Em semana de insanidades reais, seguimos na luta antimanicomial, por Matê da Luz

Em semana de insanidades reais, seguimos na luta antimanicomial

por Matê da Luz

Recebi esta carta de um amigo meu, psiquiatra, envolvido na análise e tratamento de indivíduos pautada na busca pelo bem-estar completo dos pacientes. Já nos pegamos em discussões sobre a necessidade de medicar em contrapartida ao tratamento holístico; já discordamos acerca de diagnósticos precoces e vivemos conversando sobre as melhores soluções e caminhos na cura da origem do que faz e traz o mal às pessoas e, num ponto único, somos pares: a luta antimanicomial. 

Seja por acreditar que os porquês da vida vez ou outra são invisíveis, seja por questões mais acadêmicas e profundas, sólidas também, concordamos que isolar aquele que é taxado como incomum é uma agressão sem tamanho, ainda mais nas circunstâncias apresentadas pelas insitiuições presentes no País. Me comprometi a divulgar esta carta, escrita por uma conhecida dele, para soprar um vento de lucidez numa semana insana no Brasil, especialmente, onde todo e qualquer assunto foi abafado pelos escândalos políticos na esfera pública. Vale lembrar que, no privado, atrocidades também acontecem. 

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Eu digo e repito sussurrando no seu ouvido…mas espero que isso soe como um grito: Por uma sociedade sem manicômios!!!

O dia 18 de maio, dia nacional da Luta Antimanicomial no Brasil, foi instituído nessa data em 1987, se tornando um marco. Buscando a plena saúde mental e preservação dos direitos humanos daqueles que apresentam alguma vulnerabilidade psíquica. O que não parece ser do interesse de muitas das pessoas consideradas normotípicas, aquelas que não apresentam transtornos mentais diagnosticados. Quando o problema não bate à sua porta, existe um distanciamento do fato de que somos todos iguais e merecemos ser tratados de forma humana, independente da situação em que nos encontramos. Piores ainda são os casos em que a “loucura” é sua vizinha ou irmã, e a crueldade ainda é presente.

O termo “loucura” é pejorativamente utilizado para designar pessoas e atos que não condizem com o esperado pela grande maioria da sociedade em geral. É vulgarmente aplicado a diversas situações cotidianas. Mas o que não percebemos é que a utilização desse termo vem de um grande preconceito em relação às pessoas com transtornos mentais e a repetição depreciativa dessa expressão só reforça esse preconceito.

O medo da loucura tem muitas origens, uma delas é o medo do que não entendemos, do que é diferente, mas isso não justifica qualquer ato de discriminação ou abuso, pois é obrigação de um cidadão que vive em comunidade ter o mínimo de humanidade, e buscar compreender aqueles e aquilo que nos é que desconhecido, gerando bem estar a todos os nossos iguais, sim, somos todos iguais perante a lei e, acredito, que deveríamos ser iguais também, dentro de nossos corações.

O tratamento para os transtornos mentais é historicamente realizado para isolar o “Louco” da sociedade, já que esse representaria perigo para a mesma. Ou seja, o objetivo do tratamento não era promover saúde e sim conter a “loucura”. Como muitas vezes o comprometimento da pessoa com transtorno mental não permitia que ela lutasse por seus direitos, esses eram ( e ainda são) violados. A contenção física desnecessária, tratamentos invasivos e sem consentimento, maus tratos, e perda total de direitos e da dignidade humana. Não precisamos ir muito longe no tempo para dar exemplos atrozes dessas violações de direitos, um exemplo ainda atual é o do Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais. Considerado o Holocausto Brasileiro. Franco Basaglio, o psiquiatra italiano que foi o pioneiro na luta Antimanicomial, visitou o hospital e o chamou de campo de concentração.

Mas vamos refletir, o que é loucura? Quais são nossas referências de normalidade ?

Existem vários pontos de vista em relação a como definir quem apresenta um transtorno mental, como, por exemplo, receber um diagnóstico com CID (Código Internacional de Doenças ), mas isso pode ser traiçoeiro. Pode facilitar o tratamento e compreensão da doença, entretanto esse rótulo pode criar limites às possíveis melhoras da pessoa com transtorno, já que muitos profissionais da saúde se contentam em tratar a doença e não a complexidade do que é o ser humano e suas capacidades e potenciais. Atualmente existe uma forma mais abrangente de diagnóstico, o CIF ( Código internacional de Funcionalidade). A partir da Luta Antimanicomial novos dispositivos terapêuticos em meio aberto foram criados, como, os CAPS ( Centro de Atenção Psicossocial), CECOOS ( Centros de Convivência e Cooperativas), e outros exemplos, como dois Pontos de Economia Solidária na zona Oeste de São Paulo. Serviços que buscam a reinserção e ressocialização das pessoas, valorizando seus potenciais, apresentando projetos que estimulam a geração de trabalho e renda. Geram inclusão pelo trabalho de forma que respeitam as diferenças entre as pessoas, suas vulnerabilidades e individualidade.

De qualquer forma para tratar a loucura alheia, só entrando em contato e curando nossas próprias insanidades, como o preconceito, a desumanidade e a falta de amor.

Íris, usuária dos serviços de saúde mental
Ana Galluzzi, Terapeuta ocupacional

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