Por que o discurso da Oprah me importou, por Cristiane Macedo Alves

Por que o discurso da Oprah me importou

por Cristiane de Assis Macedo Alves

Lembro da primeira vez que me vi no espelho. Fiquei tão chocada com a imagem negra e franzina que por muitos anos tentei provar, para mim e para o espelho, que aquela não era eu. Por isso mesmo, quando assisti ao discurso inflamado e ovacionado de Oprah Winfrey há uma semana, na entrega do Globo de Ouro, e a ouvi dizer das poucas referências que teve e também da importância atribuída por ela à premiação de um ator negro para a autoconstrução de sua identidade, me lembrei da menina do espelho.

Há cerca de 14 anos, minha filha se dirigiu à balconista de uma famosa rede de fast food e indagou o motivo de não ver pessoas como ela nas fotos das propagandas espalhadas pelo estabelecimento. A moça refletiu por uns segundos e, constrangida, disse: “Eu não sei”! Talvez não soubesse, talvez sim. Não importa tanto a resposta. O flagrante constrangimento garantiu que, mais importante que a resposta, foi a própria pergunta. Minha filha, aos quatro anos, estava questionando um sistema onde o racismo institucionalizado transforma o negro em um ser invisível.

A menina do espelho havia crescido cercada por parentes negros, mas ela não via. E não via porque seu universo era socialmente invisível, porque para o mundo ao redor de sua ilha familiar todo modelo de identidade era branco. Não havia negros nas novelas, filmes ou nas propagandas – exceto como escravos, quase sem fala, sem força e sem vez. Martirizados sem protestar, aguardando a intervenção salvadora de homens e mulheres brancos fortes e altruístas.

A menina da lanchonete estava, na verdade, buscando representatividade – algo que a menina do espelho não teve e tampouco esperava ter.

Observo as muitas críticas ao discurso de Oprah adjetivando-o como narcisista, oportunista e opressor. Para esses críticos, o erro de Oprah é não questionar o modelo econômico segregador que, embora lhe permita ter voz, também lhe coloca na posição mais privilegiada dentro da lógica da estratificação social.

Entretanto, para os que cresceram cercados de referências, modelos e privilégios, é fácil dizer que o discurso de Oprah foi carregado de autopromoção e crueldade.  Num mundo onde brancos estão nos melhores cargos, nas maiores instâncias, nos “lugares certos”, como fica psicologicamente aquele que cresce sem ver um semelhante que lhe mostre que ele também pode?

Talvez a retórica de Oprah fosse “meritocrática” vinda de um homem branco, mas jamais ao vir de uma mulher – menos ainda de uma mulher negra.

Representatividade faz diferença num mundo onde os afrodescendentes são menos competentes, menos bonitos, menos inteligentes, onde a história do negro não tem registros, ode se embranquece a figura historicamente reconhecida, que resume o negro a mero espectador e a negra às genitais.

Toda criança negra precisa saber que pode, que tem direito, que é competente. E precisa ser alertada de que qualquer triunfo social lhe será muito mais difícil.

O discurso de Oprah Winfrey não pode ser analisado por uma perspectiva branca. Tampouco se pode avaliar o impacto ou a importância de suas palavras analisando apenas pelo viés econômico. É óbvio que o mundo não suportaria milhões de mulheres e homens com o poder aquisitivo dessa mulher e, é claro que, mesmo com referências, muitos ainda serão medianos, o mais importante não está no ser a próxima Oprah, mas em saber que, se existem as exceções é porque alguém dificultou as regras. E, como regra, temos que saber que não somos piores, mas que nossas perspectivas foram historicamente estreitadas, e que continuarão assim se não fizermos nada.

Pela voz de Oprah, numa noite e diante do mundo todo, nós meninas e meninos, mulheres e homens negros, pudemos dizer que essa estrutura que nos sufocou e que ainda tem nos sufocado precisa urgentemente acabar.

Cristiane de Assis Macedo Alves é professora da Educação Básica da rede estadual de São Paulo. Formada em Geografia, tem especialização em Educação Especial com ênfase em altas habilidades e superdotação.

 

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14 Comentários

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Anarquista Lúcida

- 2018-01-15 20:19:53

Só que isso é uma estratégia p/afastar o tema do tópico

Incomoda falar de misoginia, racismo, etc. Veja o comentário do Maestri abaixo. Vale tudo p/ defender privilégios, até posiçoes aparentemente "de esquerda".

Anarquista Lúcida

- 2018-01-15 20:17:13

Ah, entao nao é p/ falar de misoginia e racismo, né?

Vá sonhando, viu? Típico comentário de homem branco SEM NOÇAO.

Orlando Soares Varêda

- 2018-01-15 19:47:00

Tudo bem, não é este o tema.

Tudo bem, não é este o tema. Mas, minha cara Anarquista Lúcida. Onde está escrito que somos obrigados a andar no trilho? Mais ainda, leve em consideração que vivemos um momento em que, até a Constituição Federal é quem paga o pato, sendo posta em recesso. Gozando de  esquisito e inusitado período sabático. Logo após o cansativo golpe jurídico-parlamentar, que por certo, esgotou as reservas energéticas de suas excrescências do stf, a dos seus indóceis cupinchas dos rodapés das instâncias inferiores, das médias excrescências de segunda, do ministério público federal, dos endiabrados moralistas da pgr, polícia federal, et caterva. Tudo, rigorosamente em minúsculo.

Portanto cara colega de estabelecimento, tenha paciência com  nós outros.

Abraços.

Orlando

rdmaestri

- 2018-01-15 19:44:46

Exemplo de ingenuidade.

É extremamente fácil a qualquer capitalista falar contra a misoginia e o racismo, porém é extremamente difícil falar das causas do aumento disto.

Anarquista Lúcida

- 2018-01-15 18:40:35

Nenhuma. E DAÍ?

NAO É ESTE O TEMA DESTE TÓPICO!

Vcs acham mesmo que sao cidadaos americanos, e que vao votar nas eleiçoes dos EUA? Ora, ora.

Anarquista Lúcida

- 2018-01-15 18:39:19

Ingenuidade nenhuma, apenas capacidade de ver o tema de 1 tópico

Já vcs precisam urgentemente de aulas de interpretaçao de textos! NAO É ESSE O TEMA DESTE TÓPICO, dá para entender, ou tem que desenhar? Oprah pode ser o capeta em pessoa, ISSO NAO INTERESSA PARA O TEMA DESTE TÓPICO. Haja!

ze sergio

- 2018-01-15 18:34:53

inegavelmente.....

O que gostei na Oprah foi aquele 'cabelo de branco', liso, esticado à chapinha termonuclear que só a tecnologia norte americana dispõe. Desculpe se ofendi alguém com 'cabelo de branco'. Não me lembro de ver algum dia, a tal celebridade, com penteado igual ao da sra. Vergonha? Nem me lembro de ver entre mais de 400 milhões de norte americanos um casal famoso entre negros e brancos (Um cineasta e sua esposa, postaram a foto em outra matéria, quando citei o fato. Não seii se era de verdade. Fora desta foto nunca vi a imagem). Fora esta foto nunca vi outra imagem desta, por todo aquele país. E são mais de 400 milhões. Serviu para Nós Brasileiros? De ruivos com negros, de negros com nipônicos, de nipônicos com europeus, de europeus com indigenas? Onde uma mulata (segundo o dicionário pessoa mestiça oriunda da mistura entre branco e negro), pode se sentir discriminada.  No país da tal Oprah nem existiria. Até poucos anoa trás, inclusive era crime tamanha inter-relação. Exemplo para Nós? 

rdmaestri

- 2018-01-15 18:32:53

Qual a diferença entre Luciano Hulk e Oprah?

Um mediatizado numa campanha tem a sua serventia!

rdmaestri

- 2018-01-15 18:31:11

Santa ingenuidade.

Oprah é uma milionária conservadora que reclama dos impostos que paga (é sóprocurar no YouTube que se encontra). Agora ela sendo mulher e negra é um bonus extra a sucessão de candidadtos a presidentes ricos que se sucedem nas eleições e está parecendo chegar a um esgotamento, é uma boa forma de enganar os elitores norte-americanos.

