Lalo Leal Filho: PM ataca manifestantes pró-democracia mas para alguns jornais é ‘confronto’

Qual a diferença entre "confronto" e "ataque", por parte da polícia, e por que é tão difícil os jornais chamarem as coisas pelo seu nome?

do Barão de Itararé

Lalo Leal Filho: PM ataca manifestantes pró-democracia mas para alguns jornais é ‘confronto’

Como a mídia repercutiu a manifestação pró-democracia e contra o fascismo protagonizada por torcedores no final de semana? Qual a diferença entre “confronto” e “ataque”, por parte da polícia, e por que é tão difícil os jornais chamarem as coisas pelo seu nome? O jornalista e professor Laurindo Leal Filho, o Lalo, ajuda a responder as inquietantes questões no #DeOlhoNaMidia deste dia 2 de junho.

 

PM ataca manifestantes pró-democracia mas para alguns jornais é confronto

Laurindo Lalo Leal Filho

Olá

Tivemos um domingo quente em São Paulo, apesar da baixa temperatura.

Finalmente um grupo anti-fascista, liderado por integrantes da torcida corintiana resolveu sair às ruas.

Junto com palmeirenses, são-paulinos, santistas e até torcedores da Lusa e do glorioso Juventus da Mooca.

Eles fizeram a Avenida Paulista voltar a respirar um ar mais puro, democrático.

Só uma situação desesperadora – insuportável – como a que vivemos, faria muitas dessas pessoas sair de casa em plena pandemia.

Conheço pessoalmente algumas delas e tenho certeza disso.

Como aquelas que no Rio, também não resistiram ao silêncio, e saíram de casa para enfrentar a fúria fascista.

Foram recebidos com a violência habitual das polícias militares dos dois Estados.

Protetoras das carreatas da morte, em vários fins de semana seguidos, as PMs agora resolveram atacar.

Como de hábito contra quem defende a democracia.

Sem motivo algum, já que os atos eram absolutamente pacíficos, atacaram os manifestantes com a ferocidade costumeira.

Sem, ao mesmo tempo, no caso de São Paulo, deixar de proteger um grupelho fascista, postado em outro trecho da avenida Paulista.

Uma mulher, desse pequeno grupo, portando um taco de beisebol como arma, foi gentilmente acompanhada por um PM que, num gesto carinhoso, colocava o braço sobre seu ombro.

Cena comovente.

Isso não é novidade.

Participei de inúmeros atos contra o golpe de 2016, contra o governo ilegítimo do Temer, contra os fascistas e eles sempre terminam da mesma forma.

Transcorrem sem violência, pacificamente.

Mas ao final são vandalizados por essas forças militares que nem deveriam existir.

Policiamento se faz com polícia e não com tropas treinadas para matar, como é o caso das PMs.

Hoje,  elas são uma das maiores ameaças para a sobrevivência do que resta de democracia no país.

Lembro do saudoso professor Reginaldo Moraes, da Unicamp, que há vários anos vinha alertando para esse perigo.

Agora cada vez mais evidente.

Em São Paulo está claro que o governador não controla a PM.

Essa parece ter sido a razão para que ele não decretasse o fechamento da cidade, o tal de lock-down.

Indícios mostravam que o governador não poderia contar com a PM para por o plano em prática.

Para completar, a mídia dá também sua importante contribuição à naturalização da violência policial, com viés político.

Chama, com todo o destaque possível de confronto, o que foi claramente uma agressão.

Essa palavrinha – confronto – torna equivalentes atitudes e forças totalmente desiguais.

O exemplo de domingo é gritante.

Um grupo de integrantes de torcidas organizadas caminham pela Paulista, sem armas, apenas com palavras de ordem.

Quando já estão se dispersando, dois provocadores tentam provocar um tumulto.

Seriam facilmente contidos, se fosse esse o interesse dos policiais.

Mas não.

A tropa de choque aproveita-se da situação e passa a bombardear os manifestantes.

Isso é confronto?

É para o jornal O Globo que deu em manchete “Grupos dividem as ruas, e atos terminam em confronto”.

Ou para a Folha de São Paulo que diz “Ato de torcedores em favor da democracia termina em confronto”.

Imaginem o desespero desses jornais se na língua portuguesa não houvesse a palavra confronto.

Bem.

Mas, para finalizar, há uma boa notícia sobre a mídia.

É a manchete do Correio Braziliense de segunda-feira: “PMs do Rio e de São Paulo atacam manifestantes a favor da democracia”.

Perfeita.

Como se vê ainda resta alguma esperança.

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