A entrevista que a Folha não usou na matéria sobre o feminista pornógrafo

Por Renato Janine Ribeiro

Via Facebook

Ref. à matéria Caso do professor abre debate sobre assédio na internet

Alguns amigos e amigas me perguntaram sobre o recente caso do prof. Idelber Avelar. Não o conhecia (nem conheço) nem conhecia sua obra ou ação. A “Folha de S. Paulo” me contactou quando eu já estava viajando e respondi rapidamente, como disse à repórter que podia, mas no final ela, muito gentil, decidiu não utilizar minhas respostas.
Transcrevo aqui as perguntas (entre aspas) e minhas respostas. Como respondi pelo iPhone, cujo teclado me incomoda um tanto, ampliei um pouco – só um pouco – o texto.

“A ideia é discutir alguns comportamentos a partir do caso Idelber Avelar:
“1) Há vitimização ou protagonismo das mulheres que participaram dos diálogos com Idelber Avelar? É um caso de violência sexual ou um jogo sexual consentido?
“2) Em que medida um diálogo de caráter íntimo pode ser tratado como um ato público?
“(se der, essa tb) Dá pra exigir coerência entre discursos públicos (o perfil feminista do Idelber) e suas fantasias sexuais (que incluem chamar as moças de putas ou vagabundas e os maridos de cornos)?
“Se houver algo que queira comentar além dessas perguntas, será super bem-vindo.”

Minha resposta (em 19 de dezembro):

Não conheço o professor nem sua obra. E as 2 primeiras perguntas entram mto em matéria factual. Não vou responder a elas. Não posso nem quero.
Porque quando se começa a discutir fatos é preciso atentar à minúcia dos fatos, e saber se X fez ou não fez isso, se Y idem etc. etc.; o que exige uma pesquisa factual que eu não tenho tempo nem vontade de fazer, além de uma postura de juiz que jamais quis para mim. O que prefiro é debater o lado dos princípios, a dimensão mais ampla que casos como este implicam.
O q penso: o assunto chamou tanto a atenção porque faz parte de um intenso processo de politização de elementos que eram da vida privada e por isso comportavam opressão. A vida doméstica, desde pelo menos os romanos, é o lugar em que o pater familias manda sem restrição. Nas últimas décadas, porém, direitos de mulheres, crianças e tb de empregados “domésticos” (vide recente Emenda Constitucional) se tornaram matéria de interesse público. Deixou de ser legítimo esconder a opressão e a violência sob o manto da domesticidade. Muito do que antes era vida privada se tornou vida pública. É um processo difícil e nem sempre óbvio.
O feminismo foi e é central nisso. Publicar o ignóbil é uma forma de enfrenta-lo.
Daí, certamente, a revolta de muitas/os ao verem um abismo entre discurso e pratica. 
Várias pessoas se desiludiram, e muito, com o professor citado. 
Foi auto-ilusão delas ou foi mentira dele? Iludiram -se ou foram iludidas? Suas 2 primeiras perguntas pedem uma resposta a isso. Mas nao me interessa começar a fuçar nesses pontos  saber quem é culpado). 
Só penso que, quando se vai tão fundo na discussão política sobre o q era reprimido por pertencer ao doméstico, é inevitável se discutir a sinceridade dos envolvidos. 
Não há como fugir disso. Quando se politiza a vida doméstica, é dificil dizer, depois, que um assunto era só da vida doméstica (ou, no caso, privada).

 

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4 comentários

  1. É uma pena que não tenhamos

    É uma pena que não tenhamos no Brasil uma mulher equivalente à Clarisse Thorn pois ela seria na minha opinião a única pessoa capaz de falar sobre o caso com alguma isenção, por estudar tanto o feminismo quanto o universo BDSM e a relação entre ambos. No mais, não condeno a FSP por não ter usado a resposta do prof. Renato Janine pois este já começa dizendo que não vai responder às perguntas feitas e que não pode e nem quer. Para mim, ele quis sair pela tangente ao ver que o caso incitou uma das maiores “flame wars” da internet brasileira de 2014. E com relação ao caso em si, acho que as discussões já se esgotaram, aguardo apenas a justiça brasileira se pronunciar sobre o mesmo, fato que poderá (ou não) jogar alguma luz sobre ele ou apenas uma nova rodada de postagens no facebook e blogs.

  2. Nada é gratuito

    Se o Renato Janine Ribeiro divulgou o que havia ficado em off é porque ele acredita que sua opinião acrescenta algo, ou que pelo menos dá pistas para outros redimensionamentos do caso. Eu suspeito que ele esteja certo.

    A contextualização desse fato no fenômeno da publicização da domesticidade explicita a contingência específica de termos que, de outro modo, são naturalizados pelas militâncias correntes sob o rótulo universal e sumariamente condenatório da “opressão”.

