As críticas a Dilma são manifestações de misoginia?

O jornalista cultural Pedro Alexandre Sanches faz parte de uma animada galera que milita politicamente no Twitter. E pega no meu pé de vez em quando, com a educação que sempre o caracterizou.

Por representar um tipo de militância que tende a ver o jogo político de forma muito matizada, convidei-o a escrever um artigo para o Blog, a fim de explicitar suas críticas e permitir alguns esclarecimentos da minha parte.

O pensamento único sequestrou a blogosfera progressista?

Por Pedro Alexandre Sanches

O ano de 2015 tem sido um sapato dois números menor que o pé para [email protected] nós [email protected] que somos mulheres, homossexuais, [email protected], indígenas, transexuais, [email protected][email protected], sem-terra, sem-teto, sem-mídia etc. etc. etc. O 15 tem sido um sapato de salto alto três números menor que nosso pé, para nós que vivemos no mirante de onde se vê o mundo mais pelo ângulo da cultura que pelos cabrestos da política, da economia, da matemática.

Este tem sido um ano-pedra-no-sapato para nós que, mulheres que somos, estamos [email protected] de tomar na testa não apenas os reacionários, os conservadores, os direitistas, os espumadores de ódio e os eternos comprometidos com o atraso, mas também os amigos machos-adultos-brancos-héteros-sempre-no-comando da blogosfera progressista, das esquerdas machérrimas, do socialismo que coça o saco, do psolismo amigãozão do José Serra.

A coisa vem pela direita, pela esquerda e pelos muros pós-tucanos de Gilberto Kassab e Marina Silva. A misoginia, essa moça que é irmã gêmea do rapaz chamado homofobia e prima-irmã do marmanjo carrancudo que nós e Ali Kamel convencionamos (não) chamar de racismo, transformou este nosso 2015 em um verdadeiro inferno no que se refere às guerras política e econômica (nem vou falar da cultura nesta ocasião, porque a grosso modo a cultura se acomodou à situação de bela adormecida neste país doirado de buarques e bethânais e simonais e alciones).

O panelaço começou um segundo depois da confirmação da reeleição femininíssima de Dilma Rousseff e não tem hora para acabar. O panelaço antifeminino fez sua primeira aparição espetaculosa no Dia Internacional da Mulher, quando Dilma tentava, na televisão, celebrar conquistas femininas da sociedade brasileira (vacina anti-HPV, PEC dAs domésticAs etc.).

Nosso subconsciente certamente entendeu: era preciso submeter, subjugar, amordaçar, calar e manter “em seu devido lugar” esta mulher que ousou pisar o centro gravitacional de poder que nunca lhe pertenceu de direito nem de fato. O filme Que Horas Ela Volta?, da femininíssima Anna Muylaert, explica esse processo tintim por tintim – e, bingo!, tem gente (macha) às pampas correndo para gritar que se trata de um filme sobre o lulismo, como se não fosse também um filme sobre o dilmismo, como se não fosse a presidentA Dilma Rousseff a responsável pela assinatura da “PEC dAs domésticas” e pela aplicação da injeção anti-HPV nas meninas do Brasil (nem vou me atrever a mencionar que foi sob Dilma que o Supremo Tribunal Federal legalizou a união civil homossexual, para não correr o risco de ser linchado pela tradicional comunidade gay misógina).

Todo mundo sabe que a misoginia campeia soberana nos terrenos férteis e lodosos da direita, de reinaldos e josias (esse último é o mais grotesco entre tantos misóginos antiDilma). Mas faz estragos também na blogosfera progressista, na parcela dela que não crê nas políticas do corpo como políticas de Estado. No lar virtual acolhedor que chamamos de Twitter, não resisto a tretar com o estimado Luis Nassif, cujos textos já me ensinaram mais sobre jornalismo do que quatro anos de curso na falecida USP e dez anos passados na finada Folha de São Paulo. Fico [email protected], [email protected] e [email protected] a cada vez que ele despenca mais um destampatório de avaliações misóginas (irmãs do besteirol homofóbico, primas da barbárie racista) contra a presidentA que, acredito, Nassif apoia ~apesar de tudo~.

É incrível, mas, 23 anos depois do impeachment de Fernando Collor (sobre o qual muito aprendi com os textos sóbrios de Nassif), uma mulher chamada Rousseff, a Vana, volta a unir direitas e esquerdas, deixando as primeiras indignadas e as segundas perplexas.

Cito apenas dois exemplos recentes recolhidos em Nassif.

Num enunciado bombástico, ele decreta que “a fraqueza de Dilma pode ser a sua força“. Ou seja, se por acaso a presidentA vier a contornar (como já vem de fato contornando) o golpismo que a fustiga sem trégua desde o dia da segunda eleição, terá sido por conta de sua fraqueza, jamais de sua força. Parece implícito no enunciado (e no conteúdo) que força é caráter masculino e que o colunista macho exige da presidentA mulher um caráter masculino ao governar. Se isso não é machismo e misoginia, é o quê?

