Sinais de reação na economia da Europa

Do Estadão

Economia europeia dá sinais de reação

Da queda do desemprego na Espanha ao aumento na produção de veículos no Reino Unido, continente dá alguns motivos para otimismo

FERNANDO NAKAGAWA, CORRESPONDENTE / LONDRES

Mónica Cervigón está desempregada. Deixou o trabalho de vendedora há cinco meses ao perceber que, com vendas em queda, as comissões já não eram suficientes nem para pagar despesas do trabalho. A espanhola de 39 anos, porém, está animada. Juntou economias e comprou equipamentos para abrir um salão de beleza em Quijorna, pequena cidade de 3 mil moradores perto de Madri. Não é só Mónica que está otimista. Agosto começou com uma série de dados positivos e a esperança crescente de que o pior da crise da Europa pode finalmente estar ficando para trás.

Depois de vários trimestres com piora do quadro, números divulgados nos últimos dias apontam para a reação da economia europeia. Da queda do desemprego na Espanha ao aumento na produção de veículos no Reino Unido, o continente tem recebido alguns motivos para respirar mais aliviado.

Entre os economistas, o alívio vem especialmente da possibilidade de que as medidas adotadas nos últimos anos estão começando a fazer efeito. O dado mais comemorado foi o Índice de Gerentes de Compras (PMI, na sigla em inglês), indicador que mede o movimento nas empresas em aspectos como produção, pedidos e compra de fornecedores. Em julho, o índice da zona do euro subiu para 50,5, acima dos 48,7 de junho. Essa foi a primeira vez desde janeiro de 2012 que o número superou 50 – nível que sinaliza o crescimento da economia.

Recuperação. Tal reação aparece em praticamente toda a região. Por países, a Itália teve o melhor número em 26 meses e a Espanha, em 25 meses. “A pesquisa confirma um bem-vindo retorno ao crescimento, aumentando a esperança de que a região pode finalmente sair da recessão. Após falsos indícios, a melhora da confiança e outros indicadores justificam pelo menos um pouco de otimismo”, diz o economista responsável pela pesquisa, Rob Dobson. Até agora, a Europa amarga recessão desde o quarto trimestre de 2011.

Fora das empresas, sinais positivos também começam a ser vistos na rua. Na Espanha, o índice de desemprego continua acima de 26%, mas o número de espanhóis sem trabalho cai gradativamente. Já são cinco meses seguidos de redução – uma tendência positiva que não era vista desde 2007. Em julho, quase 65 mil pessoas foram contratadas.

No país vizinho, o desemprego em Portugal caiu no segundo trimestre, a primeira melhora do indicador desde 2011, quando o país pediu o resgate internacional. Na Itália, a economia continua em contração, mas o ritmo da queda da atividade no segundo trimestre foi a metade do esperado pelos economistas. No Reino Unido, as vendas no varejo de julho foram as melhores em seis anos e a produção de automóveis saltou 12,7% no mês passado.

Nuvens à frente. Apesar da sequência de dados positivos, poucos comemoram. Entre os economistas, o grupo dos mais céticos diz que a melhora pode ser temporária e os ventos poderão piorar nos próximos meses. “O senso de que o pior já passou melhorou o humor dos mercados. No entanto, uma série de eventos a partir de setembro compõe uma zona de risco que pode fazer onda nesse mar de tranquilidade”, alertam economistas do BNP Paribas.

Na lista de preocupações, estão as eleições na Alemanha, o início do debate sobre lei eleitoral na Itália, a revisão do resgate português e a possível necessidade de nova ajuda financeira à Grécia. Há, ainda, aspectos que não estão na agenda.

A reação do emprego na Espanha, por exemplo, é recebida com muita cautela porque o “efeito verão” pode estar inflando os resultados. Segundo reportagem do jornal El País, se o efeito sazonal fosse considerado, o total de desempregados teria, ao contrário, subido em 7,5 mil em julho.

Outra ameaça são as contas públicas. Analistas dizem que a crise política em países como a Espanha e a Itália pode fortalecer a pressão por medidas consideradas populistas, que tendem a elevar os gastos e poderiam deteriorar as contas públicas.

No Reino Unido, economistas advertem ainda que parte da reação da economia é liderada pelo setor imobiliário. Indicadores como a compra de imóveis têm reagido mais rápido do que o restante da economia.

O problema é que o governo adotou um programa que garante parte das hipotecas contratadas pelas famílias. Ou seja, o governo bancará parte do prejuízo em caso de calote. Para a agência de classificação de risco Fitch Ratings, a dívida pública sofrerá se a inadimplência crescer rápido.

Na pequena Quijorna, Mónica Cervigón diz não acompanha tão de perto o noticiário econômico, mas mostra que faz parte do time que está cautelosamente otimista.

O plano da nova empresária era contratar uma cabeleireira com contrato permanente para o salão que já tem até nome: Le Canart. “Mas, após conversar com algumas pessoas e fazer contas, devo contratar essa pessoa como autônoma e oferecer uma porcentagem dos serviços. Acho que é mais prudente neste momento.”

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