Entidades reagem a relativização da Volkswagen na participação na ditadura

"Montadora tentou transformar luta por memória, verdade, justiça para produzir uma peça de marketing, como paladina da luta contra atrocidades cometidas”

Entidades contestam nota em que Volkswagen relativiza sua participação na ditadura

Do Brasil de Fato

Organizações responsáveis pela investigação que embasou denúncia sobre a participação da Volkswagen na perseguição de trabalhadores durante a ditadura militar, se posicionaram contra o anúncio que a empresa alemã publicou em veículos de imprensa no mês passado.

No anúncio, a empresa afirma lamentar e se solidarizar com “as violações de direitos humanos ocorridas naquele momento histórico”, não deixando claro que a investigação realizada pela Comissão Nacional da Verdade (CNV), comprovou, por meio de extensas provas documentais, que a mesma teve ampla participação nas violações de direitos humanos cometidas durante o período. 

Em comunicado, as entidades participantes da CNV afirmam que a empresa “tentou transformar a luta por memória, verdade, justiça e reparação em oportunidade para produzir uma peça de marketing em seu favor, apresentando-se como paladina da luta contra as atrocidades cometidas”.

As organizações também destacam a distorção de informação contida no título da publicidade da Volkswagen que coloca a empresa como “a primeira do setor automotivo a examinar sua história durante o período da ditadura militar no Brasil”. 

Para as entidades, o fato não é motivo de orgulho, já que foi “a gravidade dos fatos ocorridos no âmbito da empresa e a solidez da investigação realizada a razão determinante de a Volkswagen ser a primeira denunciada ao Ministério Público.”  A CNV também destaca que foi a denúncia realizada por eles que obrigou a empresa alemã a se pronunciar publicamente sobre a questão.

Histórico

Aberta em 2016, a investigação sobre a Volkswagen foi realizada pelo grupo Ditadura e repressão aos trabalhadores, às trabalhadoras e ao movimento sindical, constituído pela CNV, e integrado por todas as centrais sindicais brasileiras, bem como tematizado pela Comissão da Verdade do Estado de São Paulo Rubens Paiva

Entregue ao Ministério Público Federal, a denúncia resultou no relatório Direitos Humanos, Empresas e Justiça de Transição: O Papel da Volkswagen do Brasil na Repressão Politica Durante a Ditadura Militar assinado pelos Ministério Público Federal, Ministério Público de São Paulo e Ministério Público do Trabalho.

O relatório, embasado por centenas de documentos localizados nos arquivos da repressão, comprovou a ampla participação da empresa alemã no projeto de repressão promovido pela ditadura militar. O documento demonstra, inclusive, o conhecimento e o acompanhamento das ações pela diretoria da montadora. Portanto, a participação da empresa corresponderia a um projeto de parceria com a repressão estatal para o controle e a repressão sistemáticos de trabalhadores e trabalhadoras.

“Está claro que a Volkswagen estabeleceu por disposição própria uma intensa relação de contribuição com os órgãos da repressão política, muito além dos limites da fábrica. A empresa demonstrou vontade de participar do sistema repressivo, sabendo que submetia seus funcionários a risco de prisões ilegais e tortura”, destaca o relatório.

Desdobramentos

A denúncia contra a Volks inspirou outras investigações que tem por objetivo dar visibilidade às violações de direitos de outras empresas durante a ditadura militar no Brasil. Casos como o da Companhia Docas, na Baixada Santista; da Gleba Cidapar, no Pará; e da Fiat, em Minas Gerais, são alguns exemplos que estão ativos nesse sentido. 

O inquérito contra a Volks ainda está em andamento. Há um recurso pendente no Conselho Superior do Ministério Público.

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