Torcedores denunciam agressões e torturas por PMs no Maracanã

 
Jornal GGN – Torcedores corintianos que estiveram no estádio do Maracanã, no último domingo, para acompanhar a partida entre Flamengo e Corinthians, relatam agressões, ameaças e torturas por parte dos policiais militares.
 
De acordo com os relatos, antes do começo do jogo, os torcedores das duas equipes trocavam xingamentos nas arquibancadas, quando alguns flamenguistas tentaram invadir a área reservada à torcida visitante. A partir daí, a Polícia Militar começou a agredir torcedores corintianos, sendo que os policiais também foram agredidos. 
 
Depois do fim da partida, a PM fez os corintianos ficarem no Maracanã para que pudessem identificar quem participou da briga. Mulheres e crianças foram separadas dos homens, que tiveram que permanecer sentados e sem camiseta na arquibancada. 31 torcedores permanecem em Bangu para julgamento.

 
Leia mais abaixo, em matéria da Mídia Ninja:
 
Da Mídia Ninja
 
 
Torcedores corinthianos denunciam ação de policiais militares após conflito entre torcidas; 3 mil foram detidos de forma arbitrária no Estádio e 31 permanecem em Bangu para julgamento.

Torturas, agressões, xingamentos, ameaças e tratamento similar ao de uma penitenciária. Assim torcedores do Corinthians descreveram os momentos de terror pelos quais passaram após a partida entre o clube paulista e o Flamengo, no estádio do Maracanã, no último domingo (23).

A violência começou antes da partida, quando flamenguistas e corinthianos passaram a trocar xingamentos e ameaças nas arquibancadas. Mesmo separados por um cordão de isolamento, os rubro negros conseguiram avançar sobre a grade e invadiram a área destinada à torcida visitante, iniciando a confusão.

Torcedor do Flamengo pula grade que divide arquibancada. Foto: Autor desconhecido.
Torcedor do Flamengo pula grade que divide arquibancada. Foto: Autor desconhecido.

“Cerca de 30 minutos antes de começar o jogo, alguns torcedores do Flamengo tentaram invadir nosso setor na parte superior das arquibancadas. Os torcedores do Corinthians reagiram no momento, e isso estava encorajando os outros milhares de flamenguistas a também invadirem. Foi ali que começou a briga de fato”, diz Anderson Araújo, corinthiano que foi ao Maracanã acompanhar o “Clássico das Multidões”, como é conhecido o jogo entre as duas maiores torcidas do país.

“A PM começou a bater nos corinthianos ao invés de tentar conter a multidão que estava invadindo nossa área. Por isso a torcida se voltou contra eles”.

Reprodução de Vídeo amplamente divulgado pelas TVs da briga entre torcedores e PMs.

Ale, que pertence à organizada Gaviões da Fiel e teve seu nome alterado para não se identificar, chegou ao estádio de ônibus e acessou às dependências do Maracanã por volta das 15h50. Enquanto aguardava o apito inicial do árbitro, foi dar uma conferida no “mar vermelho” que tomava as arquibancadas e notou uma movimentação estranha entre as torcidas, com troca de xingamentos na região das grades. Foi ao banheiro, e quando retornou a briga tinha começado.

A briga foi apartada e a partida, que teve o placar de 2 a 2, continuou tranquilamente. No entanto, o clima nas arquibancadas da torcida alvinegra mudou. Ainda durante o jogo, algumas pessoas foram identificadas e detidas.

“Vi PMs e corinthianos se degladiando enquanto a torcida do Flamengo avançava. Eram poucos policiais ali pela dimensão do jogo entre as duas maiores torcidas do Brasil. Não sei se isso [agressão de corinthianos] desmoralizou o GEPE (Grupo Especial de Policiamento em Estádio), mas eles estavam muito bravos depois disso”.

A torcedora Tatiana também relata que durante o segundo tempo os policiais começaram a procurar torcedores que participaram da briga e a avisar que todos seriam punidos e que ninguém sairia do estádio sem sofrer as consequências, pois eles foram “humilhados em rede nacional”.

“Após isso, o que vimos ao fim do jogo foi a repressão da PM contra todos os torcedores”, afirma.

O fim do jogo decretou a abertura da ‘caça aos torcedores’

Há 5 minutos do encerramento da partida a voz vinda dos telões anunciou: “Pedimos a todos os torcedores do Corinthians para aguardar instruções do GEPE para saída do estádio”. Os cerca de três mil torcedores permaneceram em seu espaço, aguardando orientações. A ação a princípio não causou estranhamento por ser comum a torcida adversária aguardar a saída da torcida da casa em jogos de grande proporções.

