A fé sob a perspectiva da Ciência Espírita, por Marcos Villas-Bôas

A fé sob a perspectiva da Ciência Espírita

por Marcos Villas-Bôas

A fé, ao longo da história humana, vem sendo quase sempre associada à crença religiosa dogmática. É tida por uma crença em Deus pautada na interpretação da palavra de algum Messias por um grupo de indivíduos que estão à frente de determinada religião. Como a fé fica associada à crença em dogmas peculiares a cada religião, isso leva ao afastamento entre os seus adeptos, pois cada qual argumenta que os seus dogmas são os únicos corretos.

Numa visão da Ciência Espírita, a fé é muito mais do que mera crença, e tal crença não é dogmática, mas científico-filosófica, como qualquer outra crença humana deve ser, ou seja, devemos acreditar em algo, apesar de sempre abertos a mudar de posição, porque há explicações racionais e plausíveis para aquilo, mas cientes de que contamos também com nossa intuição e nossos sentimentos nas tomadas de decisão. Do contrário, a tendência de se cair em ortodoxias/dogmatismos e misticismos é enorme, o que afasta os humanos da realidade e os segrega.

Segundo os Espíritos explicam em diversas obras psicografadas, a fé é uma crença, porém, mais forte do que isso, é um sentimento inato, escrito na consciência (ou inconsciência) de cada um:

“A fé é o sentimento inato, no homem, de sua destinação futura; é a consciência que tem das faculdades imensas, cujo germe foi depositado nele, primeiro em estado latente, e que deve fazer eclodir e crescer por sua vontade ativa.

Até o presente, a fé não foi compreendida senão sob o aspecto religioso…” (Mensagem de um Espírito Protetor, Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec, p. 189).   

Muito mais do que uma obra religiosa, o Evangelho segundo o Espiritismo é um livro filosófico que traz interpretações dos Espíritos acerca da moral cristã. Ele analisa trechos da Bíblia para dar a visão dos Espíritos sobre ela, estabelecendo uma filosofia de elevada carga moral e extremamente racional. 

Assim como muitos já acreditam, com facilidade, desde bem novos, em uma porção de ideias das quais nem sequer tinham ouvido falar, ou que praticam determinadas faculdades, como a caridade, desde muito cedo por estarem elas sedimentadas em suas consciências; a fé é desse gênero de faculdades que nascem com o ser. Todo humano nasce com esse germe, como a coragem e outras faculdades, que são, inclusive, maximizadas pela própria fé.  

Como o humano é “construído” ao longo de várias encarnações, a fé dele pode ser mais ou menos forte de acordo com o que fez durante os muitos séculos de existências. É claro que alguns indivíduos acreditam mais em si e numa ordem progressiva das coisas do que outros.

Os que têm a fé mais desenvolvida geralmente são dotados de maior força de vontade e resiliência perante as dificuldades da vida, de modo que ela é uma importante capacidade socioemocional, devendo ser trabalhada com esforço:

“A árvore da fé viva não cresce no coração miraculosamente.

Qual acontece na vida comum, o Criador dá tudo, mas não prescinde do esforço da criatura.

(…) A maioria das pessoas admite que a fé constitua milagrosa auréola doada a alguns espíritos privilegiados pelo fator divino.

Isso, contudo, é um equívoco de lamentáveis consequências” (Vinha de Luz, psicografia de Chico Xavier, Espírito Emmanuel, p. 50).  

A fé é, portanto, mais do que mero acreditar; é sentir dentro de si uma força, uma faculdade a ser desenvolvida. É a confiança nas capacidades depositadas em si pela natureza e na existência de uma ordem natural progressiva.

A fé é paciente, pois sabe que tudo gira dentro de uma ordem de coisas a caminho do progresso. A fé é corajosa, pois sabe que os esforços bem direcionados serão recompensados em algum momento. A fé é caridosa, pois sabe que a lei natural recompensa, ainda que em outras vidas, aquele que age pelo bem do próximo.

A fé desperta, portanto, uma porção de outras faculdades fundamentais, fazendo até mesmo com que o ser não interrompa o seu trabalho, e até o intensifique, quando for dura e repetidamente agredido pelos que dele discordam, sabedor de que cada um terá o que merece no momento adequado.

A fé meramente humana acredita no sucesso dos seus empreendimentos baseados no esforço. Aqueles que põem tudo de si em busca de algum fim ao menos próximo do concretizável fatalmente terminam alcançando-o. Boa parte dos humanos não chegam a suas metas por terem dificuldades de defini-las em face de questões socioemocionais, de modo que passam toda a vida mudando de objetivos e nada relevante atingem.

