Jornada de Junho de 2013 foi resultado de um Processo Histórico e preparou as ruas para o Golpe, por Alexandre Tambelli

Jornada de Junho de 2013 foi resultado de um Processo Histórico e preparou as ruas para o Golpe

por Alexandre Tambelli

Lendo o texto do Fernando Horta: 2013: as selfies revolucionárias horizontais e apolíticas, https://jornalggn.com.br/…/2013-as-selfies-revolucionarias-h… me veio a ideia de contextualizar as Jornadas de Junho.

Coloco aqui minha visão do que aconteceu lá e levou até 2016 e o Impeachment. 

Para analisar as Jornadas de Junho de 2013 é preciso entendê-la acima de tudo como o resultado de um Processo Histórico, envolvendo dois elementos centrais:

1) O Governo de centro-esquerda do PT;

2) Os meios hegemônicos e oligopólicos de comunicação no Brasil capitaneados pela Rede Globo & velha mídia.

Além destes dois elementos é preciso diferenciar dois tipos básicos de juventude nas ruas:

1) A juventude da primeira semana das Jornadas e com ideário de esquerda, lideradas pelo MPL e a reivindicação de não aumento das tarifas de ônibus e metrô na capital paulista (MPL que é fundado 8 anos antes em 2005 e já tinha liderado outras manifestações contrárias ao aumento de tarifas de transporte coletivo);

2) A juventude midiática e meritocrática incorporada na segunda semana das Jornadas, após a mudança de direção do entendimento do que seria possível ganhar, pelo Sistema, capitaneado pela Rede Globo, em favor da Oposição Política e da possibilidade de queda na popularidade e quem sabe da derrubada do Governo Dilma e retirada do PT (centro-esquerda) do Poder com as Jornadas de Junho de 2013. Esta juventude nova era da classe média e médio-alta tradicionais***, levada às ruas pela velha mídia em um processo distinto do que pôde criar o MPL e àqueles jovens outros nas ruas. (Os dois posicionamentos do Jabor, o antes, chamando os jovens de arruaceiros e baderneiros e o depois, de alguns dias depois, chamando os jovens de idealistas deu o tom da descoberta que ali se poderia ter um primeiro ganho eleitoral para os derrotados em 3 eleições seguidas para o PT).

Fique claro.

A Juventude do MPL não apareceu do nada (o ajuntamento de dezenas de milhares de jovens), a Ideologia do sem partido e da horizontalidade, também, não.

Torna-se preciso dizer que o MPL e a juventude nas ruas são um resultado histórico de quase 10 anos de petismo, de Governos Lula e Dilma. Bem sabemos que a direita e a extrema-direita e sua defesa de um modelo de sociedade neoliberal no Brasil não estava tendo eco na sociedade, não tem em qualquer sociedade senão via oligopólios midiáticos e Justiça seletiva. Os motes da direita e extrema-direita neoliberal fora do Poder Central são basicamente dois:

1) Ameaça comunista, do bolivarianismo, vão instalar uma ditadura nos moldes da cubana no Brasil, essas coisas (imaginemos com o advento das redes sociais e da internet o quanto foi possível introjetar no imaginário coletivo essas ideias);

2) O intensivo discurso da corrupção, mesmo que seletiva, na Globo, Veja, Folha, Estadão, etc. Ela, a corrupção, com o advento da Internet retirou a seletividade midiática de sua comodidade, e ocorria, em muitos casos, da Internet ser tão disseminadora das denúncias de corrupção do PSDB, PMDB, DEM, etc. que a mídia vinha a roldão, mesmo que num espaço de alguns dias. Poucos se salvaram da temática da corrupção.

A centralidade do tema corrupção se desenhava como uma arma do Sistema para o combate ao PT, Governo que estava tendo sucesso econômico e social perante o eleitorado brasileiro e vitorioso fora em três eleições seguidas e com alta-popularidade.

É a forma encontrada e clássica da direita e extrema-direita contraporem governos de centro-esquerda em plena ação. Tudo sem contraponto, afinal, só havia uma Ideologia nos meios de comunicação: a Ideologia Neoliberal, o tal de Mercado.

