O que é gentrificação e por que você deveria se preocupar com isso, por Emmanuel Costa

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Foto: Deni Williams

Do Courb

 
por Emmanuel Costa
 
Para entender gentrificação imagine um bairro histórico em decadência, ou que apesar de estar bem localizado, é reduto de populações de baixa renda, portanto, desvalorizado. Lugares que não oferecem nada muito atrativo para fazer… Enfim, lugares que você não recomendaria o passeio a um amigo.
 
Imagine, porém, que de um tempo para cá, a estrutura deste bairro melhorou muito: aumentou a segurança pública e agora há parques, iluminação, ciclovias, novas linhas de transporte, ruas reformadas, variedade de comércio, restaurantes, bares, feiras de rua… Uma verdadeira revolução que traria muitos benefícios para os moradores da região, exceto que eles não podem mais morar ali.

 
É que, depois de todos esses melhoramentos, o valor do aluguel dobrou, a conta de luz triplicou e as idas semanais ao mercadinho da esquina ficaram cada vez mais caras, ou seja, junto com toda a melhora, o custo de vida subiu tanto que não cabe mais no orçamento dos atuais moradores. E o mais cruel de tudo é perceber que, enquanto o antigo morador procura um novo bairro, pessoas de maior poder aquisitivo estão indo morar no seu lugar.
 
Talvez você já tenha passado por essa situação. Mas, se não passou, deve imaginar que é a história de muita gente. E o nome dessa história é gentrificação.
 
Gentri o quê?

Gen-tri-fi-ca-ção. Vem de gentry, uma expressão inglesa que designa pessoas ricas, ligadas à nobreza. O termo surgiu nos anos 60, em Londres, quando vários gentriers migraram para um bairro que, até então, abrigava a classe trabalhadora. Este movimento disparou o preço imobiliário do lugar, acabando por “expulsar” os antigos moradores para acomodar confortavelmente os novos donos do pedaço. O evento foi chamado de gentrification, que numa tradução literal, poderia ser entendida como o processo de enobrecimento, aburguesamento ou elitização de uma área… Mas nós preferimos ficar com o aportuguesamento do termo original.

Como funciona?

Um processo de gentrificação possui bastante semelhança com um projeto de revitalização urbana, com a diferença que a revitalização pode ocorrer em qualquer lugar da cidade e normalmente está ligada a uma demanda social bastante específica, como reformar uma pracinha de bairro abandonada, promovendo nova iluminação, jardinagem, bancos… E quem se beneficia da obra são os moradores do entorno e, por tabela, a cidade toda.

A gentrificação, por sua vez, se apoia nesse mesmo discurso de “obras que beneficiam a todos”, mas não motivada pelo interesse público, e sim pelo interesse privado, relacionado com especulação imobiliária. Logo, tende a ocorrer em bairros centrais, históricos, ou com potencial turístico.

O processo é bastante simples: suponha, que o preço de venda de um imóvel num bairro degradado seja 80 mil. Porém, se este bairro estivesse completamente revitalizado, o mesmo imóvel poderia valer até 200 mil. Há, portanto, uma diferença de 150% entre o valor real e o valor potencial do mesmo imóvel, certo? Agora imagine qual seria o valor potencial de um bairro inteiro?

É exatamente nesta diferença entre o potencial e o real, que os investidores imobiliários enxergam a grande oportunidade para lucrar muito investindo pouco. Mas para que tudo isso se concretize, é necessário que haja um outro projeto, o de revitalização urbana, e este, sim, é bancado com dinheiro público, ou através de concessões públicas. Os governantes também costumam enxergar no processo de gentrificação uma grande oportunidade: de justificar uma obra, se apoiar no interesse privado da especulação imobiliária para promover propaganda política de boa gestão.

E aonde acontece?