Outros sabem o que querem, porém não têm fé o bastante de que podem alcançar, ou não conseguem traduzir sua fé na força necessária, ou não aplicam tal força no meio mais adequado para atingir a meta.

A fé divina, por outro lado, aquela que diz respeito à continuação da vida, à nossa existência enquanto Espíritos e à existência de uma ordem natural progressiva, é a que está mais apta a desenvolver nossas faculdades socioemocionais, acarretando-nos as principais metas que qualquer ser humano deve almejar: a paz interior por meio do progresso moral e intelectual sob a perspectiva do Espírito.

O homem de fé é mais emocionalmente estável, pois sabe que as expiações lhe ensinam e fortalecem. Isso tudo é entendido empiricamente, observando aqueles que têm fé e a nós mesmos quando agimos proativamente com essa confiança na ordem natural que, apesar de enganar a muitos sobre isso, está sempre evoluindo.

“A fé é força divina, sendo o conjunto das virtudes que se apoderam da nossa consciência, instalando o amor em nosso coração. O Espírito, mesmo movendo-se em um corpo físico, pode acionar as forças da fé; depende dele mesmo, no aprimoramento das suas qualidades no campo dos sentimentos, alinhavando, todos os dias, a força mental na educação dos seus próprios pensamentos, cuja convivência com eles ainda são segredos, sendo área enorme para ser trabalhada pela disciplina, como pela instrução” (Cura-te a ti mesmo, psicografia de João Nunes Maia, Espírito Miramez, p. 48).

A fé, para além de uma crença raciocinada, um sentimento, uma faculdade, pode ser entendida como um conjunto de faculdades socioemocionais, pois, como visto, dela depende o seu desenvolvimento.

O livro “Foco triplo: uma nova abordagem para a educação”, do maior especialista do mundo em inteligência emocional, que é doutor em Psicologia por Harvard e autor do best-seller Inteligência Emocional, Daniel Goleman, e do professor do Massachussetts Institute of Technology (MIT), Peter Senge, defende uma reforma da educação que desenvolva muito mais as faculdades socioemocionais por meio da Aprendizam Socioemocional (ASE), mas com uma repaginação desta.

Com base em diversos estudos científicos e em experiências bem sucedidas realizadas em escolas, eles defendem que é preciso construir uma educação que desenvolva as faculdades naturais das crianças, despertando, por exemplo, o foco, a atenção, o planejamento de médio a longo prazo, a empatia e outros aspectos socioemocionais do indivíduo que são muito mais importantes para o seu sucesso do que costumeiramente se imagina.

A fé pode ser entendida também como a crença na importância dessas faculdades naturais de caráter socioemocional, ou o próprio conjunto delas, que nos conectam com o nosso íntimo e com os outros, indo além do mundo materialista e superficial ao qual a maioria dos humanos ainda estão muito ligados e pelo qual ficam distraídos em relação ao que realmente importa, que é a busca de paz de espírito, de fortalecimento de faculdades que permitam sermos melhores conosco e com os demais, gerando mais felicidade para todos.

Outro aspecto da fé está consubstanciado no fato de que o pensamento humano tem um enorme poder ainda desconhecido, comprovado em parte por meio do chamado efeito placebo. Se a Medicina aceita que a fé do indivíduo na cura por determinada substância placebo travestida de um remédio, de fato, provoca aquela cura, ela atesta que o poder da mente tem grandes efeitos sobre as doenças do corpo. 

O vencedor do Prêmio Nobel de Medicina em 1912, o francês Alexis Carrel, realizou importante estudo científico sobre o poder da oração, que está registrado no livro A oração: seu poder e efeitos. Ele o inicia assim:

“A Nós – homens do Ocidente – a razão parece-nos muito superior à intuição, preferimos grandemente a inteligência ao sentimento. A ciência irradia, ao passo que a religião extingue-se. Seguimos Descartes e abandonamos Pascal.

Desta maneira, procuramos principalmente desenvolver em nós a inteligência. Quanto às atividades não intelectuais do espírito, tais como o senso moral, o senso do belo e – sobretudo – o sentido do sagrado são desprezadas por forma quase completa. A atrofia dessas atividades fundamentais torna o homem moderno um ser completamente cego, e essa enfermidade não lhe permite ser um bom elemento constitutivo da sociedade.

