Merecimento, por Wilson Ramos Filho

A indecência no agradecimento e a distinção no comparecimento à despedida não causou vergonha alheia na chamada área jurídica. Já não choca. Foi normalizada.

Merecimento

por Wilson Ramos Filho

Não há registros da ida de um presidente da república a uma despedida da presidência do stf. Deve ter sido a primeira vez. Uma evidência da gratidão de Bolsonaro em relação a Toffoli.

Em um discurso sincero, tocante, o generoso mandatário agradeceu os préstimos do ministro presidente da mais alta corte do judiciário brasileiro que, inclusive, teria se « antecipado » na preservação dos interesses do ocupante do executivo. Coisas lindas: tanta sinceridade e a proatividade diligente e deferente.

Certamente se aos presidentes da Febraban e da CNI fosse facultada a palavra haveria novos agradecimentos, talvez não tão explícitos, por pudor em escancarar tamanha presteza. Os empresários tendem a ser mais espertos que o capitão do exército reformado, sabem manter as aparências de pseudoneutralidade de classe do judiciário.

Uma sinceridade como esta nos EUA ou na Europa seria um escândalo. Um juiz da suprema corte receber tamanhos afagos do chefe do executivo seria inadmissível. Seus pares, envergonhados, exigiriam a cabeça daquele que se fez servil, a imprensa seria implacável, as oposições reagiriam indignadas, os advogados surtariam. Mas estamos no Brasil, terra de nosso senhor.

Com a demonstração do reconhecimento pelos serviços prestados, escancarou-se a miséria moral e a mediocridade do mandato que ora finda. A corte fez por merecer, sejamos sinceros também nós.

A indecência no agradecimento e a distinção no comparecimento à despedida não causou vergonha alheia na chamada área jurídica. Já não choca. Foi normalizada.

Mesmo aos mais críticos daquilo em que se tornou o poder judiciário a sinceridade presidencial não causou espanto. É tudo normal. Inclusive a sabujice. Os terraplanistas jurídicos (que assumem, elogiando, que o direito diz o que o juiz diz que o direito diz) e os adeptos do damarismo jurídico (daqueles que viram a Constituição na goiabeira) não se incomodaram com a revelação do íntimo compadrio. Tudo é normal.

O gentil presidente da república, praticamente uma moça de fino trato, equiparou os privilegiados: ele, seus 23 ministros de estado, os 11 do stf, e uma parte importante do parlamento que o apoia. Haja sinceridade. Nem o Jucá foi tão explícito. No mesmo dia o neoliberal Guedes, o ministro da economia que corta salários, defendeu o aumento para os magistrados. Temos que ser mais meritocráticos, argumentou. Todos juntos vamos, na mesma emoção, pra frente Brasil, na mesma corrente, sem nos chocarmos, sem nos indignarmos, sem nos horrorizarmos.

Tudo é normal na realidade bolsonara onde vergonha na cara virou excentricidade, esquisitice e inoportunidade.

Wilson Ramos Filho (Xixo), doutor em direito, professor na UFPR, presidente do Instituto Defesa da Classe Trabalhadora (Declatra).

 

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2 comentários

  1. É…. Lula e Dilma colocaram grandes figuras no STF. Tofolis, Fux, Barrosos, Fachins, et caterva. Como é que o PT conseguiu fazer isso? E o Idiamin Dadá dos juristas? Aquele que agora descansa o merecido prêmio em Miami? O PT cavou sua própria cova. Não deu a devida importância às pessoas que colocou em cargos tão importantes. O preço a pagar foi alto. Toffoli, que tanto afagou o Bozo recebeu dele um carinho hoje. Agora o Fax assume o STF. Será um pilar de sustentação da famiglia e do damarismo jurídico. Ah, PT! Quanta burrice! Pague o preço, PT!

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