Antes solo do que mal acompanhada?, por Mariana Nassif

Antes solo do que mal acompanhada?, por Mariana Nassif

Recém saída da reclusão de nascimento do meu orixá, ainda no preceito que só me libera o acesso tecnológico voltado para o trabalho, recebo um texto que contempla alguns diálogos de horas e horas mantidos entre uma amiga e eu e, acredito, entre ela e outras mulheres também. O feminismo vem sendo pauta constante no meu entorno e, então, o encontro com pessoas que possam conversar com abertura e foco nas questões sociais e não somente nas questões particulares dos enredos – uma problemática que quase sempre acompanha os debates feministas, quem nunca se pegou avaliando os prismas sob o olhar exclusivo de sua própria existência e manifestação?

Não é simples, de fato, e justamente por isso, abrir espaço para este texto que a Helô publicou no Facebook e tentar ampliar a bolha onde ele vai chegar faz parte da contribuição que desejo imprimir nas questões relativas ao feminismo ativo, especialmente à maternidade. Não vou escrever sobre minha história, propositalmente, para destacar que o assunto, a questão social, o contorno que as nomenclaturas promovem, enfim, que isso é maior e muito mais importante do que a experiência individual, inclusive para que esta experiência possa ser transformada.

Enfim, falemos sobre as mães solo e encontremos definições que contemplem aquelas que, apesar da falta de qualidade, ainda têm a presença do pai da criança, e que isso não se transforme numa ciranda de comparação de dores, uma das enormes e mais perigosas armadilhas presentes nos círculos femininos.

***

Por Helô Vianna

Podemos começar a semana problematizando o termo “mãe solo”?

Eu tenho algumas amigas que são mães solo. Elas não têm nenhuma presença do pai de seus filhos no cotidiano. Elas são as responsáveis exclusivas ou praticamente exclusivas por todo tempo de cuidado com os filhos, elas tomam todas as decisões sobre a educação, a criação, as necessidades dos filhos, com zero ou praticamente zero apoio financeiro, zero apoio emocional, nenhum apoio na divisão das tarefas no dia a dia. algumas têm avós/tias/tios que dão uma mão. Outras têm redes de apoio de amigas/amigos que salvam em algumas horas. 

Mas na prática, no fim das contas, estão solo, real oficial, nessa carreira de criar uma pessoa que tem 50% do DNA de um cara que não chega nem perto de 50% nessa divisão de responsabilidades.

Por outro lado, faz um tempo que observo com curiosidade mulheres separadas que dividem a guarda com os pais de seus filhos, inclusive chamando o acordo de guarda compartilhada. e ainda assim essas mulheres se auto intitulam mãe solo…

Eu sou mulher, feminista, sou mãe de duas meninas, tô mais do que ligada nas cargas desiguais que a gente carrega em comparação aos homens, não só na maternidade como na vida em geral.

Mas assim: eu não acho mesmo que o fato do peso na maioria absoluta das vezes ser maior pra mãe justifique uma mulher separada que divide a guarda com o pai dos filhos se referir a si mesma como mãe solo. Tenho achado isso extremamente confuso…

Talvez pra darem visibilidade a essa divisão injusta de cargas elas sintam necessidade de fazer uso da expressão mãe solo, como estratégia? Se sim, pessoalmente, eu acho uma estratégia bem ruim e equivocada.

Penso que se auto classificar como mãe solo sem ser, teoricamente, conceitualmente, é anular a existência de um pai que existe, sim, e que precisa existir inclusive pra que se critique e se enxergue as suas falhas, se são pais que dividem a guarda que deveria ser compartilhada e o fazem de forma insuficiente e pagam de “paizão” presente ou mesmo se são pais que se esforçam pra cumprir os combinados mas falham provavelmente porque se beneficiam em algum momento de seus privilégios como a maioria absoluta dos homens (pra não dizer TODO HOMEM porque senão já viu kkk) faz nos mais variados contextos.

Se a mulher se considera mãe solo sem ser tá meio que enterrando a possibilidade de exigir equidade daquele pai que existe, e também de exigir da própria sociedade que enxergue as falhas e cobre desses homens que, sim, são pais, e que precisam assumir mais as suas broncas como pais.

(um salve aos pais – sejam separados ou não – que cumprem de forma satisfatória seus 50% nessa missão, que se liguem que não estão fazendo mais do que o básico do básico, que não são “paizão da porra” mas que são pais normais e ok, legal.)

E por fim, me parece um certo desrespeito com as mulheres que são de fato mães solo a banalização/distorção desse termo. Dá no mínimo uma atrapalhada nos conceitos, não dá?

Ou tô viajando na problematização e deveria estar falando de política?

 

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1 comentário

  1. “Recém saída da reclusão de

    “Recém saída da reclusão de nascimento do meu orixá…” você é mãe solo dele ou ele também tem outras maternidades e paternidades?

     

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