    O engraçado nessa retórica de uma Justiça Universal Trans-histórica é exatamente quando ela encontra os pontos cegos dos atavismos culturais, que às vezes se escondem — vejam só! — nos comportamentos sexuais, ou seja, exatamente onde as pretensas impostações progressistas têm que topar com a acuidade crua e “sórdida” de algo como a crônica rodrigueana.

    Aí é que descobrimos o quanto os enunciadores tidos como “politicamente corretos” também podem ser “hipócritas”. Um elefante numa sala de cristais incomoda muita gente… Essa me parece ser a melhor lição desse affair todo.

    • Muito bom, so quero dizer uma

      Muito bom, so quero dizer uma coisa a respeito disso:

      “A contextualização desse fato no fenômeno da publicização da domesticidade explicita a contingência específica de termos que, de outro modo, são naturalizados pelas militâncias correntes sob o rótulo universal e sumariamente condenatório da “opressão””:

      A “domesticidade” de uma pratica sexual exotica que ja tem nome e turma e foruns de discussao e pontos de encontro e consentimentos mutuos nos lugares certos eh invalidada quando alguem acha que pode tratar qualquer pessoa da mesma maneira que em foruns especializados e privados.  Ai ja vira perversao mesmo.  Nesse estrito sentido, a “domesticidade” da pratica sexual especifica foi que invadiu a vida publica do dito cujo, e foi por muito boa razao.  O erro foi dele.

      (continuo com pouquissimo interesse no assunto em si, e nao vou comentar muito tampouco)

  3. Apesar do assunto dessa

    Apesar do assunto dessa opressão doméstica e do abuso psicológico nas relações ser importante, não acho que as partes vão fornecer os elementos da sua vida íntima para alguém chegar à conclusão do que é verdade ou não, a ponto de avançar em algum sentido com esse tema. Se foi consentido ou não, se foi manipulação ou não, se eram solteiros ou não, tudo virou tudo uma grande fumaça, e já escolheram quem vai ser o Judas da vez no Esculacho, ficando claro que o caráter de um professor qualquer é mais relevante do que um tema de saúde mental, privacidade ou de liberdade.

    O que esse caso destacou mesmo foi a falta de agregação da esquerda atual para defender qualquer tema, e a capacidade de trucidar os seus em qualquer deslize. Parecem heróis gregos correndo atràs de cumprir seus 12 trabalhos de Hércules, e sua própria glória, sem pensar no conjunto final. E que no final das contas demonstra uma falta de consistência, exatamente esse discurso público frágil citado pelo Janine, que não vira prática e não institucionaliza nada, formando direitos ou um discurso que possa conter o adversário político.

    Pela ação do grupo que veio aqui salgar a terra em nome de um discurso de gênero, não se construiu um discurso favorável ao gênero. Nem se expandiu esse discurso para além do pequeno grupo que promoveu a marcha, indo ao grande grupo interessado no discurso de esquerda que se encontra aqui. E muito menos vai chegar ao grande público que está espalhado e alheio a essa discussão, lendo sobre outras coisas.

    Quem acompanhou o episódio ocorrido aqui há uns 4 anos, viu uma avalanche de gente que surgiu do nada passando apenas para demolir um espaço que defendia (ou dava vazão) a inúmeras bandeiras progressistas. E a horda que por aqui passou, e sumiu sem deixar nada, dizia-se progressista. 

    Por ser curioso, fui ler o que estavam dizendo após um grande ataque em bando, e vi que desaguaram em discurso de autolouvação, participando junto o tal do professor. Em comum, tinham um discurso autorreferenciado, e completamente pessoal com os seus seguidores mais jovens. Essa camaradagem é bonita, e faz bem ao jovem ser acolhido pelos mais velhos quando precisa fazer parte de um grupo, mas não forma um discurso público. Forma mais Stalin do que Lenin, mais imagem do que construção. 

    Não há como ser respeitar essas práticas de esculacho e justiça de mão própria, a não ser em casos extremos como depois do STF ter validado uma auto-anistia e torturadores estarem vivendo tranquilos, mesmo após o caso chegar a uma condenação da OEA, que é mais alta em matéria de Direitos Humanos do que qualquer corrente de pensamento no STF.

    Nesse caso extremo, da vitória da barbárie dentro do Estado de Direito, então uma pichação e algumas vaias, contra duas décadas de tortura e outras duas de luta poderiam ser justificáveis. No sentido oposto, em que o ato isolado de um sujeito – que era plenamente integrado ao grupo – vira uma grande onda de violência, não.

    Para além da contradição de um sujeito, que defende uma coisa e pratica outra, o que sobra nessa história toda é que para construir um discurso coletivo e firmar as novas idéias, as pessoas mais antigas precisam abrir mão da auto-consagração de ter atirado a primeira pedra.

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