No entanto, nesse momento os policiais começaram a circular entre os torcedores, olhando para seus rostos com celulares na mão, tentando fazer a identificação dos envolvidos, enquanto falavam, entre outras coisas: “Vocês estão pensando que aqui é São Paulo? Aqui é o Rio! Vocês estão acostumados a bater na polícia em São Paulo, porque os policiais de lá são mole, mas aqui não! Aqui vocês vão pagar, vão ser cobrados. Vocês vão ficar aí”’, relata o técnico em RH, Anderson.

O relato do torcedor é confirmado por outro publicado no blog do Menon sobre o caso:

“Com fotos de vários torcedores nas telas dos celulares, os PMs checavam os rostos dos corintianos em rodas formadas no corredor para buscar os acusados, identificados antes em imagens de TV. ‘ Machucaram um dos nossos companheiros mais gente boa. Não vamos bater em ninguém, vamos achar quem fez isso e prender. Já achamos um’, contava um dos policiais”.

A vingança contra todos os torcedores começou nesse momento: aqueles que não atendiam com velocidade as ordens dos PMs tomavam cacetadas nas costas e na cabeça. Segundo relatos os policiais também ameaçaram os torcedores organizados, dizendo: “A gente quer pegar os animais, os que gostam de bater em polícia, porque os Gaviões gostam de bater em polícia”.

Aproximadamente uma hora após o fim do jogo, os policiais ordenaram que os torcedores homens fossem separados das mulheres e crianças que estavam no local. Para Tatiana, esse foi o momento mais tenso, pois jovens menores de idade foram separados de seus pais e ficaram sozinhos a partir disso.

As mulheres começaram a chorar, temendo pela integridade de seus maridos, namorados ou amigos, e escutaram da PM: “Foda-se! Foda-se seu marido! Não gosta de bater em polícia? Vai ser tratado como bandido! Vocês vão pagar porque gostam de bater em polícia”, recorda Anderson Araújo.

Investigação padrão Carandiru

Por meio de celulares, os PMs procuravam os agressores de acordo com as imagens registradas na TV aberta. A presença de barba e tatuagem na perna foram as principais características destacadas na busca, que seguiu em meio aos ininterruptos gritos dos policiais com os torcedores.

“Eles não estavam identificando ninguém, só pegando aleatoriamente. Quem tivesse a característica que eles estavam procurando no celular, eles estavam pegando. Tinha muita gente inocente ali, que estava a primeira vez no estádio e porque tinha essas características foi levado. Ficamos muito tempo ali nessa tortura psicológica”, narra Ale.

A abordagem aos torcedores ultrapassava mais de uma hora e a torcida flamenguista e imprensa já haviam deixado as dependências do Maracanã. Nesse momento, os oficiais mandaram todos os homens retirarem suas camisetas e bonés e se dirigirem à parte superior da arquibancada, protagonizando a fotografia flagrada pelos poucos cinegrafistas que ainda se encontravam no estádio, e que relembra àquela retirada no Carandiru há 24 anos atrás.

Imagem capturada durante revista de torcedores no Rio de Janeiro relembra fotografia histórica retirada em 1992 na penitenciária do Carandiru, em São Paulo, em que presos são colocados sem camisa da mesma maneira. Montagem: Grupo Tortura Nunca Mais
Imagem capturada durante revista de torcedores no Rio de Janeiro relembra fotografia histórica retirada em 1992 na penitenciária do Carandiru, em São Paulo, em que presos são colocados sem camisa da mesma maneira. Montagem: Grupo Tortura Nunca Mais

“O Carandiru é aqui, porra!”, gritou um policial após ordenar a retirada das camisas, afirmou Marquinhos, outro torcedor entrevistado pela reportagem da Mídia NINJA.

“Se não acharmos quem bateu na polícia vão todos para Bangu, lá vocês vão ver como o coro come. Lá em Bangu é normal acontecer alguns acidentes, um cara cair, quebrar um braço ou uma perna, ficar com alguns hematomas, você sabem, isso acontece”, relatou Anderson sobre as falas dos policiais enquanto circulavam entre as fileiras de torcedores desnudos.

Ele ainda afirma que os PMs faziam o possível para não terem suas identificações observadas pelos torcedores. A ordem foi para que todos ficassem sentados com a coluna reta, com os pés para frente e as mãos nas coxas, olhando reto.

