brasileiros, com os membros mais vulneráveis da sociedade sendo os mais afetados negativamente”, explicou.

O médico Maurício Barreto, da Universidade Federal da Bahia e da Fundação Oswaldo Cruz, também autor do estudo, apontou que houve aumento de mortes por câncer e problemas cardiovasculares no período avaliado.

“As doenças cardiovasculares estão ligadas a estresse, situação agravada com a crise. A relação com o câncer não é tão clara, mas especula-se que há redução de acesso e menos diagnósticos precoces. Saúde não é só questão de serviços, está ligada às políticas sociais, econômicas. O que acontece de bom ou ruim no mundo econômico afeta a saúde”.

A médica sanitarista da UFRJ Ligia Bahia aponta ainda o estresse como outro fator de risco: “É uma tempestade sanitária: corte de gastos com saúde pública, desemprego e queda da renda. Só há duas maneiras de resolver, com crescimento econômico ou mais gastos com saúde. Acho esta última solução mais fácil”.

Em relação às regiões do país, o trabalho apontou que, no Nordeste, 5.948 mortes (18,9% do total), que ocorreram entre 2012 e 2017, estão relacionadas à recessão. No Sudeste, o impacto da recessão foi maior: 16.894 mortes, ou 53% do total. A população da região Nordeste representa 27% do país e a do Sudeste 42%.

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“Mercados formais de emprego mais fortes, com proteção e redes de segurança, incluindo benefícios e apoio para os que perdem empregos, minimizam os efeitos. Podemos dizer que as 31 mil mortes foram em áreas com gasto público baixo ou insuficiente”, destacou Tom Hone aconselhando aumento da proteção social e de gastos públicos com a saúde para combater os efeitos negativos da recessão econômica sobre a taxa de mortalidade.

*Com informações do O Globo

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