O relatório de avaliação médica de Genoíno e a incerteza do nascer do Sol

Enviado por Sergio Saraiva

Será que para fazer a crítica do relatório de 22/04/2014 da avaliação médica do Genoino é essencialmente necessário ser médico, ou muito dele poderia ser dito, ou melhor, questionado apenas exercitando uma elementar interpretação de texto?

Bem, como de médico e de louco todos temos um pouco, arrisco-me a passar por louco, ou tolo, mas que o texto assemelha-se a uma peneira é uma imagem que, para mim, é inescapável.

Vamos aos furos.

Uma junta médica realiza uma avaliação clínico-cirúrgica geral e cardiológica e conclui que o paciente está em “pleno gozo de suas faculdades mentais e cognitivas”. Não consigo entender em que isso pode ser relevante para uma avaliação clínico-cirúrgica geral e cardiológica.

Porém, em minha opinião, a informação de que o paciente, que é um idoso (68 anos), hipertenso e passou por uma cirurgia para contornar uma dissecção da aorta, apresenta um quadro de ansiedade e um episódio de agravamento dessa ansiedade para uma situação de sintomas psicossomáticos que o levaram a procurar ajuda médico-hospitalar é relevante. Basta ver o quadro relatado: “dentre essas manifestações, apenas ansiedade generalizada relacionada à angústia, de leves a moderadas, vem repetindo se em circunstância de estresse emocional”.  Apenas? Estão enviando esse homem para a cadeia, e não autorizando-o a fazer uma viagem desacompanhado, o que já seria um risco.

O teste de esforço ergométrico durou apenas 6 minutos porque o paciente não suportou mais. Resposta cardiopulmonar prejudicada. Resposta prejudicada da função cardíaca e da pressão arterial e baixa capacidade aeróbica. E o que afinal vem a ser ausência de arritmias significativas? Uma das conclusões do teste.  Quer dizer que o coração de Genoino é arrítmico, mas não o suficiente para morrer por causa disso? E um homem assim tem condições de enfrentar os rigores de um presídio porque, afinal, seu coração não é isquêmico?

Esse paciente sofre de cardiopatia aterosclerótica e/ou hipertensiva incipiente, aortopatia aterosclerótica hipertensiva, dissecção aguda tipo II da aorta, aterosclerose coronária, hipertensão arterial sistêmica leve a moderada, dislipidemia (ou seja, gordura no sangue que combinada com aterosclerose é um enorme fator de risco) e distúrbios psicossomáticos.

Isso para não citar que o uso regular de anticoagulante pode levar a uma hipocoagulabilidade (risco de hemorragia interna), caso a dosagem do anticoagulante não seja cuidadosamente ajustada.

O paciente faz uso diariamente de dois anti-hipertensivos, um antidislipidêmico, um anticoagulante, um tranquilizante e um antidepressivo.  E a junta médica recomenda, além de vários controles ambulatoriais periódicos: “idealmente, tanto quanto possível, o tratamento medicamentoso deve ser coadjuvado por uma dieta hipossódica, pela prática de atividade física aeróbica e pela restrição de fatores psicológicos estressantes”.

Isso em uma prisão?

Mas claro, a condição do paciente é de um “aparente ótimo estado geral” e não houve agravamento desde a última avaliação.

Diante de tal diagnóstico, o que afinal é um “aparente ótimo estado geral”?

E quanto a não haver agravamento, não parece óbvio que tal teria se dado devido ao paciente “estar sendo periódica e regularmente acompanhado ambulatorialmente, com exaustiva realização de exames complementares gerais e cardiológicos especializados e sob controle terapêutico, por seu médico particular”? Como isso poderá ser mantido com o paciente preso?

E, então, o relatório conclui após um impressionante arrazoado técnico que…

Que nada, não há conclusão alguma, só jogo de palavras.

Vejamos:

1 – a impressão da persistência de condições clínicas caracterizadas como não graves. Impressão?

2 – apesar de tal “impressão”, a junta médica afirma que não pode “julgar sobre o risco mórbido futuro presuntivo”. A junta médica está dizendo que não sabe se o paciente pode vir a morrer se mudarem as suas condições? E está autorizando a enviar alguém assim para a cadeia?

E, finalmente, faz uma não afirmação que quer que se creia que está em “bases estritamente objetivas e definidas”. Mas o que afirma?

Que “não se expressa no momento a presença de qualquer circunstância justificadora de excepcionalidade e diferenciada do habitual para a situação médica em questão”.

Mas, o que é o habitual para a situação médica em questão? A junta não diz.

Não diz e ainda limita esse não dizer a uma condicionante: isso só vale “no momento”.

No momento?

Bem, no momento em que escrevo, há uma estrela no céu, mas nenhuma garantia de que o Sol nascerá amanhã.

Isso é uma verdade, mas eu não a expressaria em um relatório. Teria receios em relação aos meus alunos. Eles poderiam achar que se eu não tive “bases estritamente objetivas e definidas” para afirmar nem sobre o nascer do Sol, não teria base para afirmar nada.

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