Em muitos lugares. Talvez seja possível dizer que toda cidade grande possui, no mínimo, um caso para estudo. Evidentemente existem alguns exemplos mais clássicos, em virtude da fama e influência que algumas cidades possuem, ou por conta do contexto histórico envolvido. Vamos destacar rapidamente dois deles:

1. Williamsburg (Nova York, EUA)

Até meados da década de 1990, Williamsburg era apenas mais um bairro residencial do distrito do Brooklyn, cujo único atrativo era sua paisagem – o famoso skyline da Ilha de Manhattan. Foi nessa época que artistas e artesãos locais migraram para o bairro em busca de aluguéis baratos e boa localização. Este movimento se intensificou até virar um dos maiores casos de gentrificação que se tem conhecimento: hoje, é um dos bairros mais badalados do mundo, que dita algumas das referências de moda, música, arte e gastronomia da sociedade ocidental. O processo foi tão grande que alguns dos próprios gentrificadores, precisando fugir do alto custo de vida, se mudaram para o bairro vizinho, Bushwick, que atualmente passa um processo quase idêntico ao de Williamsburg no começo dos anos 2000.

2. Friedrichshain (Berlim, Alemanha)

gentrificação na europa em Berlim

Após a queda do muro de Berlim, houve uma grande migração dos moradores de bairros da parte oriental – como Friedrichshain, para a parte capitalista da cidade, em busca de emprego, vida moderna e habitação confortável. Este fato abriu oportunidade para que a área, abandonada, fosse ocupada por imigrantes turcos, punks e artistas, em sua maioria jovens e pobres, e essa mistura naturalmente transformou o lugar em um grande fervilhão alternativo, criando uma subcultura de diversas tribos e origens, que hoje promove gastronomia, arte e entretenimento de alto padrão, atraindo berlinenses, turistas do mundo inteiro e é utilizada pelo próprio governo como marca turística.

Obviamente, este fenômeno trouxe um assombroso encarecimento do custo de vida e um acelerado processo de gentrificação: o caso berlinense foi tão violento que o parlamento alemão criou uma lei proibindo bairros com altos índices de gentrificação subirem os preços dos aluguéis mais do que 10% acima da média da região. A lei vem sendo aplicada em Berlin desde Maio de 2015, e em breve também será institucionalizada em outras cidades alemãs.

Há ainda vários outros casos famosos de gentrificação: La Barceloneta (Barcelona, Espanha); Puerto Madero (Buenos Aires, Argentina), Malasaña (Madrid, Espanha) e também alguns casos bastante estudados no brasil, como Lapa e Vidigal no Rio de Janeiro, e Vila Madalena em São Paulo, mas isto é assunto para uma outra conversa…

E por que eu deveria me preocupar com Gentrificação?

Olha, até existem especialistas que não “criminalizam” a gentrificação, por acreditar que este é um processo decorrente da chamada “Sociedade Pós-Industrial”, na qual as relações de consumo (demanda) ditam as relações de produção (oferta), e esta é uma condição natural e irreversível do nosso tempo. Há um debate profundo sobre isso, e a resposta sobre a gentrificação ser boa ou ruim… Bem, depende. Não dá para afirmar com certeza, ainda.

Mas desconfiamos que é mais nociva do que saudável. Por constituir um processo típico de especulação imobiliária, a gentrificação precisa de muito investimento e respaldo do poder público para atender à uma demanda de interesse privado. Ou seja, a cidade (enquanto “a coisa pública”) tem propensão a ser planejada de acordo com a vontade do interesse privado, que não necessariamente é a mesma vontade da população, e nem sempre vai ao encontro das demandas defendidas por especialistas em planejamento urbano.

Por outro lado, estudos recentes realizados nos Estados Unidos apontam que moradores antigos de bairros gentrificados não apenas não foram “expulsos” por conta da valorização imobiliária, como conseguiram, por causa da gentrificação, ampliar suas rendas. Apesar de serem inconclusivos, pois tratam mais de proprietários (que possuem renda sobre o imóvel) e menos de inquilinos (que pagam a renda para o proprietário do imóvel), os estudos colocam à prova alguns “mantras inquestionáveis” da corrente crítica da gentrificação, e abre precedente para a corrente que enxerga o fenômeno como algo saudável para a vida urbana contemporânea.

Do nosso ponto de vista, a gentrificação representa um grande perigo para as cidades, de maneira geral, porque independente de consequências saudáveis ou nocivas para o bairro que foi gentrificado, o grande problema está em mapear o que aconteceu com as pessoas que de fato foram forçadas a migrarem para outros lugares por conta do processo gentrificador: para qual bairro elas foram? Este bairro recebe os mesmos investimentos públicos, e desperta a mesma atenção que o bairro gentrificado? Acreditamos que a resposta seja negativa.

