Os ritos satânicos do neoliberalismo, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Esse curioso filme de terror é capaz de provocar uma reflexão interessante sobre os efeitos deletérios do neoliberalismo. Ele pode ser considerado uma metáfora do renascimento desse sistema de exploração humana no Brasil.

Os ritos satânicos do neoliberalismo

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Estou aproveitando a pandemia para rever minha imensa coleção de filmes. Ontem a noite revi “The Satanic Rites of Dracula” (1973), filme com atuações convincentes da dupla Christopher Lee (Conde Drácula) e Peter Cushing (Van Helsing).

O que chama atenção nesse filme é o roteiro. Bem adaptado à vida cotidiana do princípio dos anos 1970, Drácula não é apenas um vampiro. Ele é um grande empresário que organizou um culto à sua diabólica personalidade.

O culto atrai a atenção das autoridades policiais quando elas começam a suspeitar que pessoas importantes do meio político, militar, social e científico estão participando dos rituais. O policial que tenta infiltrar o culto é descoberto e torturado, mas ele consegue fugir fornecendo informações que permitem identificar os envolvidos no culto e as características dele.

À medida que a investigação avança, os policiais descobrem a existência de algumas vampiras no porão do prédio em que os rituais satânicos são realizados. Van Helsing (no filme ele é um descendente do antigo inimigo do vampiro), é consultado e acaba se envolvendo na investigação pois conhece o Dr. Julian Keeley que se aliou a Drácula.

Ao visitar o amigo, Van Helsing descobre que o cientista estava cultivando cepas extremamente letais de peste bubônica, as quais seriam utilizadas por Drácula para causar um genocídio. Ele relata o que descobriu aos policiais e decide enfrentar sozinho o vampiro. Antes, porém, ele confecciona uma bala de prata derretendo um crucifixo.

O diálogo entre Drácula e Van Helsing é especialmente interessante. Primeiro, cada qual faz de conta que não sabe quem é o interlocutor. À medida que o diálogo prossegue fica claro que ambos sabiam exatamente com quem estavam falando. Van Helsing questiona abertamente Drácula, dizendo que ele morrerá de fome se a pandemia exterminar toda a humanidade. Mas o vampiro se recusa a admitir seu impulso suicida.

Nos filmes de terror tradicionais, Drácula é geralmente retratado como uma relíquia do passado.Van Helsing é um estudioso devotado à erradicação daquilo que ele representa: a opressão senhorial obsessiva, violenta e mortal. Em “The Satanic Rites of Dracula” ocorre uma inversão. Apesar de sua personalidade sociopata, Drácula é um homem de negócios do século XX que mobiliza o que existe de melhor na ciência para concretizar seu plano macabro. O adversário dele (Van Helsing) é um homem do século XIX, com valores morais arcaicos e princípios religiosos inflexíveis.

Quando tenta matar Drácula usando um pequeno revólver, Van Helsing é detido pelo general Sir Arthur Freeborne. Encerro por aqui a descrição do enredo, dizendo apenas que no final Drácula é eventualmente derrotado.

Esse curioso filme de terror é capaz de provocar uma reflexão interessante sobre os efeitos deletérios do neoliberalismo. Ele pode ser considerado uma metáfora do renascimento desse sistema de exploração humana no Brasil.

Os rituais políticos que reintroduziram o neoliberalismo no Brasil também foram satânicos. O golpe “com o Supremo, com tudo” foi arquitetado por generais, políticos, juízes, empresários e donos de empresas de comunicação. A mentira substituiu a verdade. A soberania popular foi expulsa do cenário político. Depois, os direitos dos brasileiros começaram a ser destruídos.

Bolsonaro não criou o COVID-19, mas ele está utilizando a pandemia para maximizar o número de mortes causadas pelo vírus letal. Desde o início do ano de 2020, o presidente brasileiro faz campanhas de desinformação e propagandas de remédios ineficazes. Ele também desacredita com palavras e atos as recomendações da Organização Mundial de Saúde. A vacinação do povo brasileiro está sendo sabotada pelo presidente da república.

Os banqueiros que entesouram fortunas com ajuda do Estado enquanto a população sofre com o desemprego, o fim do “auxílio emergencial” e com a fome podem, sem dúvida alguma, ser considerados seguidores de Drácula. Eles não são capazes de demonstrar qualquer empatia. A depressão econômica e a morte de 240 mil brasileiros não fez os banqueiros reduzirem 1 centavo nas taxas que eles cobram dos clientes. Ao invés de ajudar o Brasil a superar a crise, eles fecham agências e demitem empregados.

O vampirismo financeiro interno é amplificado pelo vampirismo energético estrangeiro. Após o golpe de 2016, o Brasil doou o pré-sal aos gringos e voltou a importar gasolina, óleo diesel e gás de cozinha dos EUA. Quem tem dinheiro para comprar comida nem sempre consegue comprar o gás para cozinhar. Nos sertões o povo voltou a cozinhar em fogões a lenha.

No filme “The Satanic Rites of Dracula” o vampiro é derrotado e seu culto interrompido. No Brasil, isso provavelmente não vai ocorrer. O sucesso dos ritos satânicos do neoliberalismo é garantido pela propaganda da imprensa em favor das “reformas” introduzidas por Paulo Guedes. A principal delas foi, sem dúvida alguma, a total destruição do sistema constitucional.

Os brasileiros têm direito à vida, mas o governo Bolsonaro trabalha para espalhar a morte. A Constituição Cidadã garante o direito à saúde, mas o governo sonega a vacina indispensável à imunização da população e facilita a propagação das variantes mais letais do COVID-19.

A vida não imitou a arte. Ao que parece, no Brasil não existe um só Van Helsing disposto a correr riscos para colocar um ponto final na carreira genocida de Jair Bolsonaro e dos banqueiros que financiam o culto de morte que ele transformou em política pública.

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