Duas histórias oficiais: 34 anos de um estupro, 50 anos de uma tortura até a morte, por Paulo Fernandes Silveira

Os horrores promovidos por Hitler ocorreram numa sociedade que havia desenvolvido nas décadas anteriores uma indiferença à brutalidade.

(Mães da Praça de Maio, retratadas no filme argentino “História Oficial”, vencedor de vários prêmios, entre os quais, o Oscar de melhor filme estrangeiro de 1986).

Duas histórias oficiais: 34 anos de um estupro, 50 anos de uma tortura até a morte

por Paulo Fernandes Silveira

            Menos de dois anos após o fim da terrível ditadura militar na Argentina, o filme “História Oficial”, de Luis Puenzo, retrata um dos símbolos mais belos e importantes da resistência civil, o movimento das “Mães da Praça de Maio”. As mães de desaparecidas e desaparecidos, militantes políticos presos, torturados e assassinados, tomam as ruas em busca da verdade sobre suas filhas e filhos. O filme também narra uma história que se tornou comum na ditadura argentina, a adoção não oficial por parte de comandantes do exército das crianças que tiveram seus pais assassinados na repressão. 

            Nas últimas semanas, duas histórias oficiais bárbaras foram relembradas pela grande imprensa, o estupro da menina de 13 anos Sandra Pfäffli, no quarto de um hotel da Suíça, há 34 anos, e a tortura e assassinato do deputado Rubens Paiva, há 50 anos. Em comum, os responsáveis por essas duas barbaridades, os jogadores de futebol que participaram do estupro e os militares e policiais civis que cometeram graves crimes contra humanidade na última ditadura empresarial-militar no Brasil, estão empenhados em manter essas histórias no esquecimento.

            Numa das reportagens sobre o estupro ocorrido na Suíça, dezenas de leitores homens criticam o órgão de imprensa que a noticiou (https://www.uol.com.br/esporte/futebol/ultimas-noticias/2021/03/04/condenados-com-cuca-tentam-se-distanciar-de-escandalo-sexual-de-1987.htm). Esses leitores defendem agressiva e fervorosamente que histórias ocorridas há tanto tempo devem ser esquecidas. Seu argumento é que ninguém ganha nada relembrando essas histórias, ao contrário, isso só pode prejudicar os jogadores de futebol envolvidos. Algo semelhante ao que inúmeros militares têm defendido desde que foi realizada a Comissão Nacional da Verdade (CNV) pelo governo da presidenta Dilma Rousseff.

            No livro Soldados Caídos (Fallen Soldiers), George Mosse, historiador alemão de origem judaica, apresenta uma tese fundamental sobre o nazismo: os horrores promovidos por Hitler ocorreram numa sociedade que havia desenvolvido nas décadas anteriores uma indiferença à brutalidade. Em certo sentido, aqueles que defendem o esquecimento da barbárie também se comprometem com essa indiferença.

Paulo Fernandes Silveira (FE-USP e IEA-USP)

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