Pela primeira vez, empresa que colaborou com a ditadura é denunciada ao MPF

A partir do trabalho da Comissão da Verdade, a Volkswagem Brasil será acionada por crimes contra os direitos humanos

Jornal GGN – Pela primeira vez, uma empresa que colaborou com a ditadura militar será formalmente denunciada ao Ministério Público Federal. A Volkswagen Brasil será acionada por atentar contra os direitos humanos graças ao trabalho realizado a partir das investigações da Comissão Nacional da Verdade.

Segundo reportagem publicada pelo Diário do Grande ABC nesta terça-feira (22), há relatos de sequestro e tortura dentro da fábrica situada em São Bernardo do Campo (SP), região que deu origem ao PT, protagonista de inúmeras greves de trabalhadores. A violação aos direitos humanos ocorria, na grande maioria dos casos, por causa das posições políticas dos funcionários.

Segundo a reportagem, a denúncia protocolada hoje no MPF é assinada por um grupo formado a partir da encerrada Comissão Nacional da Verdade, e conta com a participação de entidades de trabalhadores e centrais sindicais. Elas apontam “cumplicidade” da Volkswagen Brasil com o regime militar. Sebastião Neto, representante do IIEP (Intercâmbio Informações Estudos e Pesquisas), uma das organizações que assinam a denúncia, afirmou que a ideia é gerar obrigatoriedade de reparação coletiva à sociedade, na forma de programas educativos ou monumentos em lembrança às vítimas da ditadura, por exemplo.

Documentos levantados no Arquivo Público do Estado mostram que a Volkswagen forneceu dados pessoais de empregados a agentes da ditadura. “No relatório aparece lista negra entregue ao Dops (Departamento Estadual de Ordem Política e Social) com nome de funcionários ligados ao Grande ABC. Os registros mostram seções de trabalho a que pertenciam, endereços de residências e funções. Tratam-se de trabalhadores considerados subversivos por conta, principalmente, de suas posições políticas. O rol circulava entre as empresas para evitar que eles fossem contratados”, publicou o jornal.

O jornal ressaltou que há poucos testemunhos das vítimas, uma vez que muitas já morreram. Mas ouviu dois casos: o do ex-deputado ferederal Expedito Soares, que trabalhou na Volks entre 1974 e 197. Ele disse que ficou quase 15 dias em cárcere privado na empresa devido à atuação de agentes infiltrados. Pelo relato, um coronel do Exército integrava equipe de atuação no departamento de vigilância da companhia.

“Fui sequestrado lá dentro. Ficava confinado o dia inteiro em uma sala, com dois seguranças na porta. Isso tudo porque liderei movimento de greve por melhores condições de trabalho. Havia tortura psicológica”, relembrou. Ele ainda disse que foi demitido sem o pagamento de direitos trabalhistas, e depois ficou mais de um ano desempregado, com dificuldade de retornar ao mercado de trabalho.

Já o ferramenteiro Lúcio Bellantani, filiado ao PCB, também sofreu com situação semelhante à de Expedito. “Em junho de 1972, ele foi capturado no local de trabalho e levado ao Dops para sessões de tortura e de acareação com outros trabalhadores a fim de identificá-los. Tudo isso com ‘colaboração e cooperação’ da Volks. O operário contou à comissão que chefe de seguranças da empresa o levou para o departamento pessoal e lá começou a ser ‘espancado’.”

A Volks ainda não se pronunciou sobre o assunto, de acordo com o DGABC.

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