A morte como política de governo, por Thiago Antônio de Oliveira Sá

O que Bolsonaro faz? Atiça as pulsões individuais enquanto afrouxa os mecanismos de controle social. Institui, enfim, a morte como política de governo. Atira-nos uns nos outros. Aliás, atirar é o verbo da vez.

Agência Brasil

A morte como política de governo

por Thiago Antônio de Oliveira Sá

As pessoas agem e interagem livremente em sociedade, de modo a perseguir seus interesses individuais. Eventualmente, estas interações se transformam em colisões, resultando em desentendimentos, impasses e violência. Para que nossa vida social não se transforme numa guerra de todos contra todos, é preciso a presença do Estado que, detendo o monopólio das armas, regula o convívio social por meio de controles sociais. Legisla, controla, fiscaliza e pune.  

De outro modo, as liberdades individuais, se ilimitadas, degringolariam em anarquia. As coerções, se excessivas, degenerariam em ditaduras. O tênue equilíbrio entre a agência individual e a restrição estrutural, que garante que sejamos livres juntos, está condicionado à lei legítima que media e regulamenta o convívio civilizado. Assim temos uma sociedade minimamente estável, cuja expressão é a república democrática. Fora disso, é o caos.

O que Bolsonaro faz? Atiça as pulsões individuais enquanto afrouxa os mecanismos de controle social. Institui, enfim, a morte como política de governo. Atira-nos uns nos outros. Aliás, atirar é o verbo da vez.

Promete resgatar o prazer de dirigir que os machões ao volante perderam, enquanto tenta retirar radares das rodovias e desobrigar o uso de assentos especiais para crianças nos veículos. Difama, mente e confunde a população, e se diz censurado, quando criticado e desmentido pelos meios de comunicação. Um saudoso da ditadura que luta pela liberdade de expressão, confundindo-a com licença para fake news. Desmonta a estrutura de fiscalização ambiental, enquanto acena positivamente para o desmate criminoso na Amazônia e no Pantanal. Subleva sua claque lunática em manifestações públicas contra os outros poderes da república. Pôs a saúde, a ciência e a educação nas mãos de idiotas.

No enfretamento da pandemia, sua política de morte já resultou em 240.000 mortes. Como ele agiu? Desautorizando, confundindo, debochando, subvertendo, mandando tocar sanfona e receitando cloroquina, com a qual gastou quase 90 milhões de reais, que poderiam ser investidos em medicações realmente eficazes. Desqualificou o uso de máscaras, desmentiu o distanciamento, provocou aglomerações ostensivas, recusou ofertas dos laboratórios, parcerias internacionais, fez corpo mole para a imunização e sabotou as formas cientificamente comprovadas de diminuir os riscos de contaminação. Zombou das famílias, deixou testes perderem a validade e permitiu mortes por asfixia.

Na segurança, o infame “excludente de ilicitude” pretende desresponsabilizar a polícia por eventuais assassinatos. Abuso impune é o sonho dos genocidas. E testemunho da incapacidade do Estado em gerir a segurança pública. “Excludente de ilicitude” é o licenciamento da política de extermínio já em voga, porém ainda ilegal, e a homologação das milícias.

E agora mais esta: decretos que facilitam a aquisição de armas, ampliam a quantidade delas permitida e retiram vários itens da fiscalização e do controle do exército.

Decretos tão inconstitucionais quanto inoportunos e absurdos: invadem competências do legislativo, num momento em que a pandemia deveria ser prioridade e somam-se a ela como mais uma causa de mortes no Brasil. A próxima epidemia será a da violência armada.

Suas consequências práticas seriam o abastecimento de milícias com armamento, ampliando seu poder, o aumento do número de homicídios, que cresceu em 2020, mesmo com as pessoas em casa, a desarticulação da fiscalização das armas e, o pior, a montagem de verdadeiros arsenais particulares por caçadores (30 armas por pessoa), atiradores (60) e colecionadores (10) (CACs). Aliás, caçadores de quê? De adversários?

Por que tanto interesse presidencial neste tema, além de divertir sua plateia? A articulação de um golpe. Suas etapas: desacreditar os sistemas de votação desde já; armar seus apoiadores até os dentes; contestar os resultados eleitorais sob alegação de suposta fraude, caso derrotado em 2022; articular um exército paramilitar composto por apoiadores e seus arsenais, policiais partidarizados e forças armadas participantes do governo; instigar seus apoiadores ao motim e dirigi-los a seus inimigos da vez. Conseguirá? Trump fracassou.

Estes decretos são cortina de fumaça? Certamente. Diversionismo para tirar o foco da interrupção da vacinação pela falta dos imunizantes. Enquanto isso, ele conspira nas sombras suas falcatruas familiares e oferece banquetes superfaturados aos militares.

As armas, aliás, são a cloroquina da segurança pública: agravam o mal que prometem combater. Ele quer retirar do Estado aquilo que lhe define, isto é, o monopólio das armas, admitindo, assim, sua incompetência no combate à criminalidade, delegando aos civis o serviço que cabe às forças de segurança.

A receita de seu populismo letal é esta: incentivar a conduta irresponsável enquanto desmancha os dispositivos que nos protegem uns dos outros e das intempéries sanitárias, ambientais… A extrema-direta, aliás, só sobrevive incitando o ódio, encorajando a violência entre compatriotas e corroendo lenta e internamente as normas constitucionais e os mecanismos legais que regulam o convívio social. A sabotagem do controle do Estado em favor da guerra de todos contra todos. É técnica compartilhada entre tecnopopulistas mundo afora.

Vacinas não são providenciadas, mas as armas, sim. Em ambos os casos, o objetivo é o mesmo: a morte. Deixar morrer e matar são a mesma coisa. Sem contar as mortes vindouras por acidentes de trânsito, discussões banais entre vizinhos ou motoristas, crimes passionais, feminicídios “justificados” e truculência policial. Calculado, deliberado. A morte plena, de todas as formas de vida, como no Pantanal ou no Amazonas. Resultados negativos tão expressivos não se devem apenas a incompetência, negacionismo ou indiferença; fazem parte de um projeto da morte como política de governo.

Assim, a morte se naturalizou. Nem assusta mais. Fauna e flora carbonizadas. Máscaras desacreditadas. Aglomerações incentivadas. A asfixia amazônica ficou rotineira (o fascismo nacional emula o alemão até nos detalhes). Mais de mil mortes diárias são o tal novo normal. “E daí?” Ele disse. Não era coveiro, justificou. E o Brasil pode se transformar num grande faroeste onde todos se acham xerifes, embora sejam todos bandidos potenciais. Afinal, os autodenominados cidadãos de bem não querem armas para promover a paz mundial, não é mesmo? Fanáticos militam pelo direito de matar, enquanto lutamos pelo direito de sobreviver.

Novos cartões-postais do Brasil? Queimadas, cinzas, fogo, sepulturas abertas em série, garimpos abandonados, clareiras abertas na mata, sangue nas calçadas e projéteis cravados nas paredes das casas. Exatamente conforme prometido.

Cabe lembrar: 57 milhões de eleitores são sócios do populismo letal, pois elegeram cientes. E não há perdão para quem votou nele por antipetismo ou pela agenda liberal. O que esperavam de alguém cujo mote da campanha era fazer arminha com a mão? Parabéns aos envolvidos.

O populismo letal de Bolsonaro deixa marcas: biomas incinerados, covas coletivas, cruzes fixadas na areia da praia e asfixiados pela negligência em sacos pretos anônimos. Facilita-se a importação de armas e dificulta-se a de vacinas porque a prioridade é matar, não salvar. Na distopia brasileira, nada brota nem floresce. Nada pode viver. Ninguém pode conviver.

Thiago Antônio de Oliveira Sá é sociólogo, professor e doutor em Sociologia.

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