Guedes tortura estatísticas para mostrar retomada inédita (e falsa)

A Secretaria de Política Econômica do Ministério da Economia tem se esmerado em práticas de tortura explícita contra os dados da realidade, o que não deveria surpreender sendo o ministro quem é

O ministro da Economia Paulo Guedes
O ministro da Economia, Paulo Guedes, citado no escândalo Pandora Papers. Foto: Agência Brasil

Por Lauro Veiga Filho

Um renomado editor de economia, já falecido, com passagem por grandes jornais e revistas, gostava de dizer que as estatísticas, sob tortura, podem confessar qualquer coisa, menos mostrar a realidade. Não por coincidência, a Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Economia tem se esmerado em práticas de tortura explícita contra os dados da realidade, o que não deveria surpreender sendo o ministro quem é e conhecendo-se o desgoverno ao qual serve. Em nota informativa divulgada em 27 de julho, a SPE tenta “provar” que a economia operou uma recuperação inédita, com a “retomada econômica da crise da Covid-19 (…) acontecendo a taxas mais altas que nas crises anteriores”, num movimento aliás liderado pelo investimento privado.

Já na introdução impõem-se os primeiros reparos. A equipe do ministro Guedes, aquele que já foi o queridinho dos mercados, insiste em desagregar os setores públicos e privados em sua “análise” atravessada dos dados macroeconômicos, como se fosse naturalmente possível separar aquelas duas áreas da economia, algo que as contas nacionais não corroboram e muito menos os livros texto de economia, mesmo aqueles de corte mais liberal. Trata-se, claro, de uma posição meramente ideológica, que tenta “pintar” qualquer ação ou atividade relacionada ao setor público como ineficiente e geradora de distorções. Adicionalmente, a SPE parece dar de barato que a “crise da Covid-19” teria sido superada, num momento em que o número de mortes no País pelo Sars-CoV-2 supera 560,0 mil.

O conceito de Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), um dos componentes do Produto Interno Bruto (PIB), observa Bráulio Borges, economista-sênior da área de macroeconomia da consultoria LCA e pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), corresponde à entrada na economia “de novos investimentos em máquinas, equipamentos, estruturas, construções, plantações permanentes, gado reprodutor e, ainda, ativos intangíveis (como gastos com pesquisa e desenvolvimento, softwares, dentre outros)”. A variável não faz distinção entre investimentos públicos e privados, que são complementares e que, quando acionados corretamente, contribuem de fato para construir condições para um crescimento sustentável e de longo prazo.

Mentiras em série

Ao avaliar a nota informativa da SPE, Borges contesta suas conclusões, deixando claro que “uma análise mais cuidadosa não corrobora a avaliação” da secretaria. Mais claramente, com base em dados concretos, o economista demonstra que a tal recuperação do investimento doméstica, que teria ocorrido desde o ponto mais crítico das medidas de distanciamento social, em março e abril do ano passado, tem sido a mais débil quando comparada ao ocorrido na sequência das demais crises econômicas sofridas pelo País em quase quatro séculos. Não apenas o investimento tem sido mais fraco do que o alardeado pela equipe econômica como também tem sido insuficiente para promover o aumento da capacidade de oferta de novos bens e serviços. Mais claramente, há uma estagnação nesta área e não o propalado crescimento recorde, reafirmando a capacidade de a equipe do senhor Paulo Guedes produzir mentiras em série, sem o menor pejo.

A SPE atribui o seu próprio “sucesso” na condução da economia durante a crise a “medidas pró-mercado” e à “consolidação fiscal”, em marcha às custas do arrocho no investimento público, cortes de gastos nas áreas de educação, pesquisa científica, cultura e mesmo em setores da saúde. Essa combinação teria permitido uma “redução estrutural (permanente) da taxa de juros” (que voltaram a subir desde março passado) e o direcionamento dos investimentos privados para “o empreendimento mais eficiente”.

Por pura ideologia, mais uma vez, a secretaria nega que as medidas anticíclicas tomadas no ano passado tenham tido qualquer influência sobre a economia. Aquelas medidas foram adotadas exatamente para aliviar o impacto da crise sobre a atividade econômica e incluíram linhas de crédito para micro, pequenas e médias empresas, a oferta de garantias do Tesouro nos empréstimos àqueles mesmos setores, a distribuição do auxílio emergencial às famílias mais vulneráveis e o reforço no orçamento do setor público de saúde, somando no total algo em torno de R$ 594,0 bilhões, nas contas da mesma SPE.

Custa crer que essa montanha de recursos não tenha exercido qualquer contribuição para evitar um tombo ainda maior da economia no ano passado. E de fato as coisas não transcorreram como pretende fazer crer a SPE. Borges estima que os estímulos fiscais concedidos apenas em 2020 aproximaram-se de oito pontos de porcentagem do PIB, “o maior já adotado em um único ano desde 1998 (início da série histórica)”, o que “denota que a política fiscal brasileira foi fortemente expansionista e anticíclica nesta recessão”. Além disso, devem ser acrescidos à conta 0,4 pontos de porcentagem do PIB em função do aumento dos investimentos da Petrobrás e da Eletrobrás e outros seis pontos referentes a “garantias concedidas pelo Tesouro Nacional e linhas de crédito dos bancos públicos para apoiar medidas creditícias focadas em pequenas e médias empresas”. Para completar, a política monetária “atuou na mesma direção”, com o Banco Central (BC) reduzindo a taxa real de juros (descontada a inflação) “para níveis bastante negativos”. O economista questiona: “Qual o problema em reconhecer que a política econômica foi fortemente estimulativa em 2020, já que ela atuou na direção correta (anticíclica)?”. A resposta parece estar precisamente na opção contra o Estado assumida desde o início pela equipe econômica.

E mais manipulação

Para complicar, a SPE escolheu taxas de variação muito baixas, próximas à estagnação, como tendência para o PIB na sequência do pior momento da crise, tomando o comportamento trimestral da economia nos três anos anteriores como base para projetar qual teria sido o desempenho econômico não houvesse a pandemia. Isso fez com que qualquer variação observada ganhasse expressão em relação a uma linha de tendência muito achatada, ao contrário das tendências projetadas pelo mesma SPE na saída das crises anteriores. O nome para isso, evitado pelo economista, é manipulação.

O desempenho do investimento tem sido influenciado fortemente pelas “exportações ‘fictas’ de plataformas de exploração de petróleo e posterior internalização contábil desses ativos”, prossegue Borges. Numa estimativa da equipe de conjuntura do Ibre, essas operações teriam inflado a taxa de variação dos investimentos em algo em torno de quatro pontos de porcentagem no ano passado. Vale dizer, “ao invés de ter recuado 0,8% em 2020, como apontam os dados oficiais do IBGE, a verdadeira variação da FBCF (do investimento) estaria em torno de -5,0%”. O mesmo “fenômeno” teria ocorrido no primeiro trimestre deste ano, superdimensionando o tamanho do investimento na economia.

Na prática, demonstra ainda Borges, desconsideradas as operações com as plataformas de petróleo, o investimento realizado não foi suficiente para repor o desgaste e a depreciação das máquinas, equipamentos e outros componentes do capital instalado no País. Mais claramente, não se criou capacidade nova de produção e oferta de bens, o que significa uma limitação equivalente para as possibilidades de um crescimento mais vigoroso da economia daqui para frente.

Lauro Veiga Filho – Jornalista, foi secretário de redação do Diário Comércio & Indústria, editor de economia da Visão, repórter da Folha de S.Paulo em Brasília, chefiou o escritório da Gazeta Mercantil em Goiânia e colabora com o jornal Valor Econômico.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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