Neste processo histórico de 9 anos e meio de PT no Governo central assistimos ao desabrochar de uma realidade, onde a juventude brasileira foi sendo levada a desacreditar na Política, nos políticos e partidos políticos. E, por qual motivo: a massificação diária de associar a Política, os políticos e os partidos políticos à corrupção. Tudo o que não acontecia na vida da juventude era culpa do Estado corrupto e ineficiente.

Formou-se, então, uma Juventude de esquerda apartidária, não necessariamente apolítica, afinal, gritar: – sem partido, já é uma manifestação Político-Ideológica. Apenas creem que a Política existente não seria capaz de dar a ela o que almeja. Seja financeiramente, seja no campo dos direitos civis, seja na periferia, seja no centro, seja na universidade, seja no trabalho, etc.

A pauta do não aumento da passagem de ônibus e da possibilidade de estatização do transporte coletivo e do passe-livre não é pauta de direita, é de esquerda e com mais adeptos na extrema-esquerda.

Quando veio 2013 este processo histórico de associação da Política à corrupção já tinha quase 10 anos de pleno funcionamento. A juventude inserida na semana inicial das Jornadas de Junho incorporou cultural e socialmente esta narrativa midiática e podemos dizer que ela, como bem disse o LULA, ainda em 2013, a Juventude das ruas não tinha modelos referência de Governos, a não ser o petista.

Imaginemos que um jovem comece a adquirir consciência social e política com 15 anos de idade e nas ruas estavam jovens entre 18 e 25 anos, eles foram apresentados aos Governos FHC, Collor? Não! A referência única é o próprio Governo petista. Então, eles só podiam comparar o Governo do PT com a realidade vivenciada nos governos petistas.

Havia em 2013 uma proposição que era a seguinte:

Os jovens inseridos na sociedade via consumo exigiam mais do que esta realidade de serem “cidadãos” por terem o direito de consumir coisas.

O Jovem que era abordado pela polícia, tarde da noite, chegando da Faculdade; as universidades paulistas sem verbas para um trabalho de campo dos alunos e a ausência de uma Democracia interna; os preconceitos contra o LGBT; as campanhas moralistas do José Serra (Presidente e Prefeito); os trabalhadores explorados de telemarketing, etc. O jovem queria se libertar de um Estado opressor, estava com uma mente mais aberta, solidária e libertária.

Quem lembra que em outubro de 2012 houve um evento de jovens, podemos chamar de jovens libertários na cidade de São Paulo: Existe Amor em São Paulo na Praça Roosevelt. Muitos destes jovens estarão associados às Jornadas de Junho de 2013. Esse movimento era apartidário, buscava uma cidade mais solidária, mais tolerante e se dizia livre de preconceitos.

A juventude de esquerda das Jornadas de Junho surge deste caldo cultural libertário e da massificação do discurso midiático de criminalização da Política e de um Estado que estava a serviço do Capital, acima de tudo. Ela é espontânea e não se ajuntou nem chegou às ruas, somente, porque foram “patrocinadas” por alguém.

Separemos a Juventude de esquerda da Juventude de classe média e médio-alta tradicionais de formação conservadora, esta, sim! Chegou às ruas porque a Rede Globo & velha mídia a cooptou.

Chegou às ruas sem nenhuma reivindicação real, sem nenhuma organização prévia, de forma anárquica como foram os dois grandes atos na Avenida Paulista pró-Impeachment.

O ato de estar nas ruas não era um ato de reivindicar, mas a chance de colaborar para a retirada do PT do Governo Federal. É como se esta Juventude de direita e extrema-direita fosse para as ruas extravasar as derrotas eleitorais seguidas (alimentada pelos pais, familiares e meio-social em que vive), e crer na possibilidade de derrubada de um Governo, que ela não pertencia (Ideologia do meio social em que vive), Governo de outras classes sociais menos abastadas.

Se observarmos a Juventude da classe média e médio-alta tradicionais, ela sequer sabia o motivo de a Globo ser contrária a PEC 37 e ela era capaz até, de levantar o cartaz: – Não a PEC 37. – Se a Globo diz que é contra sou contra. (Classe social que compreende o mundo via noticiário da velha mídia, bem sabemos).

Lembremo-nos do vídeo que circulou na net em 2013, vídeo que um repórter perguntou a dois jovens o que era a PEC 37, e que eles responderam ser contrários sem saber do que se tratava a tal da PEC.

