Não é não, por Matê da Luz

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Por Matê da Luz

Me sinto uma babaca escrevendo esse texto em pleno 2017. Mas por razões agora mais próximas, fica cada vez mais necessário pontuar princípios que se declaram feministas mas que, ao meu ver, seriam noções básicas de civilidade e respeito – só que não são.

O carnaval passou e deixou em mim algumas marcas. Pessoalmente, não me envolvo com a data, seja por não ter afeição às multidões ou por razões extremamente íntimas. Há tempos não caía no alalaô e, por estar num processo de mudanças profundas, decidi re-experimentar.

Vestida de índio, animada, lá fui eu pro bloco. Samba daqui, dança dali, me senti alegre, feliz, nem tchum pra multidão. Um dia só foi suficiente e, de toda forma, achava que tinha feito as pazes com a festividade. Viva! Quem sabe no próximo ano estaria mais disposta?

Eis que em pleno sábado de carnaval, recebo uma ligação da minha filha que, calma e já tranquila, me contava que fora agredida por um rapaz a quem recusou um beijo. Jura? A essa altura do campeonato? Estava bem? Dolorida? Machucada? E a alma, como reagia? “Estou bem, não fiquei roxa, assustada mas corri na enfermaria, tá tudo OK e amanhã vou em outro bloco”. Ao contrário de mim, ela adora a folia e, me pareceu, estava um tanto quanto engajada em não deixar que uma atitude ímpar sufocasse seu amor pelo carnaval.

Admirada e também assustada, consenti. Não desejo, como mãe, imputar meus medos e traumas nela mas, confesso, dormir aquela noite foi das tarefas mais difíceis. Não era feminista ativa, sequer havia participado de manifestações em prol do feminismo ou mantinha discurso aberto e direto sobre o tema mas, dali pra frente, após o contato próximo com as injustiças que o patriarcado impõe – um cara quer beijar, eu não quero, tomo um soco, que matemática escrota! – decidi me engajar definitivamente e seguir na frente de batalha, mais ativa, mais próxima destas questões que não acontecem só comigo e nem só no meu entorno e, humildemente me posicionando, soam piores do que um fato isolado como o que aconteceu com minha filha. É bastante dolorido quando nossa cria apanha na rua e a gente tem que agradecer por ter sido “só isso”.

Então, numa movimentação que começa egoísta mas que desperta em mim a vontade de um mundo melhor, mais justo e livre, me confesso feminista de carteirinha e vou batalhar onde for possível pra que se faça valer o direito mínimo do cidadão, pois é disso que se trata essa coisa toda: o feminismo não defende as mulheres. O feminismo defende a igualdade, a sensibilidade, a individualidade necessária para haver um plural mais digno. E disso eu não abro mão. Por mim, por ela e por elas – quando dizemos não, queremos o não. Mas quando nos envolvemos, ah, é só sentar e aguardar pra ver o que acontece. 

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