Estamos numa guerra. E não é força de retórica, por Francisco Celso Calmon

É uma luta contra o tempo, porque quanto mais ele se expande e penetra, ele varia a sua natureza e exige variações de armas preventivas para enfrentá-lo.

Estamos numa guerra. E não é força de retórica

por Francisco Celso Calmon

Temos um inimigo externo que penetra nossas trincheiras de autodefesa e ocupa partes do território do nosso corpo, e, quando não nos aniquila, nos deixa com sequelas profundas.

Como não o enxergamos, o combate mais eficaz é o preventivo, é o de salvaguarda.

É uma luta contra o tempo, porque quanto mais ele se expande e penetra, ele varia a sua natureza e exige variações de armas preventivas para enfrentá-lo.

A esse inimigo de toda humanidade foi dado o nome de covid-19. De onde surgiu não há comprovação científica, sabe-se aonde foi localizado pela primeira vez, e isso dificulta seu extermínio, se é que será possível.

Os governantes dessa humanidade não tiveram o comportamento mais correto diante do inimigo tão poderoso quanto invisível e desconhecido. Não uniram esforços e durante um tempo precioso subestimaram a capacidade destrutiva do oponente.

Como o sistema predominante no mundo é o capitalista, que mesmo diante de uma pandemia prioriza a economia em lugar da vida, o campo de batalhas é favorável ao adversário.

Salvando a humanidade se salva a economia. O inverso não é verdadeiro. Priorizar a economia tem um custo de milhares e milhares de vida. Consequência que no decorrer do processo vai diminuir a própria capacidade de recuperação econômica. Perder vidas, quando podia evitar, não é unicamente um crime de lesa-humanidade, mas também um dano à própria economia que pretendem salvar a todo custo.

O sistema capitalista não tem humanidade, é desprovido de solidariedade, nada o tira de seu curso de obtenção de lucro, cuja lógica é irracional, não tem rédeas para mudar a sua rota. No capitalismo, tudo, inclusive a vida, é reduzido à mercadoria, a números e percentuais de mais-valia. Índices de bem estar social e de felicidade são parâmetros marginais.

Os países centrais do capitalismo fazem permanente guerra de dominação e exploração, na qual a vida não tem valor, e, sim, o território e sua riqueza, como o petróleo.   

Como o adversário, covid-19, não tem ideologia e preferência política, atinge a todos, embora mais rápido aos vulneráveis de toda ordem, todos os países foram levados à guerra contra a pandemia. Contudo, fazem a guerra sem inverter a lógica do capital, da sua ganância, em quaisquer circunstâncias, em busca do lucro e sua maximização.

Enquanto o inimigo utiliza todos os tipos de guerra – guerrilha, movimento e posição, a estratégia de defesa tem se fragmentado. Em alguns estados, como o Amazonas, há uma típica guerra de posição; no Rio, SP, RGS, Paraná, MG, podemos caracterizar como de movimento, e em outros, como o ES, de guerrilha, ataca, recua, finge que está imobilizado e volta a fustigar, e assim vai ganhando as batalhas no Brasil.

Além da camuflagem, o covid-19 conta com aliados preciosos: os que fingem negar a sua existência e periculosidade e os que são verdadeiros quintas-colunas nas forças de defesa da vida e sabotam as trincheiras preventivas, com opiniões e exemplos de que as armaduras – máscara, álcool gel, vacina – não são necessárias e fomentam a saída das trincheiras para as aglomerações, expondo a todos ao mortífero vírus.

Fazem isso no habitat político e são seguidos no habitat social.   

Compreendendo que, não obstante não ser uma guerra clássica entre povos ou países, é uma guerra na qual a vida está em jogo: ou contemos o inimigo ou ele vai arrasando territórios viventes.

Os laboratórios que produzem as vacinas, as fábricas que produzem as seringas, as máscaras eficazes e o álcool gel, deveriam formar um consórcio e facilitar a aquisição dessas armas defensivas por todos os países, a preços razoáveis e não como vem ocorrendo. Os que ficassem de fora desse consócio deveriam ser tributados e a quebra de patentes ser uma alternativa quando necessário e possível.

A pandemia emparedou o sistema, entretanto, até o presente nenhuma reforma foi proposta. Parece que os detentores do poder apenas esperam o tempo passar para tudo continuar como dantes no quartel de Abrantes.

Sempre que houve guerra foi necessário um imposto para fazer frente às despesas não previstas, o chamando imposto de guerra.

Um tributo para ser viável tem que ser sobre os recursos de acumulação, para não fazer falta à economia. Devem recair sobre os patrimônios líquidos dos que detêm a maior parte da renda.

O capital financeiro especulativo não gera nem produção e nem consumo, é sobre ele que o imposto de guerra ou de calamidade sanitária deve recair. É o único bem móvel que pode ser tributado sem afetar a economia e sem aprofundar a injustiça da crise social, econômica e sanitária.

A vida ou a bolsa, é o dilema. Ou retira de quem tem muito e vive de rentismo ou continua a sufocar a economia e matar pessoas.

Mas o tribunal da história julgará Bolsonaro como criminoso de guerra.

Francisco Celso Calmon, da coordenação do canal pororoca, ex-coordenador nacional da Rede Brasil – Memória, Verdade e Justiça – RBMVJ

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