Centro histórico de Barra de São João sofre com o abandono

Prédio histórico mal-conservado em Barra de São João

Quem esteve este ano na histórica cidade do estado do Rio de Janeiro para aproveitar as férias saiu estarrecido. Parte do casario centenário sofre com a falta de amparo. Moradores afirmam que nunca viram momento tão ruim de seu patrimônio.

Os tapumes de ferro que cercam a Praça As Primaveras (nome do título do livro de poesias de seu filho mais ilustre, o poeta Casimiro de Abreu), em reforma justamente no período em que a localidade mais recebe turistas, dão a dimensão do problema. Estavam lá as reclamações da população sobre vários assuntos – até serem devidamente apagadas poucos dias atrás por funcionários da prefeitura sob a vigilância da guarda municipal. Havia inclusive impropérios direcionados ao prefeito atual Antônio Marcos (PSC).

O mais evidente problema é o da própria praça que, de acordo com os moradores, está sendo revitalizada sem que a população tenha conhecimento do que será feito – segundo a prefeitura, a praça terá pórtico, banheiros, rede wi-fi e nova iluminação. O antigo coreto já foi parcialmente derrubado. A verba só saiu no final do ano, o que justificaria a obra no momento de alta temporada.

Barra de São João é terra de Casimiro de Abreu (1839-1860), que mencionou em várias de suas obras às belezas da região – seu mais famoso poema “Meus oito anos” é um dos que reverencia à localidade. A casa onde o poeta viveu tornou-se um museu e localiza-se às margens do rio São João, que deságua no mar pouco mais adiante.

Na foz desse rio, em um promontório junto ao mar, está uma das mais antigas igrejas construídas no Brasil, a de São João Batista (hoje capela), erguida em 1619 pelos jesuítas – o monumento encontra-se pichado na fachada, o seu interior tem riscos de desabamento e o cemitério ao fundo está abandonado (é nele que está enterrado Casimiro de Abreu).

O centro histórico de Barra de São João se divide em duas extensas ruas. A primeira à beira do rio São João, onde o comércio prosperou nos século XIX por conta de um movimentado porto existente nos fundos onde se localiza a Casa de Casimiro de Abreu.

O outro núcleo histórico encontra-se na rua São João, que liga a Rodovia Amaral Peixoto (que corta a cidade) até a foz do rio São João. São nessas duas vias que se vê o casario histórico abandonado, em decadência e vandalizado – apenas pequena parte dos casarios de ambas ruas é tombada pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).

Royalties

Barra de São João é distrito do município de Casimiro de Abreu, um dos que mais recebem royalties do petróleo explorado na Bacia de Campos. A 40 quilômetros da capital do petróleo, Macaé, a localidade recebe anualmente para lá de R$ 200 milhões de royalties.

Desde que começou a receber a dinheirama, tratou de investir no município. Na contramão do bom senso, o poder público jogou recursos para tornar a praia do distrito de Barra de São João local mais aprazível possível. Fez calçadão, pavimentou-a, incentivou festas à beira-mar.

A questão é que o mais primoroso de Barra de São João não está na sua única praia (embora bonita) de mar relativamente bravio (e perigoso aos desavisados próximo à foz do rio, em um pequeno trecho chamado prainha, por conta da correnteza).

A maior atração do lugar está no casario antigo de estilo colonial localizada à beira-rio – com suas exuberantes árvores na grama entre a rua e o rio, a vegetação típica na outra margem, o imponente morro São João e a atmosfera romântica como Casimiro de Abreu descreveu em uma de suas poesias: “A vila encantadora, debruçada à beira de um rio manso como um lago, modesto e simples como uma flor das montanhas”.

Era ali que o poder público deveria ter tido permanente cuidado desde que a Petrobras passou a fazer a compensação financeira aos municípios do Norte Fluminense e Região dos Lagos – e que hoje apresenta queda de repasse por conta da redução do preço do produto.

A oito quilômetros de Rio das Ostras e 35 quilômetros de Búzios, dois dos mais badalados pontos de turismo do Brasil por conta da beleza de suas praias, um ser com um mínimo de coerência aboletado no governo municipal de Casimiro de Abreu (responsável pela administração do distrito de Barra de São João) poderia imaginar que incentivando a preservação do seu rico patrimônio (e não a sua única praia pouco atraente), se tornaria facilmente o polo do turismo histórico-cultural imperdível da região para competir com os famosos balneários vizinhos.

Mas o quadro é outro. Apenas dois ótimos restaurantes sobrevivem hoje à região do casario histórico. Eles estão ao lado de outros ocupados pelo poder público, alguns por particulares e muitos em condições precárias.

