TV GGN: Os obstáculos ao combate da violência sexual infantil

"A violência ainda hoje avança muito mais do que a concretude das estruturas públicas". A TV GGN conversou com a assistente social Carla Cristina Teodoro e a pedagoga Edna Ferreira

Jornal GGN – Os obstáculos para uma criança vítima de abuso sexual apenas começam com o falar e ser ouvida. Eles passam também pelas estruturas hoje existentes de recepção e formalização, seja de uma testemunha, ou de profissionais da educação e assistentes sociais.

Para entender quais são estes obstáculos e como o país ainda precisa avançar no enfrentamento das políticas contra o abuso sexual infantil, a TV GGN conversou com a assistente social Carla Cristina Teodoro e a pedagoga Edna Ferreira, pesquisadoras da área.

Narrando como o contexto da violência é mais complexo do que se sabe, Teodoro explicou que, entre todas os casos envolvendo a violência contra crianças e adolescentes que chegam ao canal de denúncias Disque 100, somente 3% dizem respeito a abuso sexual, e a mais denunciada é a negligência, seguida da violência física, a psicológica e, por último, a sexual.

“Como nós vamos avançar nesta questão?”, questionou Carla. “Se o Brasil é um país permissivo. Nós estamos falando de um país conservador, um país que tem em suas práticas o machismo, um país aonde mulher, criança, idoso, estão submissos a questões patriarcais, que está muito acendente no país, neste momento político do qual nós estamos vivendo”, completou.

Um dos primeiros desafios que devem se preparar os profissionais, que são os primeiros a realizar uma abordagem à vítima e, possivelmente, a única esperança para a criança de ser ouvida, professores e assistentes sociais devem estar atentos aos sinais.

As pesquisadoras, especialistas em violência doméstica contra crianças e adolescentes, narram que mesmo para elas não são fáceis identificar estes sinais. Por isso, clamam a atenção da sociedade, em não normalizar ou admitir que a violência seja admitida como “temas que se resolvem dentro de casa”.

Mas algumas mudanças de comportamento das crianças podem ser identificadas, principalmente por parte de familiares ou próximos que já conhecem aquela criança.

“Nos sintomas que nós podemos verificar, essa criança muda de humor, se a criança tem muito medo, se ela consegue dormir a noite, se ela tem muitos pesadelos, se chega um adulto e ela já muda, ela já quer se esconder, não quer ficar próximo desse adulto. Mas essa violência dentro da família guarda muitos segredos, então há também o que Furniss [Tilman] chama da questão da [síndrome da] adição, além de ter segredos, tem ameaças”, narrou Carla.

Nesse sentido, o silêncio guardado pela família, seja pelo próprio abusador e pelos demais membros, é também uma característica que dificulta a visualização dos sinais, explica Edna Ferreira.

“A violência é um fenômeno, sócio, histórico, cultural e pandêmico. Então quando a criança chega até a escola, ela chega com uma história de vida. E pode ser que esse abuso sexual ela sofre há muito tempo e há muito tempo ela está tentando verbalizar, ou já tentou em casa, e não foi ouvida ou foi e fez parte de um segredo, de um pacto de silêncio familiar, onde se protege o agressor e não a própria vítima.”

“Essa criança chegando à escola, dependendo da faixa etária, ela dá sinais, a maioria conta. Quanto menor, ela conta. Que está com dor, que está com sangue, que alguém mexeu nas partes íntimas dela, brincando com algum coleguinha, ela conta isso, e se o professor, a professora, não está atenta a essa fala, muitas vezes acaba passando. Mas muitas vezes, essa criança fala para a própria professora e aí a gente tem uma outra situação, porque nem sempre aquele professor está preparado para ouvir”, continua.

As teias que envolvem o trauma para a vítima do abuso sexual também, por muitas vezes ocorrerem no ambiente intrafamiliar, vão além da primeira violação. E, apesar de ser a mais traumática, o abuso é o primeiro de uma série de outras violações e traumas para aquela criança.

Com a tese de doutorado sobre violência sexual contra crianças e seus desdobramentos no ambiente escolar, Edna traz relatos dessa complexidade.

“Dentro da minha pesquisa, por exemplo, teve uma criança que ela falou que estava muito triste porque o pai dela tinha sido preso por causa dela. Mas ela queria, muito, falar para ele, que ela ama ele, mas que ela contou o que ele estava fazendo com ela porque ela só queria que ele parasse com isso.”

Segundo Carla, “a violência ainda hoje avança muito mais do que a concretude das estruturas públicas”.

E uma das primeiras formas de se avançar nas políticas é no reconhecimento da criança como sujeito de direito. “Isso, refletido na sociedade, reflete-se, também, nos órgãos protetores. Os pensamentos, os comportamentos e as práticas. Ainda há muito para refletir e muito para avançar na questão da violência infantil”, concluiu.

 

 

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