Esta foi às ruas por um processo outro, ligado a uma realidade social nova, onde, os espaços ocupados por esta Juventude, deixaram de ser espaços exclusivos e adentrou nele o Jovem da Classe C, o brasileiro antes excluído da sociedade pela existência até 2003 de um modelo de sociedade de castas com apenas 30% de incluídos e que faziam as classes média e médio-alta tradicionais, podemos assim dizer, um papel de ponte entre o Capital e o trabalhador, parcela necessária para a existência e permanência do Sistema de castas brasileiro.

A busca de manutenção da “distinção”, o medo de invasão dos espaços sociais antes exclusivos e, principalmente, a concorrência no mercado de trabalho, com o fim do QI (Quem indica), a produziu e a levou às ruas, não era por reivindicações coletivas e sim, individuais e classistas.

2013 preparou o terreno para o Golpe. As classes média e médio-alta tradicionais foram apresentadas e se acostumaram com as ruas nas “Jornadas de Junho”.

2012 e o “Mensalão”, 2013 e as “Jornadas de Junho”, 2014 e o Não Vai Ter Copa e a Lava-Jato, 2015 e 2016 e o Impeachment nas ruas nos mostram essa Juventude e a sua classe social em efervescência, eram momentos de tentativa de vitória fabricada, de alimentação de um retorno ou de um contexto benéfico a si próprio, diante da realidade do PT 3 vezes vencedor no pleito eleitoral Federal e a caminho da 4 vitória, que se consumou.

Estar nas ruas, comemorar cada injustiça cometida contra os petistas é parte do Processo de retirada do PT do Poder, que se materializou em abril de 2016.

Se me perguntarem do silêncio de hoje dessa juventude de direita e extrema-direita eu responderia que o Governo Temer, ao reintroduzir a Ideologia da meritocracia, sossegou essa gente toda, porque ele Governa sem as ideias de cotas raciais e sociais e de programas sociais inclusivos.

Fiquemos atentos.

Já se pode notar uma paralisação da ascensão e ocupação dos espaços exclusivos das classes média e médio-altas tradicionais pelas classes C e D, ascendidas nos Governos Lula e Dilma. Mesmo com a neutralização de ações mais gloriosas da classe média tradicional, como viajar para os Estados Unidos todas as férias e comprar SUV´S anualmente, temos o principal, não se misturar é mais importante do que ações mais gloriosas, garante a “distinção” e exclusividade de certas baladas e outros espaços culturais.

Então se justifica o silêncio, apesar de quererem o Fora Temer, aqui já adentrando na realidade, que Temer está “ferrando” com todo mundo no ano de 2017, ameaçando certas comodidades sociais, como é, a escola particular e plano de saúde top.

Para terminar, pergunta é:

E a Juventude de esquerda do Existe Amor em São Paulo, do MPL e dos secundaristas por onde anda?  Esta é uma realidade a ser estudada com mais atenção. Estão descentralizadas? Estão nas periferias? Como estão, se estão, se articulando para o pós-Temer?

E os partidos de esquerda (a Política institucional), o que fizeram para tentar capitalizar para si essa Juventude, para irem além da horizontalidade em prol das mudanças seguras pela Juventude de esquerda nas ruas almejada?

P.S.: Separemos a população de direita e de extrema-direita nas ruas em dois grupos distintos. O grupo das ruas se tornou de extrema-direita. O que batia panelas é resultado do que viu nas ruas; quando viram MBL, Vem Pra Rua, Integralistas, bolsonaristas, apologia à volta da Ditadura Militar, etc. saíram das ruas, não eram identitários com estes grupos radicais da extrema direita e foram bater panelas para serem notados.

2015 e a manifestação do Impeachment teve mais gente que em 2016. Quem passou a bater panela depois que foi na primeira manifestação em 2015, talvez, não tenha voltado em 2016, outros incautos substituíram essas pessoas. Todas, apesar desta constatação, comemoraram o Impeachment.

*** Não quer dizer que toda Juventude de classe média e médio-alta tradicional é de direita, ela é heterogênea, porém com predominância da direita e uma Ideologia mais meritocrática e menos a favor da intervenção e regulação da economia e sociedade por parte do Estado. Também, não quer dizer que a juventude do MPL que foi às ruas não possa estar situada nessas classes sociais, parte significativa está.

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