Trickle-down: Economia do gotejamento ou das migalhas?, por Albertino Ribeiro

Não é preciso ser economista para saber que um corte de 25% na renda de um servidor público terá impacto negativo no consumo, atuando de forma deletéria na atividade econômica

Trickle-down: Economia do gotejamento ou das migalhas?

por Albertino Ribeiro

Parece proposital. A equipe econômica sabe que muitos servidores são sindicalizados e tem simpatia pelo pensamento progressista, ou seja, são os inimigos preferidos do atual governo. Por esta razão, tornaram-se alvo dos rigores do projeto de lei (PEC 186). Se aprovada, a emenda constitucional atingirá em cheio os servidores federais, estaduais e municipais, reduzindo em 25% os seus vencimentos e suprimindo vários direitos.

Não é preciso ser economista para saber que um corte de 25% na renda de um servidor público terá impacto negativo no consumo, atuando de forma deletéria na atividade econômica que já está “entubada na UTI”.

É incrível! Enquanto países ricos colocam o imposto sobre herança e grandes fortunas (IGF) de volta ao centro do debate para mitigar os efeitos da pandemia, a equipe econômica prefere agir de acordo com os interesses do capital financeiro e movida por um desprezo nato a tudo que é do Estado, inclusive, seus agentes.

O leitor deve estar pensando: “mas esses impostos tem natureza socialista; uma equipe econômica liberal nunca vai propor esse tipo de imposto”. Não é bem assim. Sabia que os referidos impostos fazem parte da teoria liberal? Stuart Mill, um liberal, já defendia o imposto sobre herança no século XIX.

“A ideia de você tributar grandes fortunas foi construída dentro do pensamento liberal. As pessoas pensam que isso é coisa de socialista, o que não é verdade. A ideia do liberal neste caso é que você tem que ter igualdade de oportunidades. Se você tem famílias que partem de um estoque de riqueza muito elevado em relação às outras, você acaba com a tese da igualdade de oportunidades” – André Calixto, economista do IPEA.

Diversos países desenvolvidos tributam as grandes fortunas, por exemplo: Noruega, Suíça, Holanda, Itália, Bélgica. A capacidade arrecadatória do IGF na Suíça, amigo leitor, chega a 1,2% do PIB. Fazendo uma conta de padeiro, 1,2% do PIB brasileiro daria 80 bilhões de reais por ano. Por sua vez, a PEC emergencial irá trazer uma economia de 35 bilhões em 10 anos para compensar gastos com a nova rodada do auxílio emergencial, segundo o G1 (24/02/2021).

Mas se Guedes é liberal, por que ele é contra? A resposta é que o liberalismo do ministro não tem suas bases no Darwinismo que, pelo menos, aceita a cooperação como uma estratégia inteligente para sobrevivência. Pelo contrário, seu liberalismo parece estar assentado na biologia de Robert Spencer que traduz melhor o capitalismo predador defendido pelo governo.

Também é provável que o super ministro da economia e sua turma, abençoada por Olavo de Carvalho, defendam a teoria do gotejamento. Esta postula que, aumentando os ganhos dos ricos, os pobres serão beneficiados.

A retórica da teoria das migalhas (ops! Ato falho) é tão eficiente que nem mesmo a dura realidade consegue demovê-la das mentes massificadas pelas organizações globo e o capital financeiro. Infelizmente, muitos pobres acreditam nisso.Não sabem que, em certa medida, estão fazendo o sinal da arminha contra a própria cabeça e ainda com um sorriso no rosto.

“O conceito de gotejamento, assim como sua justificativa teórica, precisa ser revisto urgentemente. Essa teoria tenta igualmente explicar a desigualdade, o porquê de ela ocorrer, e também justificá-la, dizendo que seria benéfica para a economia como um todo”, argumenta Joseph Stiglitz.

A natureza do capitalismo predador, que está por trás da referida teoria, é o excesso; jamais conheceu ou conhecerá a parcimônia. Assim sendo, nenhuma gota vai para a taça, ou melhor, para a caneca do pobre; na verdade, a lógica aí operante é do aforisma: “o rio só corre para o mar”.

Albertino RibeiroTecnologista de Informações Geográficas e Estatísticas/IBGE. Pós-graduado em Psicologia Organizacional e do Trabalho. Ensaísta

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