Luis Perequê e as delícias do santo, por Matê da Luz

Luis Perequê e as delícias do santo

por Matê da Luz

Uma das coisas mais maravilhosas que aconteceram no meu ano foi o encontro com o santo, mais especificamente com os Orixás. Ali de dentro da casa de candomblé aprendi a observar o mundo com diferentes prismas: hora como abyan, a novata que nada sabe sobre os afazeres e obrigações dentro da família, hora como uma mulher que beira os 40, cheia de vícios, manias e hábitos, alguns deles grudados que nem chiclete na cabeça e no modus operandi da vida. Estar ali cercada de gente diferente, com funções diferentes, com obrigações e cargos diferentes, com orixas e características diferentes me maravilhou de verdade, mas sabe o que foi mais incrível? A constatação banal – e fundamental – de que os grupos possuem formações similares em todo e qualquer contexto.

Não é por estarmos dentro do sagrado que a fofoca deixa de existir, que a vaidade some e que a evolução é a única mira. A competição, ainda que velada, pelo orixá mais poderoso, pela roupa mais bem engomada, pela atenção do babalorixá – ah, esse é o prêmio máximo, eita! – existe e forma grupos e exclui e movimenta aquela pequena sociedade tanto quanto as mãos sagradas quinam as folhas, os atabaques evocam as magias e os orôs são poderosos e fortes rituais, independente de qualquer coisa, desde que seguidas as determinações de axé. 

Quer dizer, uma coisa não exclui a outra. 

Desde a semana passada venho recebendo algumas pancadas por aqui, muitas delas provenientes de uma ou duas pessoas que, achando que me conhecem por conta das minhas postagens por aqui, consideram que sou rasa, preconceituosa, posto conteúdo sem valor e irrelevante. Ora, pois. Uma mulher de quase 40 anos que frequenta um ilê de candomblé sabe, eu sei, que não existe unanimidade; que há o erro, que há o julgamento, que há o desopilar de seus problemas em linhas protegidas pelo invisível; que há a vontade de violentar quando nos sentimos violentados e que, acima de tudo isso, há a possibilidade de desconexão com o que se torna irrelevante nos processos e que, como um verdadeiro milagre, abre espaço para que o que importa receba a atenção devida. 

Aqui, no Jornal GGN, existe espaço para a política, para as culturas diversas, para as crônicas. Para diálogos e desenvolvimentos, por que não? Relevante pra uns, irrelevate pra outros – tanto faz, sem condicionamentos prévios. A escolha sobre o conteúdo onde iremos despejar nossos caracteres é, de fato, individual. Que assim seja. 

Daí vem o Luis Perequê e lembra do ebó, esta poderosa ação de limpeza, musicada deliciosamente por ele, há de ser despachado e baixado na mata, tudo para que as energias sigam limpas e renovadas pro que chega. O que chega, por aqui, é um ano novo pautado por muita macumba, feminismo, contos irrelevantes que dialogam com o íntimo de uns e outros e registros de barulhos externos que contribuiem para a solução do que me atribula internamente, conectada com o propósito de compartilhar o que me é relevante, respondendo àqueles que me fazem sentidos e me fazem sentir, deixando pro santo cuidar daqueles que só trazem tormenta e vampirizam as energias dos arredores. 

Conheci o Luis na cidade onde moro e com ele troquei muitas figurinhas sobre a quantidade de gente que torce contra. Luis, um homem maduro e musical, casado com a Wanda, que é uma das pessoas mais meigas, fortes e tranquilas, se resumiu a dizer: “ninguém é unânime e ai de quem gasta energias em tentá-lo ser. Foque naquilo que te energiza e segue, simples assim.”

Ah, Luis! Marafo procê! 

Pra quem quer fazer seu auto-ebó de final de ano, um banho com manjericão e alecrim dá conta de limpar as energias acumuladas e deixar o espírito em paz. Para fazer, você usa alguns ramos de cada erva, esfrega em um pouco de água filtrada e, depois deixa descansando um pouquinho, mistura com a água quente do chuveiro e despeja no corpo todo, da cabeça pra baixo. Vai que vai, vai com tudo, vai como quiser! 

Axé! 

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