A arte como mecanismo de transformação social: Rosa Luz no Cai na Roda

Em uma hora de entrevista, Rosa fala sobre seus trabalhos musicais e relata o infeliz episódio em que se tornou vítima de ataques bolsonaristas

Jornal GGN – A ativista e rapper Rosa Luz é convidada do Cai na Roda, programa tocado pelas jornalistas da redação GGN, neste sábado, 17 de julho. Mulher transexual, ela conta como a poesia e a música foram ferramentas fundamentais para vencer preconceitos e barreiras sociais, no país que mais mata corpos trans. A edição vai ao ar às 20h, na TV GGN

“A arte tem um poder de transformação na sociedade, pelo menos um poder de diálogo maior. Eu faço o rap há alguns anos e isso me ajudou a conversar com vários homens héteros da periferia, que cresceram numa realidade parecida com a minha, mas que as vezes têm vários preconceitos com corpos trans, porque foram acostumados a associar esse corpo com a marginalização (…) Mas, quando eu trago a minha arte e me expresso, através do rap, eu sinto que consigo dialogar com essas pessoas e quebrar alguns preconceitos por conta do poder da música”, conta. 

Rosa começou a emplacar músicas a partir de 2015, mas ressalta que não foi fácil e essa é uma luta é contínua. Segundo ela, apesar dos avanços, no meio do rap ainda existe preconceito em relação sobre a questão da transexualidade. “Às vezes, as pessoas costumam reduzir a minha música a categoria lgbtqia+, mas, ao mesmo tempo, nós não vemos pessoas falando ‘música heterosexual’”, explica. 

“No começo da minha carreira foi complicado, eu não tinha muito dinheiro e os manos da minha quebrada não me gravavam na ‘brodeiragem’, que é algo que eles costumam fazer entre eles. Foi muito difícil, porque eu tive que me expor e fiz uma vaquinha e através dela, do apoio das pessoas que botavam fé no meu trabalho, que eu consegui ter a grana para realmente investir na produção”, desabafa. 

Na próxima sexta-feira, 23, Rosa lança seu segundo EP., o “Deyse Ex Machina”, com seis faixas que chegaram ao público por meio do financiamento da União Libertária de Pessoas Trans e Travestis (ULTRA). Além das composições, a rapper também não deixou de atuar na produção, área que vem se dedicando. “Comei a fazer rap em 2015 e só ano passado que eu comecei a ter o empoderamento de entender que eu também poderia aprender música e produzir, para não depender tanto assim de pessoas que às vezes não estão tão abertas”, diz.

Rosa ainda fala sobre o seus trabalhos futuros. “Eu tenho me interessado em produzir com as manas. As mulheres que sempre me acolheram nesse movimento, sejam elas cis ou trans, porque somos poucas. A atuação das mulheres foi o lugar que fez eu me encontrar no rap, porque eu cresci ouvindo rap e funk, cresci escrevendo poesia e quando cheguei na universidade que eu conheci a Batalha das Gurias e a Frente Nacional Mulheres no Hip Hop”, conta. “Essa é uma jornada e nessa jornada eu sinto que nos últimos anos eu vejo mais mulheres, mulheres trans e lgbts ocupando também a cena do hip hop”, completa. 

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A luta contra as milícias digitais

Rosa é reconhecida pela influência do seu ativismo nas redes sociais, não é atoa que, infelizmente, no ano passado se tornou mais um vítima das campanhas de ódio de bolsonaristas na internet, por meio da disseminação de notícias falsas. 

A motivação dos ataques teria sido o lançamento de um música sobre o racismo na música brasileira. Na capa da faixa, há uma pintura em que Rosa posa com a cabeça de um homem decapitado nas mãos, que foi associado a Jair Bolsonaro (sem partido). 

Na época, a rapper participava de uma campanha do Banco Bradesco e seguidores de Bolsonaro passaram a divulgar informações falsas e ataques em que chamavam Rosa de “terrorista, patrocinada pelo Bradesco”. Os filhos do mandatário compartilharam as fake news e o banco excluiu Rosa da campanha.

“Agora, vou lançar meu segundo EP, financiado pela ULTRA, o que foi muito bom, porque eu estava passando por vulnerabilidade financeira por causa da pandemia e também no ano passado eu passei por fakenews disseminadas por bolsonaristas, que disseram que era uma terrorista e isso impactou meu trabalho nas redes sociais, eu perdi algumas parcerias com marcas, porque alguns investidores dessas marcas são bolsonaristas e ficaram incomodados com a minha presença nesse lugar”, desabafa. 

Questionada sobre a tal capa, que provocou bolsonaristas, Rosa conta que sua arte é expressão. “Desde que eu cresci eu to sofrendo preconceito aqui nesse país e não é nem sendo vitimista, porque eu já passei disso há muito tempo, é um processo de expressar a nossa raiva e entender que ta tudo bem expressar, porque eu precisava colocar pra fora, minha múica não é algo comercial, eu faço rap e desde sempre o rap teve esse papel pra mim, eu acredito que o rap tem esse lugar político”, explica. 

“Eu pretendo continuar produzindo, porque eu não faço pelas marcas, não faço pra estar no topo, eu faço justamente porque eu acredito no poder de transformação do meu trabalho e, apesar de todas essas questões delicadas que aconteceram no meu trabalho, eu tenho tido muito mais repercurssão positiva”, diz. 

Participaram desta edição as jornalistas Lourdes Nassif, Patricia Faermann, Tatiane Correia e Duda Cambraia. Assista:

Sobre o Cai na Roda

Todos os sábados, às 20h, o canal divulga um novo episódio do Cai Na Roda, programa realizado exclusivamente pelas jornalistas mulheres da redação, que priorizam entrevistas com outras mulheres especialistas em diversas áreas. Deixe nos comentários sugestão de novas convidadas. Confira outros episódios aqui:

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