Outro. Em mais um enunciado de fazer inveja à Veja, Nassif contemporiza (o que Veja jamais faria), uma no cravo da Fiesp, outra na ferradura trabalhista: “Com pacote fiscal, há chance de Dilma voltar ao jogo”. A mulher não saiu do jogo um minuto sequer, está aparando no peito o golpismo e a fúria louca de toda a elite econômica do país (quiçá do mundo), e o colunista macho tem a declarar que, apesar de fraca, fraca, fraquíssima (já que governa femininamente), ~há chance~ de a governantA mulher ~voltar ao jogo~? (Por que ~há~ a chance, mas a chance não pertence à dona da chance?) De que jogo estamos falando? Isso é o que, se não for misoginia e machismo?

Uso esses dois casos singelos para beliscar os momentos agudos em que o fundo de preconceito turva a visão política, mas sublinho que os exemplos de Nassif estão longe de isolados ou piores ou eloquentes acima da média da direita que espuma ódio. A atitude Desabonadora, Desqualificadora e Denegadora Diante de Dilma é generalizada na blogosfera progressista, nos professores de governo daquela que foi eleita e reeleita apesar de não saber governar. Esses, além de gastar 70% do tempo combatendo a corrupta e Decadente imprensa tradicional, Desperdiçam os outros 30% Depreciando uma presidentA que tem atravessado feito amazona uma floresta de espinhos. (Não sou nada bom em matemática, mas, noutras palavras, passam 30% do tempo ajudando a consolidar o ponto de vista da mídia Decrépita que Detratam em 70% do tempo).

 (Evidentemente não estou me referindo, aqui, à Conceição Oliveira, à Cynara Menezes ou à Lola Aronovich – essas blogueirAs progressistAs eu nunca vi atingirem Dilma com sequer uma palavra, sílaba ou bolinha de papel sexista.)

Agora coloco misoginia, homofobia e racismo em provisório segundo plano. À parte as questões humanitárias e de direitos civis, a blogosfera progressista tem cumprido um triste papel político de acessória ao discurso único da mídia conservadora, que há quase um ano se resume a gritar (sem qualquer apoio em fatos reais e sob silêncio petista catatônico): “Impeachment!”, “impeachment!”, “impeachment!”.

Nassif, Mino Carta, Renato Rovai, Rodrigo Vianna, Eduardo Guimarães, Brasil 247 (esse site é progressista desde quando?), até @s [email protected] Jornalistas Livres de cuja invenção tenho a honra de ter participado, todos se dedicam diuturnamente a cerzir um xadrez subserviente que oscila entre o jogo duplo à moda peemedebista do sinistro Michel Temer e a pura papagaiada do terrorismo midiático conservador. Por medo, pânico ou terror, só se fala de golpe e de impeachment há 366 dias, tanto aqui como nos domínios (g)lobistas dos mervais.

(Registre-se a exceção honrosa do sempre amalucado Paulo Henrique Amorim: à parte os exageros e a condição de funcionário da rede do bispo, PHA se destaca dos demais por nunca, até aqui, ter aderido ao pânico insano dos reféns da síndrome de Estocolmo do golpismo canastrão.)

O ponto crucial ao qual eu gostaria de chegar, no domínio híbrido da política e da cultura, é que uma blogosfera progressista possuída pelo medo insensato não foi capaz de produzir, até aqui, um milímetro de interpretação própria, original,

Tudo que temos feito é ficar a reboque da mídia reacionária da qual [email protected] de nós somos dissidentes. Reverberamos incessantemente a Pauta Única Totalitária do adversário, a Grande Potoca Golpista que, num ambiente de lógica, racionalidade e serenidade, não se sustentaria nas próprias pernas nem por manjados 15 minutos de fama e celebridade.

O pano de fundo, e agora retomo indiretamente o tema da misoginia (do racismo) (da homofobia), é que na reeleição de Dilma o lado conservador perdeu mais uma batalha (a quarta consecutiva numa guerra que não tem hora marcada para acabar, ao contrário do que apostam os arautos do auto-apocalipse). Ato contínuo, sem nem lamber as feridas, passou a falsificar para si o comportamento de vencedor. Os perdedores vestiram a capa de vencedores, enquanto @s [email protected] (obviamente não estou me referindo à brava presidentA) passaram a adotar bovinamente o figurino de derrotados.