Não há nada que justifique este descalabro difícil de entender em algumas décadas que o município recebe vultosos recursos dos royalties do petróleo, ainda que a prefeitura justifique que parte do dinheiro tenha sido aplicada também em serviços essenciais. Mas por que não de forma permanente no seu valioso patrimônio histórico? (Augusto Diniz – Barra de São João/RJ)

www.augustodiniz.com.br

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17 Comentários

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Augusto Diniz

- 2015-01-23 18:22:42

Ao Daniel

Pois é, Barra de São João realmente precisa de um ordenamento melhor voltado ao turismo. Augusto

Augusto Diniz

- 2015-01-23 18:20:50

Ao Heleno

Realmente é muito triste. O seu relato nos deixa ainda mais apreensivos. Augusto

Daniel Pereira Silva

- 2015-01-20 20:59:36

Conheço Barra de São

Conheço Barra de São João,desde 2000! Gostei tanto que viajava pelo menos 3 vezes ao ano para lá(ainda que naquela época morava em São Paulo).

Hoje moro em Niterói e vou algumas vezes,infelizmente as pousadas que íamos , não existem mais (a Bem-te-vi e a Encontro das águas),realmente o pessoal está emporcalhando a Barra de São João,destruindo o Patrimônio Público ,e consequentemente a história e identidade de quem sempre viveu aí. A Prefeitura tem que fazer alguma coisa,mesmo em convênio com o Estado ou a União. Tem que fomentar políticas públicas sérias,voltadas ao turismo que traga divisas e retorno para Barra de São João. Mas com o bom turista, digam não ao turismo predatório. Com relação aos monumentos históricos,cadê a guarda civil municipal? I

Heleno Antonio Ribeiro

- 2015-01-20 13:45:27

Minha querida Barra de São João

Caro Augusto Diniz,

Barra de São João responde por mais de 70% da receita do Municipio de Casimiro de Abreu. Vem do seu mar a maor riqueza do Município, os royalties do petróleo. Nem por isso, mas Barra de São João está agonizando. O seu patrimônio histórico e natural (o litoral, o rio São João, o Morro São João, o Museu de Casimiro de Abreu, a Igreja Católica, o Cemitério Sao João Batista, a rua Sao João, a AVenida Beira Rio, o nosso poeta, etc) não recebe o carinho e atenção de uma administração pública que se preze. Os prédios públicos e toda a beleza natural/cultural da cidade estão em petição de miséria, abandonados, largados à própria sorte.Calçadas quebradas, prédios pichados, velhos, maltratados e sem manutenção, essas são as marcas de seu abandono. Estamos prevendo o seu desabamento. Tudo em Barra de São João esta largado, abandonado. A biblioteca pública está fechada, sem manutenção, quase caindo. O cemitério São João Batista, onde está descansando o poeta Casimiro de Abreu, é um abandono só. O nosso casario histórico vive sem manutenção e completamente abandonado pelo poder público. A Rodovia Amaral Peixoto, onde está localiado o comércio local, é de um visual horrível. Prédios construídos desordenadamente, sem pinturas, fios elétricos se arrastam pelo chão. A Rodovia não sofre manutenção, está suja, com areia nas suas laterais, muito embora saibamos que existe empresa de limpeza que deveria prestar manutenão e para isso recebe dinheiro da Prefeitura. Quanto à revitaliação da Praça As Primaveras, esse ato do governo foi o fim da picada. De fato, a população não tem conhecimento de como será a sua reforma e qual o tempo que levará.. É tudo muito estranho. Não a teremos no período de férias e do carnaval, épocas em que Barra de São João recebe mais turistas.O prazo da obra será de 240 dias, como sempre ocorre, ela deverá ser empurrada com a barriga para ficar pronta, se ficar, próxima das eleições. Isto significa que não estará pronta antes de 2015. É lamentável, meu amigo, mais essa é a realidade de nossa querida Barra de São João.

Augusto Diniz

- 2015-01-13 13:02:07

Certo

Certo João. Vamos em frente. Augusto

João Mac-Cormick

- 2015-01-13 13:00:38

Política é o ato de tomar decisões

Se a verba federal chegou no fim, esse foi o ônus. No Rio de Janeiro, capital, vários espaços públicos foram "privados" da população para fazer obras. Política é a arte de tomar decisões. Não tem como agradar a gregos e troianos. Se faz no meio do ano, as festas do padroeiro, que são atividades tradicionais, também não aconteceriam. Em algum momento a população seria privada da "praça". Como eu disse, paciência. Não poderei levar meu filho ao carnaval do coreto neste ano. Verei em 2016.

João Mac-Cormick

- 2015-01-13 12:59:29

De quem é a culpa do crescimento desordenado?

Correto, mas de quem é a culpa do crescimento desordenado? Foi como coloquei. A prefeitura não pode deixar de fiscalizar. Infelizmente a fiscalização acaba não acontecendo justamente porque os políticos locais perderão o "mingué" da eleição.

João Mac-Cormick

- 2015-01-13 12:48:46

Quem é o culpado pela deterioração?

Não acho que a deterioração de Barra de São João seja devido a crescimento desordenado. A população de lá cresce pouco. O descaso das prefeituras talvez seja o ponto chave. Mas há também o vandalismo da população veranista que degrada o patrimônio, para zoar.

