Assédio no Masterchef Junior e precisamos MUITO falar sobre isso, por Matê da Luz

Tem gente que fica incomodada em falar sobre assuntos desagradáveis e este incômodo costuma variar de acordo com a experiência que a pessoa tem frente ao tema. Pedofilia e assédio sexual acabam encabeçando a lista dos assuntos não tocados porque, fique sabendo, esta é uma cultura que já vem de dentro das famílias: o falar sobre o assunto, normalmente, faz desmoronar uma avalanche de dores e desconstruções que realmente altera a composição estrutural estabelecida e, bem, isso é para poucos. Até mesmo porque, fique sabendo também, não são poucas as famílias onde os casos de abuso seguem quase que hereditariamente: a mãe foi abusada, as tias, as avós. E ninguém fala sobre isso sob a alegoria-negação-padrão de “é normal, eu vivi isso e superei, lide você também” (num misto entre raiva pelo próprio abuso sofrido e impotência frente ao abuso sofrido por um dos seus que culmina na paralisia) ou à titulo de, quem sabe, outros algos que variem entre medo e preguiça.

Dá um puta trabalho trazer um tema destes à tona. Publicamente, protegidos por pesquisas e referências, já é assim. Particularmente, nas sombras da nossa vida real, é ainda pior.

Daí que ontem o Twitter apresentou a hashtag #PrimeiroAssédio nos trendind topics, que é a marcação dos assuntos mais comentados na micro-rede. Se tratava de um movimento impulsionado pelo assédio sofrido pela Valentina, participante do programa Masterchef Junior – você pode ler mais sobre o caso aqui, aqui e aqui

Sob a tag, incontáveis mulheres descreveram como foi o primeiro assédio que sofreram e, fique sabendo, enorme parte deles ainda na infância. Por pessoas de confiança. Pais, amigos dos pas, avós. “Ah, mas só mulher sofre abuso e assédio?” Não, mas só mulher cresce e CONTINUA sofrendo, porque pelo menos que me seja conhecido homem algum tem medo de andar sozinho na rua quando escurece e todo esse blablabla que quase com certeza vai fazer alguns leitores me chamarem de feminista-vitimizada, mas desculpa ser tão direta, fique sabendo, é isso o que acontece – os homens desenvolvem o trauma de outra forma e, até onde eu saiba, o movimento nas redes não foi feminista: era aberto a todos aqueles que desejassem. Não vi, entretanto, nenhum homem postando nada. 

Até que vi o Roger, aquele do Ultraje, sabe?, num comentário tão escroto que resolvi escrever aqui, como sempre pra lavar imnha alma e escutar o outro, quem sabe pra iluminar meu coração em busca de um “onde é que a gente vai chegar”. O post do Roger você lê aqui, e repito: acho ele um total sem noção pra ter escrito isso, pra dizer o mínimo. Algumas pessoas que eu conheço sugeriram que este tuíte dele pode ser uma estratégia de marketing que vai se revelar em algo bom, como uma grande campanha feita por uma grande marca em prol da defesa das crianças e tal mas, olha, não consegui ouvir nem por um minuto sem surtar e dizer que, desculpe, mas estratégia de marca depende sim de tema e que o tema, neste caso, fique sabendo, não permite brincadeiras. 

Então é isso. Abuso sexual e assédio infantil são assuntos que a gente não fala muito sobre, mas precisa MUITO falar. Até porque conversa cura, conversa informa e, Deus e uma porção de gente boa queira e faça por onde, conversa pode prevenir. 

Amém <3 

 

 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora