O fracasso do Programa Nacional de Banda Larga, por Marina Cardoso

O fracasso do Programa Nacional de Banda Larga

Por Marina Cardoso (Intervozes)

Na CartaCapital

Foi-se o final de ano, o novo-velho governo tomou posse, nomeou ministros e mostrou a que veio. Pois bem. Agora, nesse começo de janeiro, antes de seguirmos em frente, é recomendável parar um minuto para refletir sobre os resultados do Programa Nacional de Banda larga (PNBL), instituído em 2010 pelo Decreto 7.175, cujas metas deveriam ter sido alcançadas até o findado 2014. Para isso, contamos com a ajuda do relatório de avaliação do PNBL feito pela Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática do Senado Federal. O estudo foi concluído em dezembro e – esperamos que por conta do período de publicação – ganhou pouco espaço na mídia. É, no entanto, bastante elucidativo sobre o retumbante fracasso do Plano. Vale lê-lo atentamente.

Para começar: a meta de domicílios conectados estabelecida para 2014 está muito longe da alcançada. A expectativa era fechar o ano passado com 35 milhões de domicílios com acesso à internet fixa. Porém, em agosto, os acessos à banda larga fixa chegavam a apenas 23,5 milhões de locais, segundo dados do próprio Ministério das Comunicações (Minicom), incluindo aí instalações em estabelecimentos comerciais. Ou seja, há um abismo de mais de 10 milhões de acessos entre a realidade e a meta prevista.

A Consultoria Legislativa (Conleg) do Senado calculou que exista no Brasil um hiato digital em aproximadamente 38,4 milhões de famílias, uma cifra que corresponde a mais de dois terços do total da população. Um dado vergonhoso, especialmente quando se tem em conta que o Brasil é a sétima maior economia do mundo, de acordo com o Banco Mundial.

O pacote de banda larga popular, criado por meio da assinatura de termos de compromisso entre as operadoras e o Minicom, também apresenta resultados pífios. Os últimos dados disponíveis apontam para 2,6 milhões de assinaturas, menos de 1% do total de acessos à internet fixa, sendo metade delas concentrada no estado de São Paulo. É bom lembrar aqui que os dados da banda larga popular do PNBL divulgados pelo Minicom são imprecisos quanto a sua data de coleta (e não mudam há algum tempo), e não incluem informações por região, ou dados de desconexão. Ou seja, também faltam informação e transparência para um melhor balanço da política.

O governo poderia se gabar de poucos aspectos do PNBL, entre eles a cobertura da oferta do plano popular, que, segundo juram as concessionárias, alcançou 4.912 cidades. O difícil é o cidadão conseguir contratar o tal pacote que estaria disponível em quase todos os municípios do País. Diversas reportagens denunciam que empresas escondem tal oferta em suas páginas da internet e que há dificuldade de contratação do plano por meio dos serviços de atendimento telefônico das operadoras – isso sem falar do total desconhecimento da população sobre a existência do plano popular.

O ministério e a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) fazem vistas grossas. Assim, as operadoras dizem que oferecem o serviço popular, o governo finge que acredita e o nível de conexão no país segue crítico. Pesquisa realizada pelo DataSenado, entre 29 de outubro e 12 de novembro de 2014, mostrou que dois terços dos entrevistados NUNCA havia ouvido falar do PNBL.

Falando de alguma coisa boa, o PNBL teve um importante mérito: o de reativar a Telebras. Infelizmente, porém, a meta traçada era a de disponibilização da Rede Nacional de Internet, gerenciada pela Telebras, em 4.278 municípios até 2015. Só que até agora a estatal amarga míseros 612 municípios conectados, sendo apenas 360 por oferta direta.

De acordo com o relatório do Senado, “a principal razão para o desempenho abaixo do previsto pode ser imputada ao investimento insuficiente nos projetos executados pela Telebras”. O Plano Plurianual de 2012 a 2015 prevê investimentos da ordem de 2,9 bilhões de reais para o PNBL no período de 2012 a 2013. Já as leis orçamentárias anuais nos mesmos anos garantiu apenas 314,7 milhões de reais para o investimento. Com o contingenciamento de recursos, o valor se reduzia ainda mais, para 267,9 milhões de reais. Por fim, a execução orçamentária, de fato, foi de 214,1 milhões de reais, ou seja, 7,4% do previsto no PPA.

Diante de tantos fracassos, há que se perguntar o que aconteceu. Uma possível explicação está no próprio Comitê Gestor do Programa de Inclusão Digital (CGPID), órgão composto por representante de nove ministérios, de duas secretarias e do Gabinete Pessoal do Presidente da República. Compete ao CGPID a gestão e o acompanhamento do PNBL no âmbito do Poder Executivo, cabendo-lhe fixar as ações, metas e prioridades do programa, acompanhar e avaliar suas ações de implementação e publicar anualmente relatório de acompanhamento, demonstrando os resultados obtidos. Acontece que o CGPID não se reúne desde 2010 – ano de criação do PNBL! Não houve, portanto, até agora, relatório algum de acompanhamento do plano.

Uma coisa é certa: não podemos fechar os olhos para o papel central que a internet ocupa hoje na sociedade. Por ela passam, cada vez mais, as relações econômicas, políticas e sociais. No entanto, na prática, apesar do Marco Civil dizer o contrário, o acesso à internet ainda não é considerado um serviço essencial em nosso País. Ao manter dois terços das famílias naquilo que a Consultoria do Senado classificou de hiato digital, optamos, como sociedade, a aprofundar as desigualdades contra as quais viemos lutando bravamente. Estamos enxugando gelo.

Por isso, a sociedade civil, organizada em torno da campanha Banda Larga É Direito Seu, apresentou ao Executivo e à Anatel uma proposta de política pública para garantir a universalização do acesso à internet no Brasil. Seu eixo central é a mudança do regime de operação de rede e de prestação do serviço de acesso à internet no atacado do chamado regime privado para o público. O relatório do Senado endossa essa proposta: “recomenda-se a prestação do serviço de acesso à internet em regime público, a fim de promover a sua universalização”.

Neste início de 2015, a campanha Banda Larga É Um Direito Seu, da qual o Intervozes é membro, inicia a tentativa de abertura de diálogo com o novo governo e demais atores envolvidos, para caminharmos com um plano que seja efetivo. Porque não estamos apenas apontando o dedo. Estamos dispostos a construir os caminhos. Durante a campanha eleitoral, a presidenta Dilma Rousseff se comprometeu a universalizar o acesso à internet no Brasil até o final desta gestão. Esperamos que o fracasso do PNBL sirva, ao menos, para se construir um plano de universalização da banda larga de forma democrática, ouvindo não apenas as empresas, mas a maior interessada: a sociedade.

* Marina Cardoso é jornalista e integrante do Intervozes

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15 comentários

  1. A capacidade de sabotagem da maioria

    dos ministros de Dilma 1 foi altíssima. O caso em questão, obra acabada do P. Bernardo, é emblemático.

    O fato de vermos no Dilma 2 alguns dos sabotadores da era Dilma 1, caso do E. Cardozo, me deixa terrivelmente desanimado.

    Que queda entre os ministérios Lula 1 e 2 ( e olha que tinham os Palocci e Meirelles!) e Dilma 1 e 2…

  2. aí, até que enfim alguém falou com razão

    se o governo quisesse ter sucesso com a banda larga, deveria ter colocado o serviço como público. com a política de atendimento, compromisso de abrangência e controle de preço e qualidade.

    esqueci de falar que as indicações para a anatel podem melhorar e muito. não tem sido nem perto de ruim, como as do supremo. sempre tão querendo agradar a algum grupo político e não levam em consideração conhecimento técnico.

    • O QUE EU ACHO, ATHOS!

      A resposta é NÃO para a primeira pergunta. Daí a segunda já respondida está. Ou Vc acha que o Paulo Bernardes queria  (queria) pelo menos fazer?

    • Acho que tentou , acho que

      Acho que tentou , acho que queria, acho que havia boas intençoes.

      Porem é aquela, há uma escala de prioridades envolvidas e de boas intençoes o inferno esta repleto… 

    • …”a meta de domicílios

      …”a meta de domicílios conectados estabelecida para 2014 está muito longe da alcançada. A expectativa era fechar o ano passado com 35 milhões de domicílios com acesso à internet fixa. Porém, em agosto, os acessos à banda larga fixa chegavam a apenas 23,5 milhões…”

      Pergunta 01: Quanto foi o incremento até Dezembro?…

      Pergunta 02: Se você estabelece uma meta de 100% e atinge acima de 70%, não tá de bom tamanho?

      Pergunta 03: Se você atinge acima de 70% da meta de 100%, dá pra falar em “Retumbante Fracasso?”…

      Pergunta 04: Essa Política é o não é permanente?

  3. Um pais que nao conseguiu

    Um pais que nao conseguiu garantir saneamento basico para  + de 20% dos brasileiros vai querer oferecer banda larga?

    O sujeito nao tem uma privada em casa e o governo ja ta falando em conexão de ” alta velocidade”…

    cada coisa…rs

    • Leônidas…

      A instalação de um sistema de banda larga é mais barato que o de sanemento básico…

      Quanto você acha que custa interligar todas as residências à rede de esgoto… sem falar das estações de tratamento.

      Além do apelo de marketing…

      Tal como os governantes dos outros partidos, os petistas também não gastam dinheiro “enterrando” tubos… 

  4. Tudo não passou de uma grande jogada

    Perguntem ao Paulo Bernardo o que ele estava fazendo no Ministério das Comunicações?

    E o que o encaregado pela ANATEL tem a ver com tudo isso?

     

  5. POLÍTICO USADO

    Se a Dilma tivesse posto uma pessoa com pique, e não o Paulo Bernardo, político passado na casca do alho, a coisa teria andado… Nomear político velho, que perdeu eleição, dá nisso. Xô!

  6. Acesso à Banda Larga é sim fundamental

    O que muitos não entendem, é que a Internet pode ser essencial para melhorar a educação e mudar a situação de atraso da mídia no Brasil.

    Pense uma escola pública que não tem muitos recursos ou, ainda, estudantes que demoram muito para chegar a ela. Uma ideia seria distribuir tablets e disponibilizar conteúdos via Internet para eles. Isso facilitaria muito o aprendizado, além de motivar os estudantes e os professores.

    Em outra matéria aqui no Jornal GGN, foram mencionadas a Netflix e Amazon que estão revolucionando o conteúdo de entretenimento. Citei também que, nos EUA, as principais ligas esportivas de futebol americano, basquete e beisebol já possuem serviço de streaming independente na Internet. E a ESPN também estuda ser uma espécie de Netflix dos esportes. Enquanto isso, aqui no Brasil, a Globo/Sportv domina de forma arcaica quase tudo nos esportes.

    Se o PNBL tivesse sido um sucesso e grande parte do país já tivesse acesso à Banda Larga, o governo poderia começar a incentivar a produção e consumo de conteúdo cultural e educacional através da Internet. Também poderia incentivar a transmissão de competições esportivas via streaming. E esse seria o começo do fim das TVs tradicionais no país.

     

  7. Peraí!..

    …”a meta de domicílios conectados estabelecida para 2014 está muito longe da alcançada. A expectativa era fechar o ano passado com 35 milhões de domicílios com acesso à internet fixa. Porém, em agosto, os acessos à banda larga fixa chegavam a apenas 23,5 milhões…”

    Pergunta 01: Quanto foi o incremento até Dezembro?…

    Pergunta 02: Se você estabelece uma meta de 100% e atinge acima de 70%, não tá de bom tamanho?

    Pergunta 03: Se você atinge acima de 70% da meta de 100%, dá pra falar em “Retumbante Fracasso?”…

    Pergunta 04: Essa Política é o não é permanente?

  8. o que falta mesmo é

    o que falta mesmo é participação popúlar e dos movimentos sociais

    para que tudo isso aí se concretize ou avance mais.

    há mais siglas defendendo essa implantação do que gente

    apoiando, os verdadeiros interessados

    em usar esses serviços.

     

  9. Só melhora abrindo o mercado

    Só melhora abrindo o mercado para outras operadoras. AT&T, Orange… tem dezenas de gigantes mundo afora que não tem permissão para atuar no Brasil.

    Hoje refionalmente 4 (em breve 3) empresas atuam quase como um cartel, e o pior: com o apoio da agencia que deveria regulamentar e punir essas operadoras.

    O modelo está errado. Tem de abrir o mercado, trazer mais concorrencia, investimentos em tecnologias e gerar mais empregos. Imaginem 8, 10 empresas gigantes do setor “brigando” por sua fatia do mercado que é enorme, e com os consumidores tendo oportunidades de escolha. Iria acabar essa zona que é hoje.

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