[…] O sentido do sagrado exprime-se, sobretudo, pela oração. A oração, como o sentido do sagrado, é, evidentemente, um fenômeno espiritual. Mas, encontrando-se o mundo espiritual fora do alcance das nossas técnicas, como devemos, portanto, adquirir um conhecimento positivo da oração? Felizmente, o domínio da ciência abarca a totalidade do que é observável e pode, por intermédio da fisiologia, estender-se até as manifestações do espiritual. Assim, é pela observação sistemática do homem que reza que nós poderemos aprender em que consiste o fenômeno da Oração, a técnica da sua produção e os seus efeitos” (p. 2).

Mais à frente, o vencedor do Nobel de Medicina volta a falar sobre o poder da fé e da oração observado empiricamente por ele:

“São os efeitos curativos da oração que, em todas as épocas, têm despertado principalmente a atenção dos homens. Hoje ainda, nos meios em que se reza, é corrente ouvir-se falar de curas obtidas graças a súplicas dirigidas a Deus ou aos seus santos. Mas, quando se trata de doenças susceptíveis de se curarem espontaneamente ou com a ajuda de medicamentos vulgares, é difícil saber qual foi o verdadeiro agente de cura. É apenas em casos em que a terapêutica é inaplicável, ou em que ela não produziu efeito, que os resultados da oração podem ser verificados por forma segura. A repartição médica de Lourdes tem prestado um grande serviço à ciência, demonstrando a realidade dessas curas. A oração tem, por vezes, um efeito que podemos chamar explosivo. Há doentes que têm sido curados quase instantaneamente de afecções tais como o lúpus facial, cancro, infecções renais, tuberculose pulmonar, tuberculose óssea, tuberculose peritoneal etc. O fenômeno produz-se quase sempre da mesma maneira: uma grande dor e, em seguida, a percepção de se estar curado. Em alguns segundos ou, quando muito, em algumas horas, os sintomas desaparecem e as lesões orgânicas cicatrizam” (p. 10).    

Se a faculdade da fé, esse poder mental, fosse mais bem desenvolvida, muitas doenças seriam evitadas ou curadas com facilidade, pois bastaria o indivíduo estar em bom estado de espírito, acreditando não haver razões para ficar doente, que ficaria logo curado, desde que merecesse, uma vez que há vários casos irreversíveis.  

Não são poucas as histórias de pessoas que se curaram até mesmo do câncer sem os tratamentos indicados pela Medicina. Há muitíssimo que a ciência humana ainda não sabe sobre o poder da mente, do Espírito, das vibrações, daquilo que lhe parece transcendental.

A Ciência Espírita quer se afastar da fé exclusivamente religiosa, daquela ideia de fé distorcida pelo homem, que busca apenas retornos egóicos, como ganhos financeiros, males para os inimigos, soluções místicas e afins, mas que não pretende realizar uma reforma íntima, um desenvolvimento das suas faculdades.  

A Ciência Espírita ajuda, portanto, a restaurar as religiões, corrigindo distorções feitas sobre a similar filosofia moral que foi propagada por grandes missionários como Zaratrusta (Zoroastro), Buda, Jesus, Francisco de Assis e outros. Como diria mais uma vez Emmanuel, na psicografia de Chico Xavier:

“Qual a finalidade do esforço em minha vida? Esta é a interrogação que todos os crentes deveriam formular a si mesmos, frequentemente.

O trabalho de auto-esclarecimento abriria novos caminhos à visão espiritual.

Raramente se entrega o homem aos exercícios da fé, sem espírito de comercialismo inferior. Comumente, busca-se o templo religioso com a preocupação de ganhar alguma coisa para o dia que passa.

Raciocínios elementares, contudo, conduziriam o pensamento a mais vastas ilações.

Seria a crença tão-somente recurso para facilitar certas operações mecânicas ou rudimentares da vida humana?” (Vinha de Luz, p. 102).

A educação deveria ter como um pilar central o desenvolvimento da fé raciocinada, da relevância das faculdades socioemocionais como passos essenciais para o sucesso do indivíduo na vida. Uma educação de sucesso nesse sentido levaria a uma sociedade muito mais evoluída em termos de respeito ao próximo, à sua liberdade, ao mesmo tempo em que se buscaria uma maior igualdade e um relacionamento fraterno.  

A escola precisa ter a religiosidade e a espiritualidade fortes dentro dela, enquanto que os locais de cultos religiosos deveriam ser compreendidos como centros de educação sobre espiritualidade e filosofia moral visando ao desenvolvimento das faculdades naturais humanas, e não como espaços de meros rituais e propagação de dogmas, que costumam descambar para o exercício do poder sobre os fieis e/ou para a obtenção de ganhos financeiros.

 

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