O carnaval da macumba na avenida do samba, por Matê da Luz

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Por Matê da Luz

Se ainda há profusão de bloquinhos nas ruas, ainda é tempo de escrever sobre o carnaval 2017. 

A essa altura vocês já devem ter percebido meu apreço pelas macumbas, todas elas. Daí assistir pela TV o movimento das escolas de samba tanto de São Paulo quanto do Rio de Janeiro em torno dos Orixás, das mandingas e do incrível mundo invisível, ai, isso tudo foi muito maravilhoso pra mim. Por inúmeras razões, mas especialmente porque acredito que o encantamento, quando bem utilizado, pode ser uma forma linda de dissipar informação e, quando as pessoas conhecem as práticas das outras, fica mais difícil de criticar ou agredir. Sim, é assim que eu penso, é assim que eu faço. 

De todas as escolas, a que mais me comoveu foi a União da Ilha, que enalteceu os N’kisis, como são conhecidos os orixás na Nação Angola, uma das mais tradicionais do candomblé. Vi, revi e ainda verei muitas vezes a apresentação, que começa assim.  O orixá Tempo é um dos meus favoritos por andar junto, bem juntinho, da minha mãe Iansã e, também por essa ligação gostosa com ele, o desenvolvimento do enredo da escola me tocou.

A letra do samba tem força e sensibilidade, além de alegria contagiante pra quase que literalmente explicar o quem é quem no xirê do candomblé angolano, este que cultiva as raízes mais naturais das práticas com orixás. Eita coisa mais linda! 

Dos bantos Nzambi, o criador
Giram ampulhetas da magia
Salve, rei Kitembo
Nzara Ndembu em poesia
Pra dar sentido à vida, transformar
Numa odisseia rasga o céu, alcança a terra
Sagrada é a raiz Nzumbarandá
Katendê, segredos preserva
Avermelhou, Kiamboté nos fez caminhar
Na luta entre o bem e o mal, forjou Kiuá
Senhores sagrados irão celebrar
Kukuana é fartura, natureza a festejar

Ndandalunda a me banhar (me banhar)
Seiva que brota do chão
Em rituais de purificação
E no balanço da maré (da maré)
Samba Kalunga nos traz
Rara beleza e peixes abissais

A chama ardente é fogo
O fogo que queima é paixão
É Nzazi fazendo justiça
Na força de um trovão
Que dita as leis do universo
E nos ensina a lição
Quando o sol beijou a lua
Viu no céu inspiração
Matamba soprou
O vento levou pra Angola reinar
Plantou o amor
A árvore da vida é a vida que dá

Êh, é no girê, é no girê
Macurá dilê no girá
É tempo de fé, União
O tambor da Ilha a ecoar

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