Oprah, meritocracia, racismo e feminismo: um debate necessário, por Rita Almeida

Oprah, meritocracia, racismo e feminismo: um debate necessário

por Rita Almeida

Meu artigo desta semana será a réplica de um debate que tive no facebook com uma amiga, a partir de um post meu sobre o discurso da Oprah. Nossa discordância que dá início ao debate, parte do fato de eu ser branca e ela negra. Decidi publicar nosso diálogo (inclusive fiz questão de manter o tom coloquial da conversa), porque o território das redes tem estado muito árido nos debates. O que temos é ódio por todo lado, xingamentos e agressões. Quando falta argumento, desqualifica-se o interlocutor ou o lugar de onde ele fala. Tem sido bastante difícil travar um bom debate de ideias, sem que isso se torne uma arena para disputa de narcisismos inflados, em que alguém precisa sair vencedor. Conheço Cristiane Alves apenas pelo facebook, e, depois do nosso debate, convidei-a para estar aqui comigo na coluna desta semana, o que ela, muito generosamente, aceitou. Estamos muito orgulhosas por termos conseguido manter um debate de ideias, inteligente, elegante e respeitoso a partir do qual, estou certa, nós duas fomos modificadas. Um bom debate não precisa ter, necessariamente, um vencedor, mas precisa modificar seus interlocutores e aqueles que se dispuserem a escutá-los. 

Segue o debate:

Rita Almeida: O discurso da Oprah no Golden Globes 2018 emociona e comove sim, por falar da luta e superação de uma mulher negra, que saiu da pobreza para chegar ao topo, mas, não se enganem, é carregado de meritocracia. Essa coisa que muitos famosos e ricos que saíram da pobreza dizem sobre serem um “modelo para os outros como ele” é das coisas mais ingênuas e perversas de se dizer. Afinal, quantas “Oprahs” vocês acreditam que este mundo suporta? A apresentadora da TV americana é uma das mulheres mais ricas e poderosas do mundo. Sabemos que a riqueza que o planeta pode suportar é limitada – há quem diga que já até ultrapassamos tal limite. Sendo assim, se levarmos em conta apenas a matemática ecológica, não é possível que existam muitas “Oprahs”, até por que, elas só podem existir à custa de milhares de “não-Oprahs”. Por isso, o discurso de Oprah é perverso, afinal é ele que mantém as milhares de “não-Oprahs” motivadas e ocupadas em trabalhar, lutar e produzir riqueza para enriquecer ainda mais as “Oprahs”, que sonham em ser com Oprah um dia. A verdade que esse discurso não diz é que o modelo capitalista é como uma grande empresa tipo pirâmide. Só existe alguém no topo porque tem alguém se ferrando lá na base. Mas, o que alimenta a pirâmide é exatamente o fato da maioria que está na base acreditar que um dia também estarão no topo. Por isso, ao ouvirem Oprah em seu discurso, milhões e milhões de “não-Oprahs” ficarão realmente motivadas em poderem ser como “Oprah”, mas, por outro lado, em caso de fracasso, pensarão que é por que lhes faltou empenho, inteligência, força de vontade, ou outro atributo individual qualquer. Isso é cruel!

Obs: Empresas tipo pirâmide são consideradas crime em vários países, incluindo Brasil e EUA.

Cristiane Alves: A diferença, Rita, é que você, por ser branca, cresceu cercada de referências e modelos que te mostraram que você é a pessoa certa, que está no caminho certo e que faz a diferença. Num mundo onde brancos estão nos vídeos, nos melhores cargos, nas maiores instâncias, nos “lugares certos”, como você acha que, psicologicamente, fica aquele que cresce sem ver um semelhante que lhe mostre que ele também pode? Talvez fosse meritocrática a retórica vinda de um homem branco, mas não é quando vinda de uma mulher, e é ainda menos se vinda de uma mulher negra.

Representatividade faz a diferença, se o mundo inteiro diz que afrodescendentes são menos competentes, menos bonitos, menos inteligentes. Diz-se que a história do negro não precisa de registros, se embranquece a figura historicamente reconhecida, se resume o negro a mero expectador e a negra aos seus genitais. A criança negra precisa saber que pode, que tem direito, que é competente. Não se pode olhar o discurso de Oprah Winfrey de uma perspectiva branca. Tampouco se pode olhar do ponto de vista simplesmente econômico. Óbvio que o mundo não suportaria milhões de mulheres e homens com poder aquisitivo dessa mulher. Claro que, mesmo com referências, muitos serão medianos. O melhor não está no ser a próxima, mas saber que se existem as exceções. Temos que saber que não somos piores, mas que a nossa perspectiva é limitada apenas porque as regras são mais difíceis para nós, e que continuaremos assim se não fizermos nada.

Rita Almeida: Entendo sua perspectiva Cristiane, e entendo que, por ser branca, talvez jamais possa entendê-la como você. Fiz questão de destacar no meu texto que é um discurso que emociona e seduz, exatamente pelo aspecto que você suscitou: uma mulher negra que alcança o topo, apesar de todos os entraves, mas ainda assim acho isso um engodo. Não acredito que esta seja uma boa via para a militância, apesar de acreditar que isso faça coisas importantes pela autoestima dos negros, em especial das mulheres negras, no caso da Oprah. Me desculpe, mas tenho muitas questões sobre esse tipo de militância que precisa sustentar a meritocracia para funcionar, apesar de não duvidar de forma nenhuma, que seja um discurso eficaz e importante para você como mulher negra.

Cristiane Alves: Rita, as pessoas só podem militar naquilo que acreditam. Se Luther King, Malcon X ou Mandela não existissem o mundo não deixaria de rodar, mas muitas gerações seriam menos crentes num futuro igualitário. Existe muito nas entrelinhas do discurso de Oprah. Meninas pretas, estupradas, avacalhadas, podem e devem saber que alguém que já passou por isso pode ter voz. Que sua pele não pode ser barreira para sua competência, que ninguém é obrigado a servir de capacho, mesmo que a sociedade diga o contrário. O discurso não foi um mero “você também será milionária se se esforçar”, foi um grito. E por mais que eu fale, talvez algumas mulheres e homens aqui jamais compreendam. Muito mais cruel que o discurso dela é se olhar todos os dias no espelho e não se achar suficiente, porque o médico é branco, o comerciante bem sucedido é branco, a beleza da vida é branca, a história é branca, os anjos dos filmes são brancos, o sorriso das propagandas de lanchonetes são dos brancos. Difícil, porque muitos nem se dão conta disso. Minha filha precisa da Oprah e do discurso dela. Foi feminista e negro. Meu filho precisa, pelas mesmas razões. Se serão ricos? Isso é o de menos. Mas, serão orgulhosos por serem negros e poderem todas as coisas.

Cristiane Alves é Professora da rede básica de ensino do Estado de São Paulo. Formada em Geografia e especialista em educação especial com ênfase em Altas Habilidades e Superdotação pela Unesp. 

 

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