Se ela consegue enganar uma pessoa que se acha politizada e LÚCIDA, por que não conseguirá enganar o eleitor norte-americano que não é nada lúcido.

Desde uma declaração de que Oprah seria uma candidata ideal feita por Michael Moore há mais de cinco anos estão cozinhando a ideia, não é que será utilizada, mas no desespero de uma volta de Sanders a disputa (apesar da idade) Oprah pode servir de contraponto dos capitalistas.

Anarquista Lúcida

- 2018-01-15 18:19:08

Continua sendo irrelevante

Se estivéssemos nos EUA, onde o gesto dela poderia atrair votos, ainda se explicaria fazer esse tipo de contraponto num tópico sobre outro tema. Aqui ninguém vota nos EUA nao. O tema do tópico é a questao da identidade da mulher negra.

Orlando Soares Varêda

- 2018-01-15 15:32:35

Inegavelmente, no jogo ora

Inegavelmente, no jogo ora jogado, a milionária artista Oprah, marcou um gol de letra para alegria de seus irmãos e irmãs negras. Quisera eu que o nosso Pelé, craque inquestionável no domínio da bola, não tivesse se omitido tanto ou, ao menos, não abrisse a boca, apenas, para dizer tanta merda. Como quando declarou que o "povo" brasileiro não sabe votar.

Agora, a dona Oprah como norte-americana negra que conseguio superar o diabo, imagino, se tronando milionária, ao "roubar" uma vaga destinada a brancos, naquela bela sociedade racista. Inegavelmente, por si só, já foi um feito estraordinário.

Agora, no frigir dos ovos, tirando essa declaração corajosa(?), no mais, a senhora Oprah ao que me consta, é uma  privilegiada perfeitamente inserida na bela plutocracia americana. Além da riqueza. Nada que a possa comparar, ou mesmo, que a permita se aproximar da conterrânea, também artista negra, Josephine Baker, que nos anos 1950, usou sua grande popularidade na luta contra o racismo e pela emancipação dos negros.

Eh! Mas ai, já é outra história.

Orlando

Fábio de Oliveira Ribeiro

- 2018-01-15 14:47:19

O discurso dela é apenas a

O discurso dela é apenas a preparação para algo mais relevante.

Já tem gente querendo uma disputa entre ela e Trump em 2020. 

http://edition.cnn.com/2018/01/09/politics/trump-oprah-2020/index.html

Portanto, é legítimo lembrar as "cagadinhas imperiais" da apresentadora.

Ela não relutou um só momento quando as vidas em jogo eram iraquianas. 

Anarquista Lúcida

- 2018-01-15 14:00:26

E daí? Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa!

Vc viu o tema do tópico? Nao é sobre qualquer possível candidatura de Oprah. É sobre a importância do discurso dela do ponto de vista da representatividade de mulheres negras. Dá para entender? Ou qualquer valorizaçao feminina incomoda demais o seu ego, e vc tem que demolir com qualquer argumento, mesmo se completamente irrelevante para o ponto discutido?

Fábio de Oliveira Ribeiro

- 2018-01-15 13:17:16

Oprah Winfrey apoiou

Oprah Winfrey apoiou ativamente a invasão do Iraque.

Ela reproduziu o festival de mentiras de George W. Bush et caterva sobre as supostas armas de destruição em massa de Saddan Hussein. 

No imaginário dela a democracia norte-americanos tem méritos.

E por isso os iraquianos, coitados, poderiam ser estraçalhados, mutilados, mortos e, por fim, roubados. 

Ela certamente preenche um requisito essencial para fazer carreira política.

É possível vê-la na Casa Branca fazendo exatamente o que Obama fez: ordenando invasões militares para garantir os negócios dos fabricantes de armamentos e para assegurar a hegemonia do império global brutal.

Aqueles que no Brasil levantam bandeiras em nome de  Oprah Winfrey terão que enfia-las em algum lugar quando ela se tornar presidente dos EUA.

 

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