A manifestação veio nos visitar

Jornal GGN – A redação já estava na calmaria. Estávamos acompanhando o desenrolar da manifestação, monitorando via redes sociais e por telefonemas dos repórteres Victor Saavedra e Mário Bentes, que foram cobrir o Movimento Passe Livre. Preocupada, entrava de quando em quando no Facebook, para saber o que poderia estar acontecendo, pescando os relatos de amigos que estavam próximos aos acontecimentos, seja por morarem na região ou trabalharem. 

De repente ouço um clamor em frente ao endereço da redação, em pleno Pacaembu. Corro para o portão, para ver o que acontecia. Centenas de jovens passavam na nossa porta, acuados pela polícia, tentando uma rota de fuga da Consolação e da Paulista. Comecei a gritar para que ficassem juntos, não desgarrassem, pois que teriam mais proteção na massa, e não sozinhos. Os meninos iam relatando as violênciass que sofreram.

Uma menina, uns 20 anos mais ou menos, me disse que estava ajoelhada no chão quando a polícia atirou em cima dela uma bomba de gás. Ela desmaiou e os amigos acudiram, para que não fosse atropelada pela massa em pânico. Um rapaz olhou para mim e disse que estava tudo pacífico, mas a polícia avançara com ferocidade para cima dos manifestantes, detonando o que podia pela frente.

Eles foram empurrados para o Pacaembu. Me perguntaram como ir para a praça Charles Muller, ensinei. Pedi que ficassem atentos. Cuidado! Os meninos, com olhos grandes de quem não acredita no que acontece, me garantiam que se cuidariam.

Volto para a redação e começo a ouvir estouros das bombas. Estavam muito próximas. Quase no quintal desta casa. Entro em pânico e vou de novo para o portão. Vejo meninos correndo de volta, desesperados, e me apavoro. Peço para abrir o portão. Não querem. Começo a chorar desesperada, pensando nos tantos jovens desprotegidos de agora, lembrando de nosso tempo de luta contra a ditadura.

Foram dois segundos para uma decisão. Fiquei no pedaço de muro mais baixo e mandei os meninos pularem, para que se abrigassem no quintal da casa. Entraram 22 meninos e meninas. Tentavam, ao passar por mim, explicar que não eram gente “ruim”. “Eu estudo na USP, senhora, não sou bandido”, disse um. “Obrigada”, disse outra menina, “eu sou do bem, olha, eu sou mãe, olha a foto do meu bebê, eu não posso ser presa”. Eu falei, parem de falar e vão para os fundos. Os meninos acataram.

Daí tínhamos no nosso quintal uma leva de jovens, contando o que aconteceu na manifestação. A voz corrente é de que estava tudo calmo, pacífico, e a polícia foi para cima atirando com balas de borracha e arremessando bombas de gás. Até então, a caminhada ia recebendo apoio dos populares, jogavam água e suco pelas janelas, vários desciam para apreciar a massa caminhante, sem medo dos jovens. Os vândalos, disseram, eram claramente infiltrados para deturpar o movimento. Quando alguém começava a destruir alguma coisa, era cercado e pediam para parar com aquilo. O que queriam era fazer valer seu protesto, sem arruaça ou quebradeira.

Os meninos foram se acalmando. Relatando. A colega Tatiane Correia sentou no meio da roda e foi recolhendo relatos, gravando alguns. Montei a câmera e fui perguntar quem gostaria de gravar um relato para subirmos para o Jornal GGN. O rapaz, no meio do grupo, me pediu desculpas, disse que estavam agradecidos por nossa ajuda, mas que não colocariam a cara em vídeo. Me toquei na hora, falei que não precisava explicar nada, eu iria dar de bandeja a carinha de 22 jovens para a “inteligência” policial.

E entre trancos e barrancos chegamos ao final da noite. 23h00. Os meninos começam a se organizar para ir embora. Saem dois grupo de 4 e um de 2. Ensino caminhos alternativos até o metrô. Os que ficaram estavam discutindo a saída, quando começamos a ouvir o barulho de patas martelando o asfalto. A tropa montada passa em frente à casa. Os meninos se desesperam, derrubam garrafas, escuto gemidos de medo. Vou correndo, junto com Tatiane e Angélica, até o portão, para tentar fazer uma barreira entre os meninos “malfeitores” e a nossa “grande” cavalaria. Foi uma sensação de horror. Imaginar aqueles homens raivosos em seus cavalos imensos se jogando contra manifestantes me deu calafrios, me fez lembrar das passeatas no período da ditadura, aqui mesmo em São Paulo.

Os meninos entraram em pânico, mas entendiam que era preciso seguir caminho. Montamos 3 grupos de 4: o primeiro iria comigo e Tatiane para a região da Paulista, o segundo iria com a Angélica e ficaria na Rebouças com Faria Lima e o terceiro ficaria até a chegada de um amigo, que os resgataria aqui.

Foi o que fizemos. Foi o que vimos. E foi o que vivenciamos.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora

2 comentários

  1. A polícia chegou até em baixo

    A polícia chegou até em baixo do nosso prédio, Higienópolis, e ficamos muito preocupados com todos esses garotos e garotas cheios de boas intenções e de sincera indignação.

    Demos nossa solidariedade a uma centena deles que estavam descendo a Itacolomi, alertando que a policia estava mais embaixo muito “equipada”…

    Ah, que esperança que nos dão esses jovens!

     

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome