O golpe militar híbrido não foi televisionado, por Wilson Ferreira

Golpes militares híbridos não são televisionados. A doutrina militar do combate ao “comunismo viral” já tomou o Estado: já possui dispositivos legais e de operações psicológicas apoiadas pelo consórcio jurídico-midiático-militar.

O golpe militar híbrido não foi televisionado

por Wilson Ferreira

Para nós a História é feita por grandes imagens icônicas televisionadas, filmadas ou fotografadas: tanques e soldados nas ruas no golpe de 1964; as torres do WTC desabando em 2001; imagens da TV do muro de Berlim sendo derrubado. As esquerdas também devem achar a mesma coisa: temem algo impactante que configure um golpe, de um cabo e soldado fechando o STF a tanques e soldados nas ruas fechando de vez o regime. Mas o golpe militar já aconteceu e a tomada do Estado não foi marcada por nenhum ato espetacular. Golpes militares híbridos não são televisionados. A doutrina militar do combate ao “comunismo viral” já tomou o Estado: já possui dispositivos legais e de operações psicológicas apoiadas pelo consórcio jurídico-midiático-militar. Enquanto põem em ação as estratégias híbridas de paralisação estratégica do inimigo através da manipulação do temor de um golpe que já aconteceu.

“Conquista corações e mentes que almas te seguirão” (autor desconhecido e lema do Copesp – Comando de Operações Especiais do Exército)

Por a acompanhar os fatos quase que exclusivamente através dos telejornais da grande mídia, passamos a nos acostumar com a ideia de que a História se move através de eventos grandiloquentes, acontecimentos dramáticos, tão impactantes que são capazes de fazer a gente perder o chão.

Queda do muro de Berlim em 1989; a imagem de tanques e jipes de guerra em frente ao Congresso Nacional na conflagração do golpe militar em 1964; o avião batendo na torre do WTC em 2001; um milhão de pessoas reivindicando Direta-Já no Vale do Anhangabaú/SP em 1984, e assim por diante.

Eventos televisionados ou imortalizados por fotos e vídeos que os tornaram icônicos. Para nós, História e iconicidade tornaram-se sinônimos: só sentimos que a História anda para frente quando os acontecimentos se tornam telegênicos ou fotogênicos.

As esquerdas parecem estar sob esse efeito hiper-real de ver a realidade a partir de imagens que foram feitas dela.

Nesse momento as esquerdas estão preocupadas com as cordas começarem a ser “esticadas”: Bolsonaro falou que a possibilidade do TSE caçar a chapa presidencial é “começar a esticar a corda”. Enquanto o Ministro da Secretaria do Governo, General Luiz Eduardo Ramos, rechaça a ideia de golpe militar, mas faz uma ressalva: “não estica a corda”.

As esquerdas temem um pesadelo da “ruptura institucional” se realizar, um “golpe”. Isso desde que Eduardo Bolsonaro falou em fechar o STF com um cabo e soldado em 2018. Têm pesadelos com um novo golpe militar, com tanques de guerra e tropas cercando Congresso e STF, Estado de Exceção, suspensão de direitos civis, enquanto soldados cercam sedes de sindicatos e partidos de oposição.

Reverberam ainda as velhas imagens de março de 1964, trauma seminal, fantasma que ainda assombra as esquerdas. Para elas, o remédio para isso é luta e resistência: o povo tomando as ruas e resistindo até o fim.

Mas quase 60 anos depois parecem não terem aprendido uma simples lição da uma sociedade do espetáculo: nenhuma revolução ou golpe militar será televisionado. Paradoxalmente, quanto mais se produz, transmite e dissemina imagens de pessoas, lugares e eventos, mais a realidade se torna opaca e menos entendemos o que está acontecendo.

A palavra “golpe” é oportuna, condensa uma série de questões que, na perspectiva de uma guerra híbrida, são meramente superficiais.

Grande mídia vem nas últimas semanas “esticando a corda” quando repercute falas de Bolsonaro sobre o artigo 142 da Constituição para justificar uma “intervenção militar constitucional”. Depois, um parecer conjunto, presidência da OAB e procuradoria constitucional do Conselho Federal tratando da inconstitucionalidade das propostas de intervenção militar constitucional e da inadequação da perspectiva que associa as Forças Armadas ao “Poder Moderador” da Constituição Federal.

O golpe militar já foi dado e ninguém viu

O Golpe não será televisionado

Nesse meio tempo, Bolsonaro diverte-se nas suas domingueiras participando de manifestações pró-regime militar.

Surgem mobilizações Pró-Democracia com torcidas organizadas de futebol e “antifas” nas ruas, para fazer frente às manifestações de extrema-direita.

Os “300 de Brasília” (que na verdade não chegam a 30), apontam rojões para o STF, sempre à noite, depois de uma marcha fúnebre com tochas e máscaras que lembravam o personagem Jason do filme Sexta Feira 13.

