Doutor Magarinos, o advogado do morro

Enviado por alfeu

Rogério Daflon, Do Canal Ibase

No  período de redemocratização pós-Estado Novo, surge no Rio de Janeiro um personagem bem afeito ao gênero cinematográfico  que mais retrata a realidade. Ao se depararem com a trajetória de Antoine de Magarinos Torres Filho, o advogado Rafael Soares Gonçalves, professor do Departamento de Serviço Social da PUC-Rio, e Mauro Amoroso, doutor em História, não tiveram dúvidas de que um documentário deveria ser feito o quanto antes. Magarinos foi membro de uma família de classe média recheada de conservadorismo. Com direção de Ludmila Curi, o nome do curta-metragem, contudo, mostra o protagonista associado não só a movimentos democráticos e progressistas como, sobretudo, à causa dos favelados nos anos 1950 e 1960 até ser abruptamente interrompido pela ditadura militar. Mas não é só por isso que “Doutor Magarinos, advogado do morro” merece ser visto. Ele recupera um tempo em que as favelas da cidade se articularam como nunca para cobrar seus direitos. Há quem diga que tal convergência está sendo retomada nos dias de hoje, provocada por uma administração municipal que adora a palavra remoção.

Seja como for, o curta será exibido neste sábado (14/12) pela primeira vez no Ciep que leva o nome de Magarinos na Rua São Miguel, em frente à entrada do Morro do Borel. Não poderia haver lugar mais apropriado. O filme reconstitui o envolvimento de Magarinos contra a remoção do Morro do Borel e a criação da União dos Trabalhadores Favelados (UTF), cujo primeiro desafio foi o de defender a população dali contra a ambição desmedida de grileiros à época.

– Magarinos foi um precursor do discurso de direitos em favelas. A atuação da UTF se expandiu para outras comunidades, como Jacarezinho, Maré, Salgueiro e Mata Machado, que passaram a ter base jurídica para lutar pela sua permanência e a cobrar direitos relacionados à urbanização, como água, esgoto e luz – diz Rafael, doutor em História, que lançou recentemente o livro “Favelas do Rio de Janeiro, História e Direito” (Editoras PUC-Rio e Pallas).

O filme traz um Rio de Janeiro industrial. E mostra como as fábricas como a Souza Cruz na Tijuca, Zona Norte da cidade, influenciaram a ocupação das favelas. Como realça Rafael, a ação de Magarinos articulou o mundo sindical ao  universo do favelado, ao escutar e organizar as reivindicações não do contexto fabril, mas do da ausência de políticas públicas nesses territórios.

– O espectador vai poder fazer algumas relações com o que se vive no dia de hoje em relação às favelas, já que a atual prefeitura retomou a política de remoções – diz a diretora Ludmila Curi.

Rafael destaca que, na favela, havia o morador com carteira de trabalho, mas, é claro, também os que obtinham sua renda pela via da informalidade. Magarinos teve grande visão ao perceber que a luta de classes não se reduzia ao conflito do funcionário da fábrica contra o patrão. De certa forma, ele anteviu pontos da teoria do filósofo francês Henry Lefebvre do direito à cidade. Não sem muita polêmica. Era extremamente criticado por jornais como O Globo e O Dia e reverenciado por outros, mais à esquerda, como a Imprensa Popular. Recebeu uma enxurrada de opiniões desfavoráveis dos meios de comunicação quando resolveu incentivar a ocupação de uma área do atual Complexo da Maré. Pode-se dizer que foi um dos fundadores do Parque União, hoje consolidado na Maré. A iniciativa o levou a ser chamado até de miliciano. A produção do curta encontrou personagens que vivenciaram a formação do Parque União. E eles só foram elogios à figura de Magarinos.

Em “Doutor Magarinos, advogado do morro” , entretanto, não se vê a vontade de mitificar o, digamos, ator principal. Mas, sim, a de descrever um esquecido passado fabril  carioca sendo substituído por uma cidade em que já se encontrava um setor imobiliário ávido por lucrar com a ocupação dos espaços, objetivo que tinha – e tem – na favela e na habitação social um grande entrave.

Entre erros e acertos, Magarinos trouxe a todo esse campo de disputa o direito dos favelados. O documentário, assim, instiga o debate. A dica é vê-lo o mais rápido possível e em outras sessões só chegar para a conversa animada que os realizadores estão dispostos a promover.

http://www.canalibase.org.br/o-advogado-do-morro/

                                               Antoine de Magarinos

Sobre a articulação das favelas nesssa época: http://www.favelatemmemoria.com.br/publique/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=12&tpl=printerview&sid=7

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