O racismo e ignorância de Bolsonaro ao falar em “índios evoluídos”

"Eu gostaria que em alguns locais, né, como o índio já tá evoluído, ele pudesse realmente ter mais liberdade sobre a sua terra", disse o mandatário

Indígenas do ATL 2019 fazem manifestação na frente do Ministério da Saúde durante marcha pela Esplanada dos Ministérios. Fotos: Leonardo Milano/Mídia Ninja

Jornal GGN – “Eu gostaria que em alguns locais, né, como o índio já tá evoluído, ele pudesse realmente ter mais liberdade sobre a sua terra”, disse o presidente Jair Bolsonaro, durante uma transmissão nas redes na última quinta-feira (24), ao lado do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.

“Como você [Ricardo Salles] disse agora pouco, por que um fazendeiro aqui pode usar sua terra da maneira racional e pro lado de cá não se pode fazer absolutamente nada?”, completou, em seu raciocínio.

As declarações de Bolsonaro foram qualificadas por andtropólogos, especialistas e representantes de comunidades indígenas como “racistas”, de “retórica colonial” e “ignorância”, segundo coluna de Rubens Valente, do Uol.

O tema tratado na live foram as demarcações de terras indígenas, das quais o mandatário é contrário, o que gera inegável risco e ameaça aos territórios e populações indígenas e quilombolas.

Ao mencionar a etnia parecis do Mato Grosso, que fez “parcerias” com fazendeiros para plantações, ele os chamou de “índio evoluído”, ao falar que eles “estão numa situação semelhane à nossa”, em referência aos não indígenas.

Ainda, o mandatário atacou comunidades indígenas que são protegidas pelas reservas, afirmando que “impera lá dentro desmandos, ilícitos também, roubo de biodiversidade, exploração predatória dos meios naturais”.

Para a antropólogoa Alcida Rita Ramos, professora da Universidade de Brasília (UNB), ouvida pela coluna de Rubens Valente, Bolsonaro expõe “um tal grau de ignorância que, francamente, não é compatível com o cargo de presidente da República”.

“É arcaico, chulo, desinformado e caricatural. ‘Índio evoluído’ é uma aberração antropológica que instantaneamente revela o grau de indigência mental e cultural de quem assim se expressa. Mas, sejamos claros, essa retórica malandra está a serviço de uma política anti-indígena e anti-ambiental que tenta se esconder por trás de uma aparente ignorância estudada”, afirmou.

“Uma versão tosca e regressiva das formulações do positivismo ortodoxo e do evolucionismo social do século 19”, afirmou o antropólogo Henyo Trindade Barretto Filho, doutor pela USP e professor da UNB, que destacou que esses pensadores “propunham que todos os coletivos humanos evoluiriam, natural e necessariamente, por um caminho que iria da selvageria (inferior/média/superior) passando pela barbárie (inferior/média/superior) até chegar à civilização (antiga e moderna)”.

“Uma das ideias centrais desse grupo de intelectuais era que ‘índio’ era uma condição transitória, que natural e necessariamente seria superada, competindo à autoridade laica – o Estado – atuar para que tal evolução ocorresse de modo não-traumático”, completou.

Para o especialista, ainda, a visão de Bolsonaro é uma “variante regressiva”, porque sequer tem conhecimento destes intelectuais.

“Bolsonaro e seus partidários reiteradas vezes subestimam a humanidade dos povos indígenas – ‘cada vez mais o índio é um ser humano igual a nós’ – quando não os animalizam – “índios em reservas são como animais em zoológicos” – considerando como agricultura (como evidencia o diálogo com Salles na live) apenas o monocultivo mecanizado praticado em pequena parcela do território Pareci”, completou.

 

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