Já no lado de Tamoios, a deterioração se dá por falta de fiscalização do poder público municipal. Aí, sim, o crescimento desordenado acontece; casas são construídas em áreas ambientais e, quem deveria fiscalizar, não o faz pois o poder econômico se sobressai. Fiscalizar significa não ter o famoso financiamento privado a políticos durante o período eleitoral. #Devolvegilmar

Uma situação que não se vê em Tamoios é obra que leve em conta ciclovias. As calçadas quase não existem. Acessibilidade nem existe no distrito. Mães e pais têm que levar seus filhos em carrinhos de bebê pelas ruas, justamente porque não existe uma preocupação com o cidadão. O "pensar a cidade para o cidadão" é algo que chegará só em 50 anos.

Augusto Diniz

- 2015-01-13 12:41:59

Ao João Mac-Cormick 2

É, a proposta é inaugurar a praça na festa de São João, mas privou a cidade de espaço público na alta temporada, de qualquer forma.

Augusto Diniz

- 2015-01-13 12:39:28

Ao João Mac-Cormick

Suas ponderações são corretas. Só queria dizer que no meu texto não disse em nenhum momento que Barra de São João sofre crescimento desornado, ao contrário do vizinho distrito de Tamoios - como vc mesmo reconhece.

João Mac-Cormick

- 2015-01-13 12:39:27


This comment has been deleted.

João Mac-Cormick

- 2015-01-13 12:27:35

Vai ter coreto

A informação na própria placa é que vai ter coreto. O atual já foi derrubado. Se a verba federal veio no fim do ano, paciência. É esperar a inauguração nas festas do padroeiro do distrito: São João.

Cláudio José

- 2015-01-12 13:24:01

Muito triste isso lá, já

Muito triste isso lá, já passei férias na cidade! O governo tem que cobrar providências e buscar soluções! 

Alan Souza

- 2015-01-12 12:13:10

Esse gasto público com o carnaval é absurdo!

Aqui em Brasília o rombo financeiro do GDF passa de 3,5 bilhões, professores e servidores da saúde não receberam nem o salário de dezembro e nem o 13º, os hospitais públicos estão em colapso, sem ter nem esparadrapo, a cidade está esburacada e tomada por lixo e matagal, e as escolas de samba querem nada menos do que 6,35 milhões pra fazer carnaval. Fora essa granao GDF ainda gastaria mais 5 milhões com a infraestrutura do carnaval (arquibancadas, som, segurança, serviços de apoio, etc).

Já está mais do que na hora do carnaval, que sempre foi uma festa privada, se sustentar. Gerir seus recursos, ganhar seu próprio dinheiro e deixar de ser apêndice do Estado.

Augusto Diniz

- 2015-01-12 11:13:40

Ao Francisco Vaz Cacholas Junior

De fato, a deterioração também acontece em Aquarius e no distrito todo de Tamoios, vizinho a Barra de São João. O problema ali está na ocupação desordenada da região. Imagino o que você deve presenciar por lá. Abraço, Augusto

Cláudio José

- 2015-01-12 09:49:04

Infelizmente é uma pena. Já

Infelizmente é uma pena. Já passei férias na cidade! 

Francisco Vaz Cacholas Junior

- 2015-01-11 23:11:03

Centro histórico de Barra de São João sofre com o abandono

Assino embaixo se você permitir. Sou professor de Geografia, leciono em Saquarema, tenho casa em Aquarius, Cabo Frio, muito próximo do centro de Barra de São João. Estive no local no sábado, dia 10, e realmente o abandono é revoltante. Se o coreto realmente for demolido será um crime. Poucas praças no Brasil ainda preservam os coretos. Falta visão cultural aos governantes na Região dos Lagos. Existem locais nos municípios da região com potencial turístico/cultural excelente, e o casario de Barra de São João, assim como a igreja, são dos mais valiosos, vale a pena investir na sua preservação. Na contramão do investimento no patrimônio arquitetônico/cultural, o estímulo às festividades do tipo aniversário das cidades, reveillon, carnaval, com gastos absurdos na contratação de artistas e infraestrutura de shows  tem se multiplicado. Que retorno isso traz, de fato, para as cidades? Em Cabo Frio, por exemplo, o 2º distrito, Tamoios, onde se encontra Aquarius, a baderna no carnaval é geral, visto que não há fiscalização da prefeitura, e o policiamento é mínimo, concentrados na Praia do Forte e Centro. Os carros de som (?) em altíssimo volume, o consumo de drogas, pegas de motos na rua da praia, sujeira, são comuns, e isso tem crescido ano após ano, sem providências. Os recursos dos royalties, em geral, tem sido muito mal aplicados, com pouca/nenhuma transparência na divulgação para a população, uma verdadeira caixa preta. Falta investir no futuro agora. O petróleo é finito.    

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