A caça a um Antunes Coimbra que não era Zico

Enviado por prado

Do Impedimento

Antunes Coimbra. Não fosse por Zico, Antunes e Edu, o sobrenome teria ganhado notoriedade com Fernando. Ou pelo menos deveria. Irmão do Galinho de Quintino, que era costumeiramente caçado em campo pelos adversários, Nando sentiu na pele os anos de chumbo e a ingerência do regime sobre o futebol brasileiro. Até quando atravessou o Oceano Atlântico para atuar pelo Belenenses, de Portugal, a presença da ditadura parecia tão próxima que era como se tivesse levado um militar na bagagem.

No ano do golpe, em 1964, Nando dividia seu tempo entre a Faculdade Nacional de Filosofia e os treinos na base do Fluminense. Sua irmã Zezé e ele, então, prestaram e foram aprovados no concurso para o Plano Nacional de Alfabetização (PNA) idealizado pelo professor Paulo Freire. A ideia do PNA era extinguir o analfabetismo no país e iniciou seu projeto pelo Rio de Janeiro, ainda no governo de João Goulart. Entretanto, a experiência de Fernando no programa foi curta, marcando aquela que foi a primeira passagem da ditadura por sua vida.

“Eu fui professor do Plano Nacional de Alfabetização e o primeiro ato da ‘maldita’ no Rio foi acabar com a PNA e nos considerar subversivos. Não dei muita importância, pois naquele momento já estava envolvido com o futebol. Após me tornar profissional, jogando no Espírito Santo por um time da capital que nem existe mais (o Santos FC), sofri a primeira perseguição quando o treinador foi substituído por um oficial do exército e este, na primeira semana, me afastou do elenco. Por certo pediu e recebeu informações do grupo ao SNI e assim ficou sabendo que fui do PNA. Eles eram muito organizados. O presidente do clube me desejou sucesso e não quis me dizer o real motivo da minha saída. Pediu que eu entendesse o momento que o país vivia. Aí entendi o recado na hora”, confessou.

Após a profissionalização pelo Santos do Espírito Santo, Nando jogou no América – clube em que seu irmão Edu é ídolo – e no Madureira, até que o Ceará se interessou por seu futebol e o contratou, em 1968, já com Costa e Silva no poder da nação. As boas atuações na equipe cearense chamaram a atenção dos portugueses do Belenenses e o jogador, ainda muito jovem, partiu para terras lusitanas tentar a sorte. Mas só tentou, pois a perseguição somada às diversas ameaças colocaram ponto final em sua breve carreira. O início de Zico no Flamengo também pesou para o retorno.

“Em um determinado dia lá em Portugal, no hotel que eu morava, recebi a visita de dois cretinos da PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado), que era a polícia política portuguesa, comandada pelo Salazar – de triste memória, aliás. Estavam bem informados a meu respeito. Tremi na base porque tinha apenas 22 anos e numa época que as comunicações praticamente só funcionavam através de cartas. O telefone era por cabo submarino e era difícil uma ligação pra minha casa. Me ameaçaram até com a ida para a guerra nas Áfricas Portuguesas por ser filho de português. Quem me salvou foi a esposa de um empresário do clube que tratava do meu contrato. Ela praticamente me colocou no avião. Saí fugido, cheguei no Rio e não contei a verdade. Disse apenas que não tinha gostado de Portugal. Precisava proteger meus irmãos, que faziam muito sucesso. Sabíamos que o Zico seria um dos melhores do mundo.”

Na volta ao Brasil, Nando foi preso pelo DOPS e encontrou no DOI-CODI da Rua Barão de Mesquita sua prima Cecília. Na época, Cecília Coimbra era militante do MR8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro) e, claro, foi considerada subversiva pelos militares, assim como seu marido, José Novaes. O casal ficou preso por cerca de três meses e, de acordo com Fernando, foi “barbaramente torturado”. Hoje, ela colabora com o grupo (que também já presidiu) Tortura Nunca Mais, que luta pelo resgate da memória do período da ditadura. Ao livro, Nando detalhou o que viveu naqueles dias de cárcere.

“No dia 30 de agosto de 1970, fui preso com quase todos que estavam na casa da mãe da Cecília na Rua Dias da Cruz, no Méier, e fomos levados para o DOI-CODI onde eles (Cecília e Novaes) estavam. Ficamos num corredor cercado de celas que mais pareciam jaulas e numa delas estava o Novaes. Fui interrogado algumas vezes e sabiam tudo de mim, até de um táxi que tinha que ficava com um motorista contratado por mim. Eles viajavam na maionese e falavam as coisas mais absurdas. Estudantes, professores e sindicalistas foram os escolhidos para eles justificarem a tomada do poder. Ridículo. Passei pelo menos 48 horas com a cara na parede e as mãos na cabeça. Quando o braço descia de cansaço os soldados vinham com a baioneta e nos cutucavam, para erguermos o braço de novo. Só saíamos de lá para os interrogatórios, com capuz na cabeça”, disse o jogador, que notou uma certa curiosidade dos militares por ele, muito provavelmente pelo fato de seus irmãos Antunes e Edu serem famosos. Antunes e Edu, inclusive, passaram com a mãe quatro dias no lado de fora do quartel esperando por Fernando. “Quem passava pelo local percebia que alguma coisa tinha acontecido com os Antunes”.

Mesmo depois do episódio no DOI-CODI, Nando insistiu no futebol. Contudo, uma passagem apagada pelo Gil Vicente, de Portugal, fez com que ele desistisse da carreira futebolística. Na época, Zico dava seus primeiros passos como jogador no Fla e Edu era cotado para defender a Seleção Brasileira na Copa do México, o que não se concretizou em razão das diferenças ideológicas entre a família e os homens do poder, jurou Nando.

“O João Saldanha, uma vez perguntado por que não convocava o Edu, afirmou que havia restrições à família Antunes por parte da ditadura. O Edu, em 1969, foi o melhor jogador do Brasil e também o maior artilheiro brasileiro. É claro que ele tem consciência de que o torpe motivo foi este. Eles tinham prazer em prejudicar gratuitamente a qualquer um. Tomaram o poder na ‘mão grande’ e se divertiam prazerosamente com as maldades que praticavam. É preciso salientar que há poucos meses foi enfim divulgado o ibope do Jango na semana que foi derrubado. Tinha o apoio de quase 70% da população e por isso faria a reforma agrária e introduziria a Lei das Diretrizes e Bases da Educação Nacional… Aí a elite tremeu na base e com apoio ostensivo dos americanos fez o pior que poderia nos ter acontecido: nos enfiaram goela abaixo uma terrível ditadura que durou mais de duas décadas. Em 1964 o Brasil era pródigo nas artes, nos esportes, na música, na arquitetura e urbanismo, etc… Sobravam talentos e aí veio a escuridão e com ela a censura que começou a castrar de forma violenta o expansionismo destes talentos. Lamentável.”

Nando lamentou também que poucos atletas profissionais tenham se posicionado contra o regime durante os anos em que vigorou a ditadura militar. Ele citou Reinaldo e a Democracia Corintiana em geral como pontos fora da curva no combate à repressão, e tem a explicação para a reação ter sido tardia de certa forma. “Na minha época era impensável se posicionar, pois com o AI-5 tudo ficou perigoso. Quando o regime já estava desgastado e desmoralizado, aí sim foi possível. Foram casos isolados porque a maioria dos atletas desconversavam quando o assunto era política, até mesmo por pura alienação”.

Em 2003, Fernando Antunes Coimbra entrou com um processo na comissão de anistia do Ministério da Justiça. Sete anos depois, foi considerado pelo órgão um perseguido político dos ditadores se tornando, portanto, o primeiro jogador de futebol a ser anistiado na história do Brasil, o que quatro décadas depois de tortura, pressão psicológica e frustrações, foi motivo de orgulho não só para Nando, mas também para todos aqueles que carregam e carregarão o famoso sobrenome.

Foram muitos os jogadores de futebol brasileiros perseguidos naquele período?
Não foram muitos. Como eu disse anteriormente, a maioria dos jogadores era alienada e eram muito poucos os que estudavam. O assunto política, ditadura, etc., não eram conversas de jogadores. No Rio apenas eu, Afonsinho, Paquetá e Paulo César Caju sofremos perseguições. Depois houve a Democracia Corintiana já no final dos anos de chumbo. O Toninho Guerreiro também não foi à Copa de 70 absurdamente. Seu pai, que era do sindicato dos ferroviários, esteve preso e prejudicaram o Toninho, centroavante fabuloso na época e jogava ao lado do Pelé. Na minha época era difícil a imprensa conseguir divulgar alguma coisa porque a marcação era cerrada por parte dos censores “fdps”.

Então não considera a imprensa da época omissa? Fizeram o que puderam, é isso?
Não era omissa, era amordaçada. Até mesmo o João Saldanha, quando estava no ar falava apenas de futebol para que o programa não fosse suspenso. O que se falava em off nunca poderia ir ao ar. A maioria, claro, era contra a ditadura e muitos poucos aqui no Rio apoiavam. O que havia era muito fingimento. Os censores eram muitos além dos infiltrados. Para se ter ideia, em cada sala de aula nas universidades havia um infiltrado que quando descoberto trocavam para outra. Muitos jornalistas esportivos tornavam-se alienados por que viviam o futebol de maneira intensa. Era uma fuga da realidade. Todos tinham medo, principalmente a partir do famigerado AI-5.

Se arrependeu de algo que tenha feito ou deixado de fazer durante a ditadura?
Não tinha porque me arrepender de alguma coisa. Sempre fui querido pelos elencos e exercia uma liderança natural entre os colegas porque percebiam o conhecimento geral que eu possuía. A partir daí eu passava a ser um conselheiro deles no dia a dia. Era muito legal. A mesma coisa acontecia com meus irmãos nos clubes que atuavam. Meus pais só permitiram que nós nos tornássemos jogadores porque nunca relaxamos nos estudos. Não dá para ter arrependimento por ter preferido os livros e as chuteiras ao invés das “botas torturantes”.

O fato de você ter sido anistiado recuperou, de alguma forma, o sofrimento daqueles dias?
Desistir de jogar foi duro, pois tinha que proteger os meus irmãos, o que em parte consegui. Me realizei nos pés deles, o Antunes, Edu e o Zico. Consegui guardar por quarenta anos a minha história e como membro da família Antunes eu, ao ser anistiado com muita divulgação, provoquei um clima de espanto porque ninguém sabia de nada. Uma incredulidade total. As pessoas se perguntavam como tinha sido possível algo desta natureza com a família. Recebi e recebo sempre muitas homenagens e isto me credencia a afirmar que tudo valeu a pena. Temos enorme conceito com todos e fico muito feliz pelo interesse de jovens que, com certeza, ajudarão na história do país, mostrando o quanto foi difícil a conquista da maravilhosa democracia que ora vivemos. Porém, não podemos jamais deixar de estar mostrando o quanto foi terrível para todos, os anos de chumbo de triste memória.

Alexandre Guariglia e Bruno Rodrigues

O texto acima é um capítulo retirado do livro Bola de Chumbo, trabalho de conclusão do curso de Jornalismo na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Os autores buscam editoras ou parceiros interessados na publicação da obra, que repassa os principais capítulos da história do futebol brasileiro durante o período do regime militar.

Fonte: Impedimento

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