O Ministro da Educação ora e o Brasil chora: a política do engodo, por Alexandre Filordi e Carlos Eduardo Ribeiro

O Ministro da Educação ora e o Brasil chora: a política do engodo

por Alexandre Filordi (UFLA)

e Carlos Eduardo Ribeiro (UFABC)

O filósofo moderno Espinosa [1632-1677] era judeu. Sabia muito bem hebraico. Não usava a língua dos profetas para tampar buracos e fossos da ignorância. Ao contrário, ele escandalizava por evidenciar como a ignorância impedia a finalidade de qualquer sociedade ou Estado: viver em segurança e comodidade.

Espinosa inicia o prefácio de seu Tratado Teológico-Político assim: “Se os homens pudessem, em todas as circunstâncias, decidir pelo seguro ou se a fortuna se lhes mostrasse sempre favorável, jamais seriam vítimas da superstição”. Mas a superstição assola os homens porque têm medo e são ignorantes.

A religião, dizia Espinosa, era também responsável por isso. Alimentando a superstição e a ignorância, no lugar do seguro conhecimento, já que a vida é uma experiência quase sempre desafortunada, a religião se torna responsável por repugnar a liberdade do agir político pela razão. Isso se dá por que “o conhecimento revelado [a Escritura ou Bíblia] não tem outra finalidade senão a obediência e que, tanto pela finalidade como pelos fundamentos e pelo método, ele é completamente diferente do conhecimento natural [científico], não tendo nada em comum com este”.

Quando vemos o Ministro da Educação, que é pastor presbiteriano, abrindo uma reunião de governo, com toda cúpula do Governo Federal, com invocações em hebraico e com uma oração, assistimos a completa falência moral de um governo que deveria ser laico, democrático e promissor ao conhecimento científico. Aqui, como diz Espinosa, “a Religião começou a ter força de lei”.

Diante da mesa farta, quando 50 milhões de brasileiros estão padecendo pelo avanço da miséria; enquanto um auxílio emergencial não banca o café da manhã dos Ministros; no mesmo tempo em que vemos o sistema de saúde colapsado; no instante em que a inflação solapa a mesa de cada cidadão comum e o desemprego galopa, o Ministro da Educação honra “o pão nosso de cada dia” – o deles, é claro – ; reconhece “a soberania de deus” – o judaico-cristão – , e assume que todos estão lá “para o bem da nossa nação – a deles, logicamente – e para a glória de deus”. O vídeo vimos por aqui: https://twitter.com/baia_canuto/status/1374886307265122304

Tal cenário faz absolutamente sentido ao bolsonarismo. A verdade; a ciência; a realidade objetiva; o respeito às diversidades religiosas, às minorias étnicas e à comunidade LGBT – lembremos que o Ministro que ora também está envolvido num caso de homofobia (https://www.cartacapital.com.br/educacao/acusado-de-homofobia-ministro-da-educacao-diz-que-responde-a-inquerito-por-defender-a-biblia/) nunca estiveram tão em voga.

Se a barriga da elite está cheia, faz sentido agradecer pelo pão nosso de cada dia; se o Governo sustenta o discurso e a prática que deus é soberano – no caso o da cultura branca, cristã, doutrinária, colonizadora, patriarcal etc. – o que se revela é um arranjo litúrgico na contínua sustentação da política do engodo e da falsificação da realidade. Se deus é soberano, ele sabe o que faz, logo, quem morre de Covid-19, passa fome, está desempregado ou arruinado, é porque deus planejou tudo e assim o quis. Fazer o quê? Aceitemos. Afinal, o povo não pode ser soberania republicana acima da soberania divina e incensada com cumplicidade burocrática. Tampouco a voz do povo, aqui, que não quer mais este Governo, nunca será a voz de deus. “Só deus me tira daqui”, disse o Bolsonaro.

Quando o nazista Eichmann, em 1961, estava sendo julgado na Beth Hamishpath de Jerusalém por seus crimes, o seu advogado usou a seguinte estratégia: foi graças ao nazismo que o povo judeu pode, agora, ter uma nação. O nazismo, assim pintado, era uma astúcia da Razão histórica. A estratégia não funcionou. Contudo, ela é relevante, pois trata-se do uso de uma invocação de arranjo universal para fazer encaixar a história conforme a conveniência do momento. Nesse caso, Deus, a Razão, a Vontade Soberana e a História não passam de grandes universais que se assemelham e que convém ao jogo sórdido de se justificar o injustificável no plano das ações humanas e de suas responsabilidades.

Os termos de Espinosa, aqui, soariam como maldição: “A verdadeira felicidade e beatitude do indivíduo consistem unicamente na fruição do bem e não, como é evidente, na glória de ser o único a fruir quando os outros dele carecem”. O Ministro que ora, enquanto o povo brasileiro chora, é apenas uma das peças na engrenagem do engodo político que nos toca.

E o que é este engodo político afirmado como superstição? É o gesto tão desprezível quanto eficaz de orar por todos. Quem ora por todos, quando efetivamente todos morrem, expressa claramente uma experiência de identificação de grupo na qual a hostilidade com outro é móvel. O mecanismo é simples e expresso pela psicanálise: toda religião é religião do amor desde que você a abrace, seja devoto cego e servil a ela. Para os demais, hostilidade que, no nosso caso, é a hostil indiferença que presenciamos. O princípio “todo somos um nele” nunca foi tão verdadeiro e cruel: deve-se amar o líder como seu ideal.  

Orar sobre os escombros que matam as pessoas é um exercício interessante para aqueles que estão por cima, são e salvos, recusando-se concretamente, como figuras públicas que deveriam ser, o bem público e as ações em favor de garantir a vida. O exercício reafirma suas vontades de poder. Mas aqui, não precisamos de nenhum hebraísmo, a tradução de Espinosa alcança a todos: “a superstição aos gritos odeia acima de tudo os que cultivam a verdadeira ciência e a verdadeira vida”.

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