Olimpo, por Wilson Ramos Filho (Xixo)

Os mitos e os privilégios serão assegurados. O que seria da sociedade se a cúpula do judiciário fosse infectada?

Olimpo

por Wilson Ramos Filho (Xixo)

Zeus, Hera, Poseidon, Atena, Ares, Deméter, Apolo, Ártemis, Hefesto, Afrodite, Hermes e Dionísio viviam no topo do monte Olimpo na Grécia antiga.

De seu vértice, metáfora geodésia, emanavam sobre o mundo dos homens todas as virtudes e todos os desvios de caráter, ordenando o funcionamento da sociedade.

Séculos mais tarde, cientes de que a religião é essencial para a manutenção dos privilégios da minoria pela indução da submissão dos demais, os romanos mudaram os nomes dos deuses, preservando-lhes as principais características. Zeus virou Júpiter, Cronos foi chamado de Saturno, Hera e Netuno viraram Juno e Poseidon, e assim por diante. E incluiram mais alguns, inventando poderes e talentos para as novas divindades. Preservou-se, porém, a simbologia piramidal, as divindades no topo, as relações sociais concretas na base, rigidamente hierarquizadas.

Com os monoteísmos essa estrutura foi mantida por intermédio dos intérpretes do sagrado, daqueles que revelam os desígnios divinos.

Não causa estranheza, portanto, que a mitologia do Estado neutro, a serviço do bem-comum, estruturado em poderes independentes e harmônicos, tenha se apropriado da mesma metáfora, com intérpretes autorizados a dizerem o que o direito diz, com um vértice de onde emana toda a juridicidade, morada de semideuses.

Em nossa realidade bolsonara, fiquemos tranquilos, o Olimpo neoliberal quer ser imunizado com prioridade.

Os mitos e os privilégios serão assegurados. O que seria da sociedade se a cúpula do judiciário fosse infectada? Como deve ser, às vésperas do natal, apropriação cristã das festas pagãs do solstício, somos informados pela imprensa de que os moradores do Olimpo terão privilégio na vacinação contra o coronavírus, sem terem que entrar na fila para a imunização. Mais que isso, passamos a saber a quantidade de privilegiados que a sociedade suporta e tolera no vértice sagrado. Seriam sete mil pessoas, apenas no stf (sempre em minúsculas desde que se apequenou) e no CNJ. Supõe-se que na conta estejam incluídos os parentes e os serviçais domésticos dos semideuses.

E certamente o espírito natalino, da celebração da harmonia e da paz social, haverá de prevalecer, com a preservação da lei, da ordem e das hierarquias sociais. Sem vergonha. Os outros que entrem na fila.

Celebraremos nossa
“Natalis Solis Invicti” (Nascimento do Sol Invencível), criação genial do imperador Aureliano que, no ano 270 de nossa era, resolveu homenagear a primeira divindade do império, absorvendo a simbologia da celebração do solstício de inverno no hemisfério norte, festa presente em vários povos dominados. Não por acaso, quase 400 anos depois da crucificação, a igreja católica arbitrou a data do nascimento de seu messias fazendo-a coincidir com a época das festas de Aureliano, preservando tradições que remontam ao Olimpo.

O que seria de nós sem as tradições e sem as hierarquias?

Wilson Ramos Filho (Xixo), presidente do Instituto Defesa da Classe Trabalhadora.

#feliznatal
#felizsolsticiodeverao.

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