E, the last but not least, a desbocada líder que costuma se exibir empunhando armas de grosso calibre, foi presa pela PF… era tudo o que ela queria… e o xadrez da guerra híbrida pretendia.

O problema é que o “golpe militar” não foi e nem será televisionado. Sob as aparências de um suposto conflito de Bolsonaro com o comando do Exército e idas e vindas de falas que ora distensionam e ora tencionam (guerra criptografada), o consórcio militar-midiático-jurídico chegou ao poder e já deu o seu “golpe”. Tudo na “caneta”, na legalidade.

Desde 1985, tantos militares não ocupavam postos relevantes na cúpula do governo brasileiro. Despreparadas, as esquerdas e as oposições não viram que esse consórcio militar se sofisticou em estratégias de operações psicológica numa guerra híbrida. Há muito os militares deixaram de ser aquela figura caricatural do gorila, criada pela esquerda na crise política que levou ao golpe de 1964.

Principalmente depois de 2002, que o Exército criou o 1BTI Op Psic – 1o Batalhão de Operações Psicológicas, a única organização militar dessa modalidade de operação na América Latina. Diretamente influenciado pela doutrina de segurança da Atlantic Council (lobby americano de grande penetração no Departamento de Estado dos EUA).

Para essa doutrina, os maiores adversários da democracia não seriam mais países (China ou Rússia), mas ameaças virais atuando nas redes sociais. E o comunismo seria a principal delas – desintegrado, tornou-se viral com a capacidade de contaminar o mundo inteiro.

Expressa pela ideologia do “multiculturalismo” que colocaria em confronto EUA e Israel com o Movimento Comunista Internacional e países islâmicos. Em 1989 o “paleoconservador” William S. Lind chamava isso de “guerra de quarta geração” e que mais tarde seria redefinida como “guerra híbrida”.

William Lind: guerra híbrida é guerra de quarta geração

 

Orientada por essa doutrina da “guerra cultural”, gradativamente esse consórcio foi ocupando o Estado, aproveitando-se da janela de oportunidades dos megaeventos no Brasil da Copa do Mundo e das Olimpíadas, emplacando a Lei Antiterrorismo e posteriormente diversas PLs (Projetos de Lei) e decretos – “Patriot Act Tabajara” ou “Novo AI-5”: PLs 2418, 3389, 443 5327 e 1595, Decretos 10046 e 10047 – clique aqui.

No Brasil, a guerra híbrida foi colocada em ação coma estratégia de “paralisia estratégica”, conceito transposto do campo de batalha para a guerra simbólica: expansão da antiga guerra relâmpago (blitzkrieg) alemã, que visava um ataque decisivo contra a frente adversária por meio de pinças, penetrando na retaguarda e destruindo o apoio logístico da força oponente.

Agora, trata-se de penetrar no sistema organizacional do país inteiro e provocar o colapso não de uma frente e a captura de um ou outro oponente, mas da captura de um país inteiro. É a culminância dos princípios de Sun Tzu sobre ganhar as batalhas quase sem combater, pela dominação moral sobre o adversário.

Para quê então usar um artigo 142, que supostamente tornaria legal uma intervenção militar, para expor o Exército? É a vantagem básica da guerra híbrida: incrementar poder de combate ao mesmo tempo que reduz drasticamente as perdas humanas e materiais – claro, do lado das forças de ataque. Dissuadir sem entrar em confronto direto.

Movimentos em pinça

Esses movimentos em pinça do plano híbrido de paralisia estratégia desse consórcio militar-midiático-judiciário já são explícitos:

(a) As manifestações de rua do domingo retrasado (07/06) foram aguardadas com expectativas temerosas: possíveis confrontos e quebra-quebras poderiam ser a justificativa para o desfecho final do “fechamento do regime”. Em São Paulo, os manifestantes pró-democracia se concentraram no Largo da Batata, convocados por diferentes frentes, como Povo Sem Medo, Somos Democracia etc.

Tudo tranquilo. Depois que a liderança encerrou a manifestação, um grupo de antifas começou a marchar em direção da Avenida Paulista. Sintomaticamente, só nesse momento emissoras como Globo News e CNN entraram ao vivo de forma contínua. Tensão: policiais do choque com escudos impedem a progressão. Até que o grupo retrocede e tenta fugir por travessas, seguido por policiais que disparam balas de borracha e bombas de efeito moral.

Depredações? Uma única lixeira foi jogada contra uma agência bancária. E outra pequena lixeira pegando fogo. Frustração por não ter acontecido os quebra-quebras aguardado? Não seja por isso! As emissoras começaram a repetir ad infinitum imagens da vidraça quebrada daquela agência e da lixeira incendiando, enquanto os helicópteros mostravam “dramáticas” imagens dos policiais perseguindo a eles mesmos pelas ruas do bairro de Pinheiros.

Alguns mais frustrados, começaram a enquadrar a esmo qualquer um que viam.

Primeiro movimento de pinça: TVs só entram ao vivo quando têm elementos para tipificar movimentos sociais como “extremistas” – e por que não dizer “terroristas”.

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