E, se para o bairro bonito pode tudo, e para o feio não pode nada, então não há um projeto de cidade inclusiva e democrática acontecendo nas nossas cidades. A gentrificação apenas será bacana e descolada de verdade quando todos os bairros puderem ver a renda de seus imóveis sendo elevadas, propiciando uma vida cultural, rica, vibrante, que respeite as tradições de cada lugar. Se não for por inteiro, então não vale.

Emannuel Costa
 
Não gosta de se definir em uma profissão, por isso, no momento “está” Analista de Redes Sociais e Coordenador de Conteúdo do COURB – do qual é Cofundador. É formado em Geografia, mestre em Arquitetura e Urbanismo e atualmente faz MBA em Mídias Digitais. Seus interesses principais são empreendedorismo social e inovação através das tecnologias de comunicação.
 
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7 comentários

  1. Isso é apologia à sujeira, à

    Isso é apologia à sujeira, à decadência e ao banditismo dos centros urbanos, imundos e decadentes, em prol do “bem viver” da população dos sem teto, dos bandidos e da marginalidade em geral?

    Mas, reflitamos que um processo de gentrificação não ocorre apenas em área centrais urbanas; em qualquer lugar em que há melhorias o preço dos imóveis sobe e vai expulsando aqueles que não têm mais condição de o suportar. Esse fenômeno é visto em diversas comunidades. O preço de não fazer tais melhorias e deixar tudo como está é a degradação cada vez maior dos espaços públicos.

    • O Emmanuel não quer descartar a criança, só água suja do banho

      Não acho que o Emmanuel não queira jogar fora a água suja do banho, ele apenas não quer jogar fora também a criança juntamente com a mencionada água suja do banho.

       

  2. Mais próximo que a Alemanha

    Não precisa ir tão longe. O chamado Projeto Porto Maravilha no Rio de Janeiro , foi um gigantesco processo de gentrificação , onde os números são bilionários, e Políticos também ficaram milionários como o Eduardo Pães e sua Quadrilha, que aliás anda se fingindo de morto e o Ali Baba Eduardo Cunha que recebia seu Capilé gigante das Empreiteiras. 

  3. Baixa Renda

     do povo pobreestá posto neste texto – A decadência é por conta e risco  do povo pobre de baixa RENDA!.É UMA DISCRIMANILAZAÇÃIO PERVERSA!.Na minha modesta opinião.

  4. Emannuel, Tu achas que a Caracolândia está sendo gentrificada?

    Ou melhor, tu achas que a Cracolândia vai ser gentrificada e, por isso, a expulsão dos Dependentes Químicos?

    Quando comecei a ler seu atigo achei que seria sobre a Cracolândia.

  5. a contribuição de melhoria

    Como uma pessoa interessada na chamada gentrificação, fenômeno ligado à valorização tópica de centros urbanos, esquece ou ignora o poderoso instrumento da contribuição de melhoria? Há outros instrumentos igualmente fortes para intervir na especulação imobiliária.

    Uma omissão dessas invalida quase tudo o que se escreveu, demonstrando insuficiência na reflexão.

  6. Tenho a impressão de que a

    Tenho a impressão de que a gentrificação, por exemplo, de um bairro é tão menos nefasta quanto menores são as desigualdades sociais (educação, acesso à saúde e renda) da cidade ou da comunidade em que esse bairro está inserido.

    A meu ver todo movimento no sentido de “gourmetizar” algo numa sociedade como a nossa, de muita, histórica e profunda desigualdade, é muito nefasto. Talvez uma preocupação – e mais que isso, ações – no sentido de um estado que busque, de verdade, reduzir essas desigualdades seja mais adequada ao momento. E aí, num futuro menos, digamos “desigual”, possa sim trazer boas coisas.

     

    Em tempo: Eu disse do estado como promotor de diminuição de desigualdades – e não a iniciativa privada – por duas razões: a iniciativa privada pode até ter um olhar para o que é público mas sempre por mera liberalidade, algo que pode ser interrompido sem nenhuma explicação, nenhuma justuficativa exceto imperativos dos donos e administradores dessa empresa, e diminuição de desigualdades é sempre um processo de longo prazo, precisa ter continuidade. E, por último, se cuidar da sociedade não é responsabilidade intrínseca às empresas privadas por outro lado é mister, vocação e obrigação do estado fazê-lo.

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