Quem paga a fatura da crise dos bancos?

Espetando o público com a conta da crise dos bancos

Por Naomi Klein

28/06/2010

A cidade onde vivo [Toronto] se parece, no momento, com a cena de um crime e os criminosos estão desaparecendo na noite, fugindo dali. Não, eu não estou falando sobre os rapazes de preto, que quebraram janelas e queimaram carros da polícia no sábado [26 p. p.]. Estou falando sobre os chefes de Estado que, na noite de domingo, destruíram as redes de segurança social e queimaram bons empregos bem no meio de uma recessão. Diante dos efeitos de uma crise criada pelas camadas mais ricas e privilegiadas do mundo, eles decidiram espetar a conta nas pessoas mais pobres vulneráveis de seus países.

De que outra forma se pode interpretar o comunicado final do G-20, que não inclui sequer um mísero imposto aos bancos ou financeiras, porém determina que os governos tenham de reduzir seus déficits pela metade até 2013? Trata-se de um corte imenso, chocante, e devemos ter muito claro quem vai pagar o preço: os estudantes que irão ver a educação pública se deteriorar ainda mais à medida que o seu custeio sobe; os aposentados que terão suas pensões recortadas, os funcionários públicos cujos postos serão eliminados. E a lista continua. Estes cortes já se iniciaram em vários países do G-20, incluindo o Canadá, e vão piorar brevemente. Por exemplo, para reduzir o déficit projetado em 2010 pela metade, na ausência de um considerável aumento de impostos, os EUA teriam de fazer um corte gigantesco de USD 780 bilhões em seu orçamento.

Esses cortes estão acontecendo por uma razão simples. Quando o G-20 se reuniu em Londres em 2009, no auge da crise financeira, seus líderes simplesmente não conseguiram se unir para regulamentar o setor financeiro, de forma a impedir que este tipo de crise viesse a acontecer novamente. Tudo o que se conseguiu foi retórica vazia e um acordo para colocar trilhões de dólares em dinheiro público em cima da mesa para salvar os bancos ao redor do mundo. Enquanto isso, o governo dos EUA pouco ou nada fez para manter as casas e empregos de seus cidadãos; com isso, somado à hemorragia de dinheiro público para salvar os bancos, a base fiscal entrou em colapso, ampliando o déficit público e criando uma crise de dívida de forma totalmente previsível.

Na cúpula deste fim de semana, o primeiro-ministro Stephen Harper convenceu seus colegas líderes que simplesmente não seria justo punir aqueles bancos que se comportaram bem e não contribuíram para a crise (muito embora os bancos canadenses, altamente protegidos, sejam consistentemente rentáveis e possam facilmente absorver um imposto). No entanto, aparentemente esses mesmos líderes não compartilhavam tão justas preocupações quando decidiram punir pessoas inocentes por uma crise criada pelos mercadores de derivativos e pela ausência de regulação.

Na semana passada, o Globe and Mail publicou um artigo fascinante sobre as origens do G-20. Sucede que todo o conceito foi criado em uma reunião, em 1999, entre o então ministro canadense das Finanças, Paul Martin, e seu colega estadunidense Lawrence Summers (muito interessante em si, pois Summers, naquele tempo, estava a desempenhar um papel central na criação das condições para o surgimento da atual crise financeira, dando passagem a uma onda de consolidação bancária e recusando-se a regulamentar os derivativos). Os dois homens tinham interesse em expandir o G-7, incluindo apenas os países que consideram estratégicos e confiáveis. Eles precisavam fazer uma lista, mas aparentemente não tinham papel à mão. Assim”, de acordo com os repórteres John Perkins e Tara Ibbitson, “os dois homens apanharam um envelope pardo, colocaram-no sobre a mesa diante deles, e começaram a desenhar nele o quadro de uma nova ordem mundial”. E dessa forma nasceu o G-20.

O artigo é um bom lembrete de que a história é moldada por decisões humanas e não pelas leis naturais. Summers e Martin mudaram o mundo com as decisões que rabiscaram no verso de um envelope. Mas em nenhum lugar está escrito que os cidadãos dos países do G-20 têm de acatar as decisões deste clube escolhido a dedo. Os trabalhadores, aposentados e estudantes já tomam as ruas contra medidas de austeridade na Itália, Alemanha, França, Espanha e Grécia, na maioria das vezes marchando sob o lema “Nós não vamos pagar por sua crise”. E todos eles têm muitas sugestões sobre como aumentar as receitas para fazer frente aos rombos orçamentários de seus países. Muitos deles estão pedindo por um imposto sobre transações financeiras que poderia refrear o hot money e levantar novos recursos para programas sociais e para lidar com as mudanças climáticas. Outros demandam impostos pesados sobre os poluidores, que proveriam fundos para fazer frente aos custos de lidar com os efeitos das alterações climáticas e com a gradual redução do uso de combustíveis fósseis. E acabar com guerras perdidas é sempre uma ótima forma de reduzir custos.

O G-20 é uma instituição ad hoc que não tem sequer uma fração da legitimidade das Nações Unidas. Mas está a nos espetar a todos com a conta de uma crise que praticamente nenhum de nós ajudou a criar. Já que é assim, tratemos de resgatar aquele envelope escrito por Martin e Summers e escrever no verso: “Ao Remetente”.

 

O original se encontra em http://www.huffingtonpost.com/naomi-klein/sticking-the-public-with_b_627805.html

 

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