Uma narrativa fantasiosa se ergueu de uma nuvem de pó e se transformou em luxuoso edifício de concreto, num complexo de torres gêmeas (Dilma e Lula) que os Estados Unidos do BraZil precisam a todo custo explodir, enquanto juram copiosamente que as torres já estão derrubadas e convertidas em poeira de estrela. Fundada no princípio-pesadelo da Eleição Perpétua (que nos diga Fernando Haddad), essa fábula hollywoodiana de péssima qualidade tem baixíssimo grau de vínculo com a realidade, e já passa (e muito) da hora de o jornalismo progressista (aquele que tem lado e sabe muito bem qual lado é o seu) assumir a responsabilidade de parar de copiar chanchada alheia e construir sua (nossa) própria narrativa.

Matar de uma vez por todas a praga da misoginia (da homofobia) (do racismo) em cada um dos menores textos que escrevermos seria um excelente (re)começo. Escaparemos lindamente do pau-de-arara em que a Tradição-Família-Propriedade quer nos meter não apesar de sermos [email protected] por uma mulher, mas sobretudo PORQUE SOMOS [email protected] por uma Mulher com D maiúsculo.

Observações de LN

Discutir governo Dilma exige um conjunto grande de conhecimentos e de contatos. Montam-se julgamentos a partir de conversas com políticos, com fontes do Palácio, com fontes do Congresso, com empresários, sindicatos, situação, oposição. É um conjunto grande de informações para serem avaliadas em um quadro sujeito a mudanças permanentes.

Pedro pretende participar da discussão com o estilo que caracteriza os jornalistas culturais, a crítica impressionista, isto é, baseada em impressões.

Como a munição não dá, sua saída foi simplificar a discussão e traze-la para o terreno da igualdade entre sexos, dizer que as críticas são manifestações machistas.  

O único elemento que levanta – em defesa de sua tese – é que há homens criticando e uma mulher sendo criticado. Logo, é misoginia.

Menos. Crítica machista ou misógina é aquela que atribui determinadas fraqueza da criticada à sua condição de mulher. Tipo: a Dilma errou porque mulheres não têm o mesmo sangue frio que os homens. Para acusar uma crítica de machista, tem que demonstrar o machismo.

Confira os elementos que ele levanta:

1.     “Num enunciado bombástico, ele decreta que “a fraqueza de Dilma pode ser a sua força“. Ou seja, se por acaso a presidentA vier a contornar (como já vem de fato contornando) o golpismo que a fustiga sem trégua desde o dia da segunda eleição, terá sido por conta de sua fraqueza, jamais de sua força. Parece implícito no enunciado (e no conteúdo) que força é caráter masculino e que o colunista macho exige da presidentA mulher um caráter masculino ao governar. Se isso não é machismo e misoginia, é o quê?”

R: Dilma está politicamente fraca por não ter o controle do Congresso, ter índices de popularidade baixíssimos e não conseguir apresentar um plano de governo. O artigo afirmou que o fato de estar fraca pode ser um trunfo, como foi no caso de Itamar. Por ser um presidente politicamente fraco, facilitou um pacto político em torno dele. O tema comporta uma grande discussão política. Mas Pedro foi procurar um implícito sem pé nem cabeça. Principalmente porque a maior crítica ao estilo Dilma é justamente o uso excessivo da força, a imposição de decisões sem ouvir ninguém, a autossuficiência, características muito mais facilmente encontradas nos homens-macho, do que na sensibilidade das mulheres.

2.    “Em mais um enunciado de fazer inveja à Veja, Nassif contemporiza (o que Veja jamais faria), uma no cravo da Fiesp, outra na ferradura trabalhista: “Com pacote fiscal, há chance de Dilma voltar ao jogo”. A mulher não saiu do jogo um minuto sequer, está aparando no peito o golpismo e a fúria louca de toda a elite econômica do país (quiçá do mundo), e o colunista macho tem a declarar que, apesar de fraca, fraca, fraquíssima (já que governa femininamente), ~há chance~ de a governantA mulher ~voltar ao jogo~? (Por que ~há~ a chance, mas a chance não pertence à dona da chance?) De que jogo estamos falando? Isso é o que, se não for misoginia e machismo?

R: Só um machista empedernido acharia que o adjetivo “fraquíssimo” se aplica apenas às mulheres. Aécio é um político fraquíssimo.

Nem vou me deter em responder às críticas contra “blogueiros progressistas”. Achei que, por ser jornalista, Pedro teria clareza sobre o universo dos blogueiros políticos. Quando coloca no mesmo balaio o Mino e o nosso bravo Eduardo Guimarães, Pedro mostra que seu nível de informação é similar ao de qualquer jovem tuiteiro. Parece o sujeito que vai criticar música japonesa e considera que todas são iguais.

Quanto às ofensas, de colocar os blogueiros como caudatários da velha mídia, cada qual escolhe qual dragão enfrentar. Nossos dragões são Gilmar Mendes, Eduardo Cunha, Merval.  O Pedro cria um dragão – uma misoginia inventada por ele – e se põe a combater moinhos de vento.

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