Verbos Militantes, por Jean Pierre Chauvin

Foto iStock – duplicada

Verbos Militantes, por Jean Pierre Chauvin

Quem acompanha a “evolução” dos debates na Internet, volta e meia se depara com a expressão “mi-mi-mi” – em geral, utilizada por aqueles que se intitulam orgulhosamente “de direita” (ou neoliberais, para dizermos logo a que essas criaturas vieram: excluir os outros, privatizar as riquezas do território Brasil e confundir “nacionalismo” com subserviência aos EUA).

Cada vez que se pauta um assunto controverso ou se questiona determinada abordagem, essa turba histérica reclama…da…reclamação alheia. Eis um dos paradoxos das acaloradas rinhas entre internautas – que muitas vezes posam como homens “direitos”, pessoas “do bem” etc.

Em tempos de síntese ruins e mal feitas, entendi por bem dar exemplo sucinto de como aquilo que se chama de “mi-mi-mi” pode ser refutado. O eventual leitor deste blog esteja à vontade para considerar esta postagem como um microaula de lógica discursiva.

Para nos atermos ao caráter trissilábico do “mi-mi-mi”, proponho que nos debrucemos sobre três verbos: “disputar”, “dividir” e “compartilhar”.

Salvo engano, os filhos da classe média que ainda restam terão escutado, muitas e muitas vezes, seus familiares reiterarem que o mundo é competitivo e que, portanto, seria preciso disputar o posto, o lugar, o espaço, com vistas a ocupar melhor posição no ranking, subir na carreira ou vencer na vida.

Quando o aconselhamento era mais brando (especialmente se partia daquele tio amalucado e sonhador, considerado como ovelha negra da família), aprendíamos que era preciso aprender a dividir o espaço, fosse com nossos amigos circunstanciais feitos no colégio, fosse com colegas de trabalho, fosse com nossas parcerias afetivas.

Agora, se você nasceu ou foi criado por uma família progressista (favor não confundir o adjetivo que cá utilizo com aquele que nomeia o Partido PP…), desconfiará, desde algum tempo, que, muito melhor que disputar espaços ou dividi-los, será compartilhá-los com os outros. Segundo essa concepção, em vez de partimos para o mata-mata, como se cada vaga de trabalho fosse encarada com uma final de Copa do Mundo, conceberíamos o mundo de modo solidário; e não solitário, com direito ao podium.

Repare-se que os três verbos (disputardividircompartilhar) eventualmente poderiam ser utilizados com direção aproximada, ainda que em contextos comunicacionais bem diversos. Mas isso não corresponde à verdade. Disputar pressupõe a vitória de um sobre o outro. Dividir sugere negociação milimétrica do espaço onde, teoricamente, no mesmo território poderiam caber duas ou mais pessoas ocupar porções similares de terra, céu ou água.

Mas, compartilhar… Ah, que diferença! Compartilhar diz muito mais. Sugere que, em vez de “deixar os outros para trás” (como se isso fosse fruto de nosso suposto mérito, empregado com máxima eficácia durante a disputa mais ferrenha); em vez de mensurar rigorosamente o espaço que uns e outros “fatiam”, possamos incluir (e sermos acolhidos) pelos demais, sem disputar a primazia do ambiente, território etc.

Não entra aqui o sentido de competição, nem de loteamento; o que mais importa é notar que um mesmo espaço pode ser utilizado solidariamente por mim e pelo outro, sem que percamos tempo a metrificar a quantos centímetros ou alqueires faremos jus.

Portanto, não se trataria de transformar a vida em uma partida de Banco Imobiliário, feito sanha pecuniária; nem de jogar longas rodadas de War, com vistas a conquistar territórios e receber mais exércitos para derrotar o inimigo.

Por aí se vê que não é só o significado dos verbos que muda: adquire-se maior consciência do alcance (ou limitação) da linguagem. Tendo em vista que a escrita nasce no pensamento e que o mundo muda a partir das ideias (e atitudes), parece ser o caso de dar menor atenção aos ruídos produzidos pela turma hipócrita, que adora pintar de ódio de classe o mundinho virtual.

Se é para apelar a repetições, prefiro recorrer àquele conto de João Guimarães Rosa em que o narrador – um médico do interior das Minas – descreve os três cavaleiros como “mumumudos”: síntese das sínteses, a comprovar o elevado poder embutido nas palavras e seu poder transformador.

Quanto aos adeptos do famigerado “mi-mi-mi”, podem continuar com a sua palavra-chave de três sílabas iguais, a sintetizar o caráter supostamente verborrágico ou a suscetibilidade do militante “de esquerda”. Isso não nos causaria espanto: à direita que mais reclama (e não admite contestação) falta justamente sensibilidade, autocrítica e coerência.

Afinal, convenhamos, desde quando “mi-mi-mi” é argumento?

Como contestar o discurso ou a atitude do outro, enquanto o sujeito “moderno” e “de bons modos” matraqueia com panelas ou veda os cinco sentidos aos erros – ainda maiores – cometidos por seus “candidatos” e togados olímpicos?

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