Se eles achassem que você olhou para os lados, davam cassetadas nas costelas ou na barriga e falavam: “Perdeu alguma coisa?”. “Esses batiam, xingavam, ofendiam, tratavam todos como lixo, como bandido, como vagabundo”, reclama.

Os torcedores organizados do Corinthians ficaram por horas sentados no corredor interno do Estádio do Maracanã sem contato externo, enquanto mulheres e crianças aguardavam ao lado de fora por notícias.
Os torcedores organizados do Corinthians ficaram por horas sentados no corredor interno do Estádio do Maracanã sem contato externo, enquanto mulheres e crianças aguardavam ao lado de fora por notícias.

Torturas

Quando algum torcedor era supostamente identificado com as características procuradas pelos militares, eram conduzidos ao túnel, em que, de acordo com Ale era possível ouvir os gritos das torturas praticadas para confissão da participação do torcedor na briga durante o jogo.

Em relato anônimo publicado no portal Lance, outro torcedor narrou como era a reação dos torcedores quando “identificados” pelos militares:

“A gente tava com medo de ser torturado. Aqueles que eram chamados para descer estavam com medo de serem torturados. Um cara que tinha uma tatuagem no ombro esquerdo – não sei se estava na briga ou não -, foi parado pelos policiais. Eles viram a tatuagem é falaram: “É esse aqui”. Veio um grupo de sete pessoas ver se era mesmo o cara, uns discordavam, outros concordavam. Até que um lembrou que o cara do vídeo usava boné. O rapaz tatuado abriu a mochila para mostrar que não tinha boné, alegando que não tinha nada a ver com a briga.

Então um dos policiais pegou o boné de outro torcedor que não tinha nada a ver com a história, jogou na cara dele e disse: “Agora você tem boné. Pode descer”. O cara foi quase chorando para lá”.

Abaixo algumas marcas da violência no estádio:

Foto: Autor desconhecido
Foto: Autor desconhecido
Foto: Autor desconhecido
Foto: Autor desconhecido

 

Foto: Autor desconhecido
Foto: Autor desconhecido
Foto: Autor desconhecido
Foto: Autor desconhecido

A história de Marquinhos

Marquinhos é torcedor organizado da Gaviões da Fiel e foi para o Rio de Janeiro assistir à partida entre as duas maiores torcidas do Brasil. Durante a confusão, estava do outro lado da arquibancada, tentado se refugiar da violência protagonizada por flamenguistas, corinthianos e policiais militares.

No entanto, ao fim do jogo não pode se desvencilhar da vingança dos oficiais. Abaixo seu relato sobre o acontecido e fotos chocantes do estado que ficou após a violência dos PMs.

“Após o jogo ficamos muito tempo esperando, nem sei ao certo quanto tempo porque não pude pegar celular. Eu estava com um amigo e descemos para tomar água, e quando voltamos não ficamos juntos com o pessoal da organizada. Os PMs mandaram as organizadas subirem e para todos se sentarem, então continuamos na parte de baixo da arquibancada, porque não íamos nos arriscar em subir.

Então um PM chegou próximo da gente e perguntou se éramos de organizada. Respondi que sim. Então ele perguntou novamente e disse para falar mais alto. Disse que sim de novo, mais alto. Outras duas vezes ele fez isso e respondi que sim ainda mais alto. “Então vocês estão aqui embaixo por quê? Sobe! Vocês estão se escondendo?”, ele ordenou depois. Nessa hora que eu tentei subir com meu amigo e desceram três policiais em nossa direção

O primeiro tentou me dar uma borrachada na perna, mas acabou acertando mais o vidro do que eu. Continuei subindo e não tinha para onde correr porque estava passando por cima das cadeiras. O segundo me deu um tapa na cara, e como eu fechei o olho ele acertou em cheio o meu nariz. Continuei tentando subir e ele virou e acertou uma borrachada nas minhas costas. Nem olhei para traz, e o terceiro veio e acertou em cheio a minha cabeça, e foi quando abriu o corte.

Quando cheguei junto à organizada eles ficaram preocupados, falaram para eu ir para o ambulatório que ficava na parte de baixo. Mas eu não queria correr o risco de apanhar de novo, descer sozinho, vai saber o que eles poderiam fazer comigo.

Então eu pedi para um dos PMs que deixou eu descer para o ambulatório. Eu fui, quando passei por todo mundo e estava já no ambulatório, um PM que estava por lá questionou para onde eu estava indo. Com a camisa na mão tentando estancar o sangramento na cabeça, disse que para o ambulatório. Ele me disse para não ir e perguntou o que tinha acontecido. Respondi que um PM me deu uma borrachada. Ele perguntou: “você tem certeza que um PM te deu uma borrachada?”. Fiquei quieto. Então ele disse: “você tem certeza que não caiu?”. Permaneci quieto. Ele me mandou subir e me acompanhou. Quando chegou perto de outros PMs ele disse: “Esse aqui está falando para todo mundo que um PM bateu nele”. Ai os outros ironizaram e um disse: “foi ele que caiu na hora da confusão”, enquanto dava risada”.

A cabeça de Marquinhos após a agressão sofrida pela PM. Como não conseguiu acessar o ambulatório, não pode tomar pontos no local do ferimento e voltou para São Paulo com o corte ainda aberto.
A cabeça de Marquinhos após a agressão sofrida pela PM. Como não conseguiu acessar o ambulatório, não pode tomar pontos no local do ferimento e voltou para São Paulo com o corte ainda aberto.
Marquinhos tenta estancar ferimento com camisa durante o conflito. Foto: TV Esporte Interativo.
Marquinhos tenta estancar ferimento com camisa durante o conflito. Foto: TV Esporte Interativo.

Corredor polonês

A liberação dos torcedores foi realizada por um “corredor polonês” em que policiais militares e do GEPE xingavam, batiam e ameaçavam, de acordo com as testemunhas.

“Eles fizeram um corredor e você tinha que passar na reta deles de cabeça baixa. Eles começaram a mandar a gente correr, enquanto xingavam as pessoas e, alguns eles, davam borrachadas”, afirma o torcedor Leonardo.

Muitos torcedores pegaram ônibus errados, porque não tiveram tempo para ver em qual vieram devido às ameaças dos PMs que mandavam todos correrem após a saída do corredor.

“Eles declararam que não fizeram nada, que não agrediram ninguém. Mas eu e muitas pessoas que estavam lá virmos com os próprios olhos eles levando torcedores para dentro de uma salinha e depois saindo dando risadas, enquanto abriam espaço para os bombeiros entrarem no local com o kit de primeiros socorros. Vi também um dos policiais quebrando um cassetete nas costas de um torcedor no corredor que dá acesso as arquibancadas”, afirma Tatiana.

 

 

31 detidos vão aguardar julgamento em penitenciária

Apesar de explorar a imagem da detenção e das agressões, pouco se falou na TV aberta sobre os relatos de violência e tortura vingativa da PM após o termino da partida.
Apesar de explorar a imagem da detenção e das agressões, pouco se falou na TV aberta sobre os relatos de violência e tortura vingativa da PM após o termino da partida.

Ao todo 42 torcedores foram presos no estádio e encaminhados para o Presídio de Bangu. Desses, 11 foram acusados por tumulto e liberados nessa segunda-feira, (24). Os outros 31 torcedores foram acusados por lesão corporal, dano qualificado, tumulto, associação ao crime e resistência e vão permanecer na penitenciária em prisão preventiva até julgamento, de acordo com decisão determinada pela juíza Marcela Caram nessa terça-feira, (25) em audiência cautelar no Rio de Janeiro.

Além disso o Supremo Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) em medida liminar proibiu o Corinthians de vender ingressos para suas torcidas organizadas. Cabe recurso para a decisão, que deve ser julgada dentro de duas semanas.

A prisão é questionada por muitos diante dos relatos de que os torcedores foram identificados aleatoriamente pela PM durante a averiguação no estádio. É o que afirma o repórter Hugo Rodrigues em artigo escrito para o site Torcedores.com. No texto ele chama atenção para o caso de André Luis Tavares da Silva, um dos detidos durante a ação:

“Nesta terça-feira (25), acompanhado de seu advogado, André participou da audiência, e mesmo concedendo provas de que não participou da confusão, o mesmo foi condenado à prisão preventiva. Em uma análise, enxerga-se que o julgamento, parece ter sido feito como um todo, não foi analisado caso a caso, André, foi o único que teve um advogado próprio para defesa, que apresentou provas, argumentou de maneira excelente, e mesmo assim, o que vimos foi uma decisão de decreto de prisão preventiva para todos, e André, “foi nesse bolo”, afirmou no artigo.

Ainda não há previsão para o julgamento.

Em nota, o Corinthians repudiou a violência policial contra torcedores que não estavam envolvidos no conflito, e criticou a incapacidade do policiamento de prender em flagrante os envolvidos. “A fim de capturar 40 torcedores que supostamente se envolveram em briga com policiais, a PM aprisionou 3 mil torcedores do Corinthians no Estádio do Maracanã”